declaração de amor

não há nada mais belo e perigoso
que desejar ser o profeta de sua própria história

e eu, que recebi tal dedicatória no filme que me arrebatou,
se não me faltassem palavras agora,
já tão bem ditas no livro, como quem mede mas não pesa,
nem o poder da intensa criação sonora, arcaica e renovada,
aquela fome toda dos corpos da família,
e o súbito olhar de Ana, escapando à captura,
a dança de Shiva, se não faltasse agora...

seria eu a própria potência,
a estrela renascida,
barro de novos constructos,
rizoma de tudo o que respira

aquilo que te sobra, amigo
a força de afirmar a vida
dure o tempo que tiver que durar

desde que talhada no amor impessoal
ela, a vida, pois que é o contrário da morte, o amor
e o que dá a isso que chamamos vida a sua consistência

eu poderia sair por aí
simplesmente a colher as pitayas todas do universo
como criança coiote,
a ser também uma entidade,
o mago, a força, a mãe, o louco, o it

não fossem ainda forcas
não fosse ainda a algema do medo
já pequeno, mas que insiste um sorriso
não fosse a necessidade da estratégia

mas sei
não há tempo para meios termos
não há...
nem poderá haver mais
porque a gente pisca e o mundo se refaz inteiro

"só a justa medida do tempo
dá a justa natureza das coisas"

e se não há mais metafísica do que no chocolate
que faço eu a deixar escorrer o tempo
naquilo que nada vale?

o tempo, amigo
é só o que existe e o que não há
a contrariar Parmênides
a escamar Descartes
a produzir o gozo, o sonho, o delírio
sem os quais a vida é somente
um caminhar cinza, já se sabendo onde vai dar...

o tempo, amigo
é o amor ganhando forma
como se pudesse ele estar no ar
como música saída de qualquer coisa
índia, preta, luminosa
desejo que se inscreve no concreto

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