2.11.12

Um fim de semana de um mês já passado


estou trocando a pele nesta noite de domingo.
aguardo, com as unhas cor de vinho,
que meu coração suspenda a ansiedade.
aceito o triunfo da fortuna.
é preciso deixar o universo agir.
foi-se a sexta e sua euforia.
foi-se a sexta de um embate.
interminável reunião.
foi-se a sexta da obrigação.
a sexta que da calmaria passou longe
e me deixou ansiosa de vontade...
foi-se o sábado.
de mais um ano do homem que me deu à luz.
este que me ensinou a lutar,
ainda que sobre isso as palavras nunca venham entre nós.
foi-se o sábado da prosa boa com a avó.
e eu que tanto busquei por uma história pra um romance,
tenho-a agora em minhas mãos.
uma família e cem anos de solidão.
histórias e pessoas que só então eu soube que existiram.
homens e mulheres que viveram noutra época.
alguns que morreram de amor.
foi-se o sábado de reencontros daquela família.
o sábado longo, de sol e de lua.
o sábado da volta tua.
e de uma noite em que era preciso distrair-se.
foi-se o sábado do baile
e do bonito menino de óculos grandes, aniversariante.
foi-se um sábado charmoso em que nossos pés,
embora cansados, agradeceram a alegria.
e, também, o abrigo da amiga.
e já está indo o domingo.
eu, de unhas cor de vinho e escrevendo com fome, quase desisto.
mas a desistência é só um charme.
porque sei que desistir não é meu forte.
e vai o domingo de um telefonema.
o domingo de uma angústia que quer descansar
e um corpo que busca por novos dias de glória.
vai-se o domingo de quem chegou naquela praça
e percebeu que ali existe uma memória, doce.
e dali foi um mundo até o destino,
e a vontade era fazer uma loucura.
músicas no aleatório.
e que aleatório viciado!
arte pra esquecer o cansaço.
Elis no coração.
choro reprimido vindo como rio.
cansaço. desejo de brisa. calmaria.
eu seria qual dos corpos pendurados?
foi-se o domingo onde, na embarcação,
aleatoriamente sentei do outro lado.
e foi o esplendor do sol a tardinha,
quatro cores no céu, mar brilhando de paixão.
um veleiro foi passar justamente àquela hora...
como se o mundo soubesse o que me alivia.
sem horizonte, o que me faria acordar?
é o horizonte que permeia minha arte.
é ele que atiça minha vontade.
permaneço com os olhos voltados para ele.
sem ele, eu talvez desistiria.
porque meu corpo quer tudo,
absolutamente tudo que ele pode ser.
e agora percebo.
que podemos, todos, ser uma só canção de amor.
e como virá o sono depois de tudo isso?
esse que tanto se prejudica com a fome de viver?
de um corpo que tanto quer e não há meditação possível
que o tire a vontade de ser uma explosão...
ele virá. terá que vir. terá que ser.

ele virá.

Olhos de poeta

Ainda que me conheçam provável Isolada numa sala Sábia ou desinformada Tenho mesmo é olhos de poeta Quando chego a um novo sítio Ou per...