26.9.07

Festa

Era um
Passaram-se dois
No terceiro eu queria morrer
Mas no quarto o sol foi tão gritante
Que não tive escolha
Dancei loucamente

1.6.07

Fragmento

Quero me afogar na chuva como as plantas.
E sentir como um estômago.
Digerindo, produzindo líquidos.
Vomitando e separando nutrientes.
Quero um poço cheio de lama:
misturar-me aos vermes.
Rastejar...

15.5.07

Auto da poesia autoral

Sou poeta da autoreferênciaInterior de mim
Eu, concreta e neblina
Que carrega a casa nas costas

Não preciso de mais nada
Meu quintal é o mundo inteiro
Poeta que não escreve ou diz para ser poeta
Poeta que se gradua no cotidiano
Na hora da alvorada, do amor, da refeição
Na hora do nada
Sou poeta de mim e de tudo
Porque em mim tudo se renova
E no tudo eu me relavo
Poeta de dores profundas
Das lembranças mal quistas
Mas de grandes alegrias
Das doces memórias
E do presente em movimento
Sou poeta das águas
Aquilo que me refaz
Celeste manifestação corporal da Terra
Onde encontro o prazer da intensidade
Por fim, sou poeta da infinita curiosidade
E de um desejo sem fim de mim mesma
...Desencontrada
Planando nos céus sob abismos do mundo todo
Sempre em busca de novas madrugadas
Diverso essencial do verso de mim

Ode



Ode ao mar que me faz silêncioAo sol que me faz desejoAo mistério que me faz criançaDe todas as coisas do mundoCarrego um poucoE de todas as estrelas,virtualidade da matéria,carrego a longa permanência da luzE do caminhar à beira de breves ondassentido em meus pés desenraizadosa áspera areia brancaSei... sincero é o mais longínquo dos astrosE errôneos os que caminham ritmadosno tempo da maquinaria do mundo-gente
Observo-os de longe
da beira-mar onde estou,formigas cujas odes são ao controleE eu, nesse mesmo mar que encontro aos pés...IncontrolávelÉ o mar que lança sua força em mimDe tal modo que meu respeito a sua infinitude se diluie sou em uníssono com elePorque ouço uma voz que sempre me chamaComo vozes ouvidas antes por meus ancestraisE ouço ainda um sinalQue me guia pelo cheiro da maresiaE chego ao farolOde ao farolQue ilumina a extensão da mais profunda belezaDe lá contemplo tudo o que possa haverPela manhã o nascer do solVida pulsanteForça de naveganteDo espaço-tempo de luz e trevasBrilho da magnitudeIlumino em conjunçãoSinto o calor me tomar para siE algo me diz que também eusou estrela no infinitoQue também em mimgiram planetas em órbitaE que também por mimo mundo gira e se faz permanente movimentoE eu sinto esse calora luz a que fogem meus olhos vermelhos de luaLânguidos e suavesPorque também eu sou a aniquilaçãoE, assim, maré que vai e veme move o universoE quando tudo se calaTambém a morte pode reivindicar a vidaE vive-se na morteDa mesma forma que se vive mortoO dilema nunca é um dualismoÉ dorE a dor é forçaA dor das águas é o grito do mundo que,com força, arrasta para o profundo horizonteO mar sabe das doresEle recebe almasSente e molda o mundoA minha dor sente e molda minha vidaE faz girar moinhos quetransformam ventos em caminhosE sempre pra longe eu vouComo barco de pescadorCanoa de desejosPeixe que não se distingue da águaÁgua que remexe, expulsa e corróiE como vento e longitude, eu sigo,capitã de grandes navios piratasPorque ser pirataÉ ser marinheiro de almaNavegante por paixãoAfirmativo poder das ondasÉ ser vento que trazOra raios luminososOra cinzas tempestadesÉ ser um com o marOde aos piratasMais peixes que marinheirosOde ao marMeu segundo de eternidadeMas Terra do que a terra

12.2.07

Móbile

Danço
E quando não danço
me lanço
Retomo dois, três, quatro passos
Separo cinco, seis, sete cantos
E reparo

De um lado a outro me desloco
Caminho lado a lado
E engano
Me engano
Sou reflexo
Som de eco
Me debato
Me carrego

Sou de ferro
E de aço
Também refaço
Sou de vento
E de água
Me entrego
Afogo mágoa
Sou exata
Por alguns segundos
Antes de uma nova rajada

Água

Caem como estrelas no horizonte da noite
Entregam-se como loucos apaixonados
Golpeiam, tomando para si tudo o que desejam
E mesmo quando não desejam
Corróem, diluem, esbravejam
Rastejam como bichos famintos
Violentam como doentes terminais
Carregam, levando tudo o que se move
E mesmo o que não se move
Desvelam, desnivelam, retomam
E minha dor vem como um refluxo
Remexe
Flutua como bolha de sabão
No infinito espaço da solidão humana
Pois a cada dia matamos algo que não nos pertence
Porque ainda nada nos pertence
Matamos algo a cada dia

Do efêmero infinito

Sou uma “pensatriz” do disforme
Porque não concebo idéia e história
Mas a possibilidade do impossível
Sou o que pensa e desconstrói o pensamento
Ativista do momento eterno
E manifestante da não-teatralidade
Sou o que existe e seu oposto
E mais ainda, o que não se concebe
Uma força que emana dúvida
E suga a luz do mundo
Sou mais...
O que se conserva e o que morre súbito
O mundo que existe no intervalo
Entre dois longos nadas
Mundo sutil e espetacular
Sutileza ingrata!
Quando se percebe o que eu era
Já não é mais

7.2.07

O mar

Esse mar tão aberto
que me impele a vivê-lo
Não a desvendar seus segredos
pois já os sei, meu mar aberto
sei a brisa
a força
sei o tom e os silêncios
Esse mar tão meu e tão do mundo
lembra-me a mim
Tão minha e tão do mundo
E o barco que o navega,
meus desejos submersos
aquáticos
fluidos
Metamórficos!!!
Essa metamorfose do mar sou eu
Com ele me entendo
Porque as ondas são a energia da vontade
e, ainda, o expurgo dos males por cicatrizar
E o mergulho o perder-se,
longe do medo de lançar-se
Onde o doce é intempestivo
o raso, profundo
e o espaço, infinito
E o choro que escancaro
minha alegria sob tamanha imensidão
Deus Mar Todo Poderoso!
Fui criada a sua imagem e semelhança!

4.2.07

tempo

às vezes eu carimbo
às vezes eu datilografo
dura vida de escrivã
dura vida do cotidiano
às vezes eu penso...
às vezes dispenso

dia perfeito

um dia perfeito...
em que cores efusivas se espalham com o sol,
de vento revolvendo alegrias e amores
um dia de luz...
de vida pulsante no horizonte
de saudades de sorrisos e olhares distantes
um dia perfeito...
com quem viver um dia de luz?
com quem viver por todos os dias?

quando o mundo nasceu

todos esses magníficos sons ao luar...
sem muita explicação eu amava
e como amava o ser celestial
que, de tanto rir, me encantava
eu vivia para este encantamento
naquele tempo em que as flores
ainda viviam pela terra
naquele tempo em que o mundo,
de uma explosão,
fez-se esplendorosa profusão de cores e olfatos
quanto então toda a vida gritou
e transformou o conceito de silêncio

Vasto Mundo















Tudo em mim é um outro
Toda a existência me tatua
Mas uma luz se esvai no vazio que me devora
Como fogo primeiro
Todo outro é um ninguém
Um disforme que se perde na neblina
Folhas sem verde
Telas não pintadas
Ondas sem oceano
Carregando barcos sem leme
Um sopro sem oxigênio
Um vento
Eu sinto o vento
Silencioso no primeiro momento
Um vento sinuoso, colorido
Que carrega o passado
Mas um vento
Ventos passam e transformam
Ventos renovam
E eu desejo o mundo inteiro
Que será que este mundo reserva a mim?
Qual leveza...
Qual intensidade...
Em que ombro amigo vou poder chorar?
Que novas músicas ouvir?
Uma nova velha voz rouca
Uma nova velha suavidade
Um novo velho distante horizonte
Um negro, um homem disposto a voar...
Quantas paixões?
Tudo em mim é um outro
Praia, lagoa, universo
Tudo em mim é verso
Todo outro é um ninguémSempre pronto a se tornar alguém

Nostalgia

Existir é viver no limite da sanidade.
Se eu pudesse agora te dizer de tudo que em mim explode...
Se eu pudesse escarrar minha saudade...
Essa nostalgia toda de barro, folhas e suores.
Sempre a lembrança entre os presentes!

A fome

Tenho fome.De tudo aquilo que me tira o ar.Desejo comer os meus problemas para digeri-los....Desejo comer a própria fome,e também a raiva, a angústia.Devorar a dor.Essa dor de perda.Uma dor de nada.Desejo mastigá-los, um a um,o desespero,os detestáveis e desprezíveis homens que insistem em permanecer,as famigeradas verdades que proclamamos em palanquessob bandeiras moralistas.
Eu odeio a fome.
Porém, ela é a única certeza,
uma certeza animal, selvagem,
de que sempre falta alguma coisa,
de que sempre, assim,
seremos eternos escravos do outro.

Planeta Mar

Quando me apresentaram a ti Eu era uma criança E tu já eras uma entidade: Aquela que deveria nomear o planeta, Planeta Mar. Desde então...