Rotina

existe poesia na rotina? digam aí. eu só vejo poesia!

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Toca o despertador. Acordo. Não entendo o que está acontecendo. Disparo o soneca do celular. Ontem dormi um pouco tarde. Foi inevitável. Senti o cheiro da pele e do cabelo, pé no pé, chuvinha lá fora, o calor do corpo dele do meu lado. Gozei e perdi o sono. Falamos da vida, tivemos idéias esquisitas, rimos muito disso. Ele dormiu, eu fiquei pensando em qualquer coisa, peguei um livro, Pessoa, Saramago, Tantra, Eram os Deuses Astronautas... tanto faz. Era um livro que eu gostava. Dormi. O soneca dispara a cada cinco minutos. Não consigo configurar pra dez. Levanto e vou fazer xixi. Vejo minhas olheiras no espelho. Vou ao quarto dar um beijo no rosto dele enquanto ainda dorme e fecho a porta. Nado, faço yoga. Volto. Fazemos café, vitamina com frutas, quinua, linhaça e leite de soja. A gente se beija, se abraça e come pão integral com manteiga. Vejo o que se passa na TV. Notícias de furacões, terremotos, maremotos, Mais Você, Bom Dia Brasil, agenda cultural. Fico em silêncio, acho que estou de mau humor sem motivo. Junto tudo na bolsa: o celular cheio de funções que ainda não sei usar, uma agenda cheia de papel e contas pra pagar, fones pra ouvir música no trânsito, livro pra ler na barca, bolsinha de moedas, carteira gorda de cartões de visita, cartão da Unimed, documentos, comprovantes do Visa... e vazia de dinheiro. A bolsa é de pano e fica pesada. Penso em levar a mochila. Não estou afim. Entra tudo na bolsa. Escovo os dentes, vou ao banheiro ficar mais leve e tomo banho com sabonete de mate verde pra me sentir mais perto do mato. Passo hidrante de guaraná. Ainda não uso creme anti-idade, se é que um dia vou usá-los. Escolho a roupa. Hoje é dia de trabalhar. Salto alto ou salto baixo? Vou de all star de couro e casaco meio blazer, calça apertada, brinco grande, lenço colorido no pescoço. Cabelos soltos até secar. Saio correndo, ando até as barcas porque preciso economizar. Os ônibus diretos têm demorado. A barca está saindo. Porque isso sempre acontece? Saio correndo com o fone quase caindo, livro em uma mão, guarda-chuva verde na outra. Consigo passar na roleta a tempo. Está frio mas estou suando. A barca está cheia, consigo sentar e ler um pouco mais. Chego na Praça XV. Preciso comprar um presente de aniversário para um amigo. Vou até a livraria. Escolho e pago. Saio. Corro pra pegar outro ônibus. No ponto uma criança pede dinheiro. Todo mundo desvia dela e ninguém olha no olho da criaturinha. Dou uma moeda para poder comer ou para o seu ópio diário. Sei que ela precisa mais que eu dessa moeda. Pego o ônibus, está cheio. Minha irmã manda uma mensagem e diz que pode passar lá em casa na semana que vem. Um ambulante vende canetas a um real. É bom poder comprar canetas a um real. Um pouco de trânsito, uma pessoa em cada carro. Quem anda de carro não pode comprar canetas a um real... e ainda perde as pérolas que ouvimos por aí. O ônibus dá um freiadão, todo mundo reclama. Os carros todos buzinam. Um senhor bêbado grita pela janela: passa por cima mané! Uma patricinha não dá sinal direito e xinga o motorista porque ele não pára no ponto. Enfim, eu desço do ônibus. Atravesso a rua, depois a passagem subterrânea, atravesso um shopping, mais uma rua e finalmente chego. Subo as escadarias do prédio neoclássico. Chego à sala. Ainda vazia. Encho uma garrafa de água pra beber. Aproveito para me concentrar no texto e no orçamento que tenho que fazer. Antes vejo os emails. Há mensagens da equipe do projeto que estou trabalhando pela empresa. Há trocas de emails efusivos sobre a nova proposta por aqui, há um recado da pós dizendo quando as aulas começam. Há muitos emails da banda pra gente decidir a ordem das músicas do show, o que gravar, que dia fotografar, que músicas eu canto melhor. Há recados de amigos com saudades, de alunos ainda sem nota, de outros que querem fazer projetos. E um monte de piada, powerpoints moralistas, petições, indicações de vídeo do youtube, publicidade, spam. Vejo o que é mais importante, outros guardo para a noite ou o fim de semana. Vejo ainda rapidamente as notícias. Nada de novo. Trabalho. Bate a fome mas tenho muito a fazer. Almoço tarde. Como arroz integral, feijão, legumes, bebo suco de laranja. Dá vontade de um doce. Hoje não. Volto e todos estão lá. A concentração vai para o espaço. É a hora da produção e de reivindicações. Muitas vozes, o telefone não pára de tocar. Na rua, buzinas. Dentro, começa uma reunião. Muitas vozes... Eu falo, tu falas, ele fala. É preciso fazer um cronograma. O tempo passa, preciso ir. Olho para a tela do computador e não vejo mais nada. Estou cansada. A cabeça dá um nó. Um amigo liga me chamando pra sair. Hoje é impossível, eu falo. Mas a gente marca na semana que vem uma catarse. Saio e espero o ônibus direto. Ele demora e passa lotado. Fico puta. Penso em reclamar. Mas com quem reclamar da máfia? Decido ir de barca. Pego um ônibus até lá. De novo a barca está saindo. Corro. Consigo pegar mas está lotada. Encontro um lugar. Minha mãe me liga dizendo que sumi. Digo que estou fazendo muita coisa e o tempo tá curto. Um dia trabalho, no outro também, um dia ensaio, no outro limpo a casa, faço compras. E é preciso namorar, ver os amigos, beber cerveja, curtir um som, um filme, uma trilha, uma praia. É preciso criar. Penso em tudo isso. Penso nos lugares que quero conhecer, na próxima viagem, na música que não consigo acertar, naquela que ficou linda, nos encontros, nos desencontros, no presente, no passado, no futuro, nos cogumelos que quero fazer no fim de semana, e no vinho para acompanhar. Penso nos livros que preciso ler, na frase do Nietzsche, no lixo da Baía de Guanabara. A barriga dá sinal de vida. Tenho fome. Esqueci de trazer meus biscoitos integrais. Ouço uma música. A barca chega, eu pego um ônibus porque estou cansada e não quero andar. Mas também é um pouco tarde. Em casa, enfim. Me dá vontade de comer pão com azeite e sal e beber suco. Faço isso. Como ainda um iogurte natural. Vou organizar a agenda e trabalho no mapa de palco da banda. Entro no orkut e vejo fotos engraçadas. Alguém que não conheço quer ser meu amigo. Excluo. Leio. Ouço música. Ligo para matar as saudades dele. Ligo a TV. Desligo a TV. Escrevo. Bebo chá de hortelã. Ligo para uma amiga para combinar o café e a conversa de trabalho regada a fofoca. Tomo passiflora porque tenho tido insônia. Procuro algo no Natureza Divina para expandir a consciência e minha paciência se esgota na Internet. Penso. Penso. Penso. E canso. Vou dormir. Penso que amanhã é sexta. E que sábado tem ensaio e depois tem festa. Penso que tenho que visitar meus pais pra matar as saudades. Lembro que tenho roupa pra lavar e a perna pra depilar. Penso que podia ficar frio mas fazer sol. Penso em como arrumar dinheiro pra fazer meu curso de mergulho e para ir para Portugal. Quase esqueço do despertador. Aciono. Penso em como sou feliz, penso em como sou confusa. Penso que daqui a pouco vai estrear um filme que estou louca pra ver. Penso que quero silêncio. Há carros passando na rua. Ligo o ventilador. Medito. E durmo. Amanhã o dia é outro. Completamente igual e completamente diferente.

Comentários

  1. Ciclo. Os dias começam e terminam com a mesma preocupação: acionar o despertador. Algumas poucas horas para repor fisicamente as energias e menos horas ainda para recarregá-las espiritualmente. O trabalho e as atribuições diária da vida adulta nos impõem novos hábitos e maneiras de ver o mundo. Crescer faz parte. Mas a poesia sempre existirá. Jamais se perderá porque não fez sol ou por causa do excesso de calor. A poesia é o que sempre haverá :) Adorei o texto!

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  2. o ulises de berlo reloaded; adorei!

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