Ode


Ode ao mar que me faz silêncio
Ao sol que me faz desejo
Ao mistério que me faz criança
De todas as coisas do mundo
Carrego um pouco
E de todas as estrelas,
virtualidade da matéria,
carrego a longa permanência da luz
E do caminhar à beira de breves ondas
sentido em meus pés desenraizados
a áspera areia branca
Sei... sincero é o mais longínquo dos astros
E errôneos os que caminham ritmados
no tempo da maquinaria do mundo-gente
Observo-os de longe
da beira-mar onde estou,
formigas cujas odes são ao controle
E eu, nesse mesmo mar que encontro aos pés...
Incontrolável
É o mar que lança sua força em mim
De tal modo que meu respeito a sua infinitude se dilui
e sou em uníssono com ele
Porque ouço uma voz que sempre me chama
Como vozes ouvidas antes por meus ancestrais
E ouço ainda um sinal
Que me guia pelo cheiro da maresia
E chego ao farol
Ode ao farol
Que ilumina a extensão da mais profunda beleza
De lá contemplo tudo o que possa haver
Pela manhã o nascer do sol
Vida pulsante
Força de navegante
Do espaço-tempo de luz e trevas
Brilho da magnitude
Ilumino em conjunção
Sinto o calor me tomar para si
E algo me diz que também eu
sou estrela no infinito
Que também em mim
giram planetas em órbita
E que também por mim
o mundo gira e se faz permanente movimento
E eu sinto esse calor
a luz a que fogem meus olhos vermelhos de lua
Lânguidos e suaves
Porque também eu sou a aniquilação
E, assim, maré que vai e vem
e move o universo
E quando tudo se cala
Também a morte pode reivindicar a vida
E vive-se na morte
Da mesma forma que se vive morto
O dilema nunca é um dualismo
É dor
E a dor é força
A dor das águas é o grito do mundo que,
com força, arrasta para o profundo horizonte
O mar sabe das dores
Ele recebe almas
Sente e molda o mundo
A minha dor sente e molda minha vida
E faz girar moinhos que
transformam ventos em caminhos
E sempre pra longe eu vou
Como barco de pescador
Canoa de desejos
Peixe que não se distingue da água
Água que remexe, expulsa e corrói
E como vento e longitude, eu sigo,
capitã de grandes navios piratas
Porque ser pirata
É ser marinheiro de alma
Navegante por paixão
Afirmativo poder das ondas
É ser vento que traz
Ora raios luminosos
Ora cinzas tempestades
É ser um com o mar
Ode aos piratas
Mais peixes que marinheiros
Ode ao mar
Meu segundo de eternidade
Mas Terra do que a terra

Comentários

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