Em tempos de eleição, vamos falar de política

É chegada a hora de mais uma vez irmos às urnas votar. Mais um dos deveres do cidadão, esse personagem tão sem direitos... Andando pela rua esses dias ouvi uma daquelas musiquinhas de candidatos e naquele momento ela me incomodou profundamente. Discordo que os incomodados que se mudem... para mim os incomodados devem mostrar porque se incomodam, e há muitas formas pra isso. Nós, brasileiros, e nossos ditos populares... sempre tão passivos e conformistas...


O sistema democrático é falho em sua utopia, e não sei como até hoje, depois de séculos, ainda se acredita que um dia a democracia realmente vai existir. Ela será sempre representativa e, assim, jamais coletiva. Eu vos digo: ela já existe e é exatamente como a estamos vivendo. Cada povo, país ou coletividade a configura de acordo com seus anseios. Não há palavra por si só, coisa por só, como entidades; apenas os usos que fazemos das palavras e das coisas criam os seus sentidos.


Esse tipo de política personalista me desagrada completamente. Personalista por se concentrar na persona, no "fulano de tal" que irá resolver todos os nossos problemas. Por que será que ainda mantemos nossos ouvidos atentos para as musiquinhas? Por que será que nenhum candidato ousa falar abertamente de tabus como a miséria, o racismo, entre outros, trazendo as questões para o debate como questões políticas, insistindo em nos mostrar números e dar sorrisinhos? Não venha me dizer que a culpa é do sistema. Se há uma política que funciona de tal maneira no país é porque ela foi construída e é perpetuada dessa maneira no dia a dia. Não há diferença entre povo e política. Há uma mentalidade ainda escravocrata.

Política para mim é algo que se faz no dia a dia. O que acontece nos âmbitos municipais, estaduais e federais é tb política, mas sem a propriedade de ser A política. Especialmente porque acredito em política como um processo cotidiano de configuração do mundo, onde subjetividades são produzidas o tempo inteiro por coletividades as mais múltiplas, por singularidades agenciando, desejando, se atravessando.

Se pensarmos na historia da humanidade e em todos os devires possíveis, não nos prenderemos mais em nosso sistema social. Quem é que se pergunta por que não pode ser diferente? Mas eu digo diferente mesmo... Por que é necessário mantermos a ordem social como está? Por que o Faustão diz em cadeia nacional que eu não posso votar nulo? Por que a legislação de direito autoral diz que eu não posso disponibilizar a minha música de graça para qualquer um alterar? Que liberdade é essa que desrespeita a vontade, o desejo e até mesmo o coletivo? Digo o coletivo e reitero. Nenhuma instituição é feita para o coletivo, apenas para ela mesma. Só se justifica nela. Pense bem. Se houver alguma ponta de dúvida por vc nesta afirmação, por gentileza, me convença. do contrário. Apenas o coletivo como força [independente do seu tamanho e sua abrangência] é feito para o coletivo. Só assim não há a representação. Mesmo nos ditos mecanismos democráticos, como fóruns, conselhos e blau, sempre há o mecanismo de representação [o decreto, a carta, o escolhido etc]. Gerencia coletiva é gerencia coletiva; líderes vem e vão espontaneamente por contexto... E, haja dificuldade e medo de lidar com o desconhecido, o novo...

Resistir não é apenas ir para rua, votar consciente [essa é boa...], fazer greve, jornalzinho e o escambau. É ir além. Resistir é bater o pé pelo seu modo de vida. É não ter medo do mundo que vc vive. É criar a sua realidade independente de padrões massificados. Pois tão massificado quanto os biscoitos que comemos e as novelas que assistimos é o fato de sermos cidadãos. Me desculpem os gregos, mas eu sou muito mais que um cidadão... o cidadão é regulado e prisioneiro de normas; o não-cidadão, o não-classificável, a singularidade que somos, é uma estrela sempre pronta a brilhar e amar. O quanto de "revolucionários" não são reacionários, conservadores, facistas em seu dia a dia? Ih, número grande... A revolução jamais é uma revolução apenas no âmbito macro... Mude um tiquinho de seu cotidiano e verá as coisas sob novos prismas... Pense, pois isso já é agir. Relativize: sua comida, sua roupa, sua forma de lidar com o amor, com seus amigos, com o seu corpo. Questione. E não tenha medo de ser o bobo. Sempre haverá um monte de gente com pedras para jogar nos outros. Sempre vai haver as acusações de traidor, incoerente [como se viver tivesse alguma coerência; a vida não é nada precisa...], ou vão achar que se fala demais e não se faz nada. Mas quem disse que temos que fazer aquilo que esperam que a gente faça? Qual o nosso medo de dizer não? O medo de afirmar?


Ouso tb distribuir aqui o meu panfleto. E fica o convite para o calor de uma boa prosa, mesmo que seja virtual.

Para reflexão, um pouquinho do mestre Foucault:

Libere a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante. Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, antes que por submissão e hierarquização piramidal. Libere-se das velhas categorias do negativo [a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna] que o pensamento ocidental por tanto tempo manteve sagrado enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os agenciamentos móveis aos sistemas, considere que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. Não imagine que precise ser triste para ser militante, mesmo se a coisa que combatemos é abominável. É o elo do desejo à realidade [e não sua fuga nas formas de representação] que possui uma força revolucionária. Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não fosse senão pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política. Não exija da política que ela restabeleça os "direitos" dos indivíduos, tais como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é "desindividualizar" pela multiplicação e pelo deslocamento, pelo agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o elo orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de desindividualização. [Michel Foucault. Uma introdução a vida não-facista]

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