desabafo

viver pairando sobre as brisas
para depois lançar-me novamente
pudera eu ser brisa
e toda a vida pareceria mais leve
mas eu sinto até os interfones quando tocam
e as britadeiras espalhadas por todas as cidades
que hoje já são grandes até mesmo sem sê-las
e que agonizam em obras sem fim
quero ser poeta do meu tempo
mas não sei até onde isso é possível
recolho as folhas e os gravetos de outono
para que não perca de vista minha alegria de mudanças
porque elas doem
e eu sinto doer cada pedaço do mundo
as agonias, a força vencida pela arma
os peixes, as tartarugas, e tudo o que sofre no mar
tão invadido de garrafas
carregadas de uma mensagem que preferia não ler
sinto a dor de cada árvore derrubada,
cada planta impedida de crescer,
cada inseto que se esquiva no concreto
e por tudo o que é grande
porque é difícil desejar a grandeza em terra de ovelhas
e é por isso que eu amo as putas que querem ser putas
os vagabundos por opção
as chuvas e as trovoadas
navios, aviões, grandes máquinas
eu não concebo presente sem passado e sem futuro
o tempo não é linear, nem o passado e o futuro
são menos reais que o presente
e por isso vivo por aí uma solidão errante
sem curtir as baladas sociais
ou as reuniões em torno de cadáveres
onde não se diz nada e só se esquece que se vive
quero sempre sair por aí
mas não sei o quanto o meu querer
é suficiente para eu me jogar

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