crônica de um fim de semana de um mês já passado


estou trocando a pele nesta noite de domingo.
aguardo, com as unhas cor de vinho,
que meu coração suspenda a ansiedade.
aceito o triunfo da fortuna.
é preciso deixar o universo agir.
foi-se a sexta e sua euforia.
foi-se a sexta de um embate.
interminável reunião.
foi-se a sexta da obrigação.
a sexta que da calmaria passou longe
e me deixou ansiosa de vontade...
foi-se o sábado.
de mais um ano do homem que me deu à luz.
este que me ensinou a lutar,
ainda que sobre isso as palavras nunca venham entre nós.
foi-se o sábado da prosa boa com a avó.
e eu que tanto busquei por uma história pra um romance,
tenho-a agora em minhas mãos.
uma família e cem anos de solidão.
histórias e pessoas que só então eu soube que existiram.
homens e mulheres que viveram noutra época.
alguns que morreram de amor.
foi-se o sábado de reencontros daquela família.
o sábado longo, de sol e de lua.
o sábado da volta tua.
e de uma noite em que era preciso distrair-se.
foi-se o sábado do baile
e do bonito menino de óculos grandes, aniversariante.
foi-se um sábado charmoso em que nossos pés,
embora cansados, agradeceram a alegria.
e, também, o abrigo da amiga.
e já está indo o domingo.
eu, de unhas cor de vinho e escrevendo com fome, quase desisto.
mas a desistência é só um charme.
porque sei que desistir não é meu forte.
e vai o domingo de um telefonema.
o domingo de uma angústia que quer descansar
e um corpo que busca por novos dias de glória.
vai-se o domingo de quem chegou naquela praça
e percebeu que ali existe uma memória, doce.
e dali foi um mundo até o destino,
e a vontade era fazer uma loucura.
músicas no aleatório.
e que aleatório viciado!
arte pra esquecer o cansaço.
Elis no coração.
choro reprimido vindo como rio.
cansaço. desejo de brisa. calmaria.
eu seria qual dos corpos pendurados?
foi-se o domingo onde, na embarcação,
aleatoriamente sentei do outro lado.
e foi o esplendor do sol a tardinha,
quatro cores no céu, mar brilhando de paixão.
um veleiro foi passar justamente àquela hora...
como se o mundo soubesse o que me alivia.
sem horizonte, o que me faria acordar?
é o horizonte que permeia minha arte.
é ele que atiça minha vontade.
permaneço com os olhos voltados para ele.
sem ele, eu talvez desistiria.
porque meu corpo quer tudo,
absolutamente tudo que ele pode ser.
e agora percebo.
que podemos, todos, ser uma só canção de amor.
e como virá o sono depois de tudo isso?
esse que tanto se prejudica com a fome de viver?
de um corpo que tanto quer e não há meditação possível
que o tire a vontade de ser uma explosão...
ele virá. terá que vir. terá que ser.

ele virá.

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