ressonâncias



Existe um deserto em cada um de nós
Cada vez mais eu o desejo

Na busca de entender o que não entendo?
Para ouvir o que nunca escuto?

Sei pouco ou nada do que faz com que eu me mova assim
Tão avidamente em direção a esse espaço cheio de vazio

Ainda não sei

Perco tempos preciosos com tal capricho
E sou aquela voz que cala após ouvir a própria voz ressoar

De alguma forma reverencio esse deserto
Que se amplia nas águas, pedras, areia,
Nos espinhos e seres que rastejam ou tem guelras

Mas o deserto do corpo, esse é o mais intenso

Porque só se tem o próprio corpo
E ele é o nosso grande deserto

Quero me iluminar e deslizar por ele
Talvez por isso, por querer
Devo parar de desejar?

Mas, para quê?
Para encontrar a tão esperada calma diante do mundo?

Os dias continuam passando
O mundo ansiosamente me aguarda e pede reação

E não há calma possível diante do mundo
Só uma grande ansiedade e uma vontade de voar

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Triste a tristeza dos homens
Pensamento sem corpo
Corpo sem pensamento
Atletas classe média correndo na praia
Mas que praia? Eles não olham para o mar...
Trabalhadores atravessando as ruas
Há uma enorme lua cheia no céu
Alguém viu?
Comem com pressa seus defuntos
Lutam sem ternura
Empurram-se nos ônibus
Buzinam como bonecos
Correm nas ruas com seus tanques como competidores
E não são? Estes homens e mulheres tão donos de si quando dirigem máquinas
Não importa se com falo ou sem, se promíscuos ou castos
Todos são tão patriarcais
Rostos que se reiteram e reiteram no vazio
Buscando sentido
Quando sentido é só conforto para nossas fracas concepções de mundo

A esses, que reduzem o prazer à piadinha zorra total
Há tanto mais, há tanto a se viver
Medo? O que temos a perder é só a vida...
Não entendo o medo de perder a vida
desses
que não vivem
Os que vivem, só se preocupam em viver
Basta estar vivo para morrer
Não é o que dizem?

Antes perder um braço
A perder a possibilidade de conhecer todas as montanhas do mundo
E ir para o alto, buscar o infinito da sensação de liberdade

Lançar-se no deserto
Sair do conforto
Negar assim a paixão pelo poder
Permitir ferir o general que todos cultivamos

Que morram todos os generais!
E vivam os destemidos, os artistas e amantes
Utopia de minha parte?
Que assim seja! Amém... 

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