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Humanos

No insondável, habitamos
Sólidos, planetários
Trajamos corpos limítrofes
Com almas imortais
Já nos havíamos encontrado
Quando, onde, que importa
Quanto tempo tem uma vida?
Quantas vidas cabem na aorta?
Estamos no agora
E carregamos naves insanas
No meio do peito
Que polidas no viver
Invadem a massa cinzenta
De nossa arrogância
E observam, elas, a maravilhosa
Perfeição da impertinência
De sermos, tão somente, humanos
Carnes que se querem e apodrecem
Mas almas que vieram espelhar-se
Para fazer da vida uma obra de arte
Infinitos, até quando
Residimos nos abismos
Líquidos, como a água do rio
Que se funde no oceano divino
No silêncio, habitamos
Etéreos, terráqueos
E a cada morte
Renascemos extáticos
Um só campo, trágicos
Estrelas de uma constelação
Imperfeita, somos mágicos
No cosmos, amamos
E amar é desaprender

Depois das ruínas

Sobre adentrar recônditos escuros,
Espera-me, amor,
Que as ruínas são nossas
Para compartilharmos
Da sede da reconstrução.

Há um gosto amargo
Lançado ao chão?
Eu só vejo luminância
Neste castelo repleto
De teias de aranha.

Cada pedaço de madeira
Que despenca na dormência
Dos nossos corações
É o fogo-fátuo que nos desperta
De uma sombria hipnose.

Faz-se um clarão ao longe,
No subterrâneo,
E há sempre um corpo que jaz
Submerso aos pedaços de ferro.

Mas a luz observa à espreita.
As ruínas oferecem redenção.
Aprecio-as porque desbancam vaidades.

Espera-me, amor!
Vamos recriar a liberdade!

Não analise, celebre!

Após o lançamento do documentário Wild Wild Country, Osho virou um dos assuntos mais comentados entre os viciados em séries da Netflix. E também nas redes sociais. Quanto a ele, as questões que fazem com que agora, de uma hora pra outra, estejam pipocando críticos ferrenhos em grau máximo de ódio, são as mesmas que motivam as brigas políticas no país, com um querendo provar estar mais certo e mais correto que o outro, enquanto a vida passa e o sistema político permanece o mesmo. Se tem uma coisa que aprendi com tudo o que cresceu em torno de Osho foi sobre o poder do coletivo para além de toda e qualquer polaridade. E muito mais. Apesar de não o defender como guru iluminado, sem dúvida, aprendi muito quando conheci sua obra e até mesmo com a sua vida totalmente disparatada.

Osho é um mito contemporâneo. Foi uma das figuras mais controversas do século XX, amado e odiado no mesmo grau. Considerado um falso guru por uns, verdadeiro e iluminado para outros, desde criança manifestava inte…

Se há cansaço

Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também a casa
Pedaço imenso de conforto
Singular
Que descansa
O que a lida cansa
E nos convida a recuar

Nessas horas pesarosas
Pouca coisa importa
O essencial se porta
Horizonte em nobre cena
Sob as folhas que balançam
Plenas de sua fotossíntese
Ao céu estrelado
Fragmento do óbvio
Que atrai o homo sapiens
Desde o seu primeiro espasmo

E o silêncio inquebrantável
Do abraço que se ama
Confortável
Ruídos de grilo
Ecoando na montanha
Café e cama

Um vinhedo antigo
Lembra que o tempo
É o rei soberano
Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também um oceano
De calma e certeza
De onde é preciso estar

Babel

Minha missão
É “incorrer em tautologias”
Nasci errada
Uso mantras diariamente
Por necessidade e prazer
Não sei olhar no espelho
Que não seja para ver as rugas
Que escalam os fossos do cérebro
O azul me enerva
Posto que é cor que não se soube
Por muito tempo
Se uso óculos
Não é para melhorar a visão
Toda a gente já nasce enxergando
Mas esquece
Minhas mãos não me entregam verdades
Meu rosto menos ainda
Tudo o que sei
Coloco em palavras
E elas não são
Absolutamente nada
Para ver de fato
É preciso abandonar
A seriedade
Gosto de descascar as sombras...

Catedral

Há tempos atrás
Sonhei para nós dois
Uma gótica catedral
De pedras firmes
E torres bem altas
Para delirarmos
A ilusão da eternidade

Mas ervas daninhas
Proliferaram  nas cabeças
Dos gárgulas
E no fim dos tempos
O que restou
Foi nada

Até nos esbarrarmos
Na velha cidade
Sob o leito
Da madrugada

Apenas de poesia

Se eu pudesse
Viveria só de poesia
Encarnada na beleza
E na crueldade do sutil
Largaria os delírios errados
As planilhas sem vida
Os contratos que amarram
A burocracia construída

Pois amanheci desejando mergulhar
No que revelam aqueles olhos
Foi por pouco que não te disse,
Não sei bem de que maneira,
Que devias ser meu, por que não

Amanheci querendo o brilho dos girassóis
Dos quadros de Van Gogh na minha janela
E quando eu olhasse a vida lá fora
Não veria apenas os carros que passam

Amanheci querendo mais a prosa de ontem
O riso amigo talhado em reencontros criativos
O prosecco providencial de uma noite sem fim
Poética dos tempos sem tempo da paixão

Amanheci querendo diluir minha alma
No andantino da quarta de Tchaikovsky
Ainda que o russo não rime com o português

Mas amanheci e já tocava o telefone
E me lembrei da moral
E já era tarde para o capital
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo do trabalho
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo das convenções
Pois que lugar pode ter a…