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Depois das ruínas

Sobre adentrar recônditos escuros,
Espera-me, amor,
Que as ruínas são nossas
Para compartilharmos
Da sede da reconstrução.

Há um gosto amargo
Lançado ao chão?
Eu só vejo luminância
Nesse castelo repleto
De teias de aranha.

Cada pedaço de madeira
Que despenca na dormência
Dos nossos corações
É o fogo-fátuo que nos desperta
De uma sombria hipnose.

Faz-se um clarão ao longe,
No subterrâneo,
E há sempre um corpo que jaz
Baixo aos pedaços de ferro.

Mas a luz observa à espreita.
As ruínas oferecem redenção.
Aprecio-as porque desbancam vaidades.

Espera-me, amor!
Vamos recriar a liberdade!

Aniversário

Quando eu era mais nova, achava que aos 38 anos teria grandes certezas. No entanto, hoje, ao completar 38, só sei que nada sei. Descobri que após tanto condicionamento, só nos cabe, na vida, aprender a desaprender. Não que eu não saiba nada; mas sei mais hoje sobre o invisível, o impalpável, sobre o dentro. Intuo. Na verdade, acredito agora que esse é o único conhecimento concreto, porque a vida é pura impermanência e todo conhecimento externo é apenas uma manifestação fragmentada do interno. Fora da gente, tudo é caos. Nos é impossível absorver o fora de forma total e encontrar as repostas nele. Fora, pintam nossa imagem de maneira caricata e "encaixotada", desde cedo. E nós não somos nossa imagem, mesmo que acreditemos nela, que tenhamos aceitado tudo o que disseram que nós éramos, deveríamos fazer, ser ou não ser. Nada sei hoje sobre qual é o melhor caminho a seguir. Apenas sei como eu posso começar a melhor contribuir com o mundo que eu desejo. Estou aprendendo a desapr…

Humanos

No insondável, habitamos
Sólidos, planetários
Trajamos corpos limítrofes
Com almas imortais
Já nos havíamos encontrado
Quando, onde, que importa
Quanto tempo tem uma vida?
Quantas vidas cabem na aorta?
Estamos no agora
E carregamos naves insanas
No meio do peito
Que polidas no viver
Invadem a massa cinzenta
De nossa arrogância
E observam, elas, a maravilhosa
Perfeição da impertinência
De sermos, tão somente, humanos
Carnes que se querem e apodrecem
Mas almas que vieram espelhar-se
Para fazer da vida uma obra de arte
Infinitos, até quando 
Residimos nos abismos
Líquidos, como a água do rio
Que se funde no oceano divino
No silêncio, habitamos
Etéreos, terráqueos
E a cada morte 
Renascemos extáticos
Um só campo, trágicos
Estrelas de uma constelação
Imperfeita, somos mágicos
No cosmos, amamos
E amar é desaprender



Ser ou não ser: eis a questão!

Hoje li uma frase interessantíssima da maravilhosa Bruna Lombardi: "se o plano A não funcionar, lembre-se que o alfabeto tem mais vinte e cinco letras". O máximo, não é? É preciso ouvir quem foi capaz de interpretar Diadorim na televisão! Mil atrizes passarão e ela continuará sendo mito: um Ser que despertou para a sua potência. A frase caiu como uma luva para começar este texto em que pretendo falar um pouco sobre buscar quem somos, algo que vem deixando muita gente ansiosa, porque acha que controla a vida. Que cilada!
"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre / Em nosso espírito sofrer pedras e flechas / Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, / Ou insurgir-nos contra um mar de provocações / E em luta pôr-lhes fim? Morrer, dormir, não mais".
O clássico texto acima, uma fala de Hamlet, de Shakespeare, traz uma profunda reflexão filosófica de toda a humanidade desde sempre. Shakespeare era bom em dar vida ao inconsciente coletivo antes mesmo que Jung diss…

Não analise, celebre: um papo sobre Osho, política, espiritualidade, sexo, amor e liberdade.

Após o lançamento do documentário Wild Wild Country, Osho virou um dos assuntos mais comentados entre os viciados em séries da Netflix. E também nas redes sociais. Só não foi mais por aqui porque o lançamento da série documental coincidiu, no Brasil, com o circo feito pelo STF e a mídia em torno da condenação e prisão do Lula. E enquanto eu assistia os capítulos, ia encontrando semelhanças entre as histórias, guardadas as devidas diferenças entre um e outro. Mas, ao meu ver e de outros tantos, Lula foi condenado de forma apressada e por motivos políticos. Pois ainda que haja crimes, as provas são insuficientes. O mesmo aconteceu com Osho. As questões realmente em jogo são de outra ordem. Mas não estou aqui para defender nem um nem outro como se fossem seres imaculados, pois ninguém é. Somos todos luz e sombras. E ainda que eu ache que Lula tenha sido condenado por razões eleitoreiras e considere o seu primeiro governo o melhor que o Brasil já teve, não vou defender que deveria ter si…

Se há cansaço

Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também a casa
Pedaço imenso de conforto
Singular
Que descansa
O que a lida cansa
E nos convida a recuar

Nessas horas pesarosas
Pouca coisa importa
O essencial se porta
Horizonte em nobre cena
Sob as folhas que balançam
Plenas de sua fotossíntese
Ao céu estrelado
Fragmento do óbvio
Que atrai o homo sapiens
Desde o seu primeiro espasmo

E o silêncio inquebrantável
Do abraço que se ama
Confortável
Ruídos de grilo
Ecoando na montanha
Café e cama

Um vinhedo antigo
Lembra que o tempo
É o rei soberano
Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também um oceano
De calma e certeza
De onde é preciso estar

Babel

Minha missão
É “incorrer em tautologias”
Nasci errada
Uso mantras diariamente
Por necessidade e prazer
Não sei olhar no espelho
Que não seja para ver as rugas
Que escalam os fossos do cérebro
O azul me enerva
Posto que é cor que não se soube
Por muito tempo
Se uso óculos
Não é para melhorar a visão
Toda a gente já nasce enxergando
Mas esquece
Minhas mãos não me entregam verdades
Meu rosto menos ainda
Tudo o que sei
Coloco em palavras
E elas não são
Absolutamente nada
Para ver de fato
É preciso abandonar
A seriedade
Gosto de descascar as sombras...