uma crônica no dia da cultura


escrevo, nesse dia da cultura, uma crônica do meu dia que, desconfio, pode até falar da cultura, mas não tenho tanta certeza. só sei que eu pensei nela o dia inteiro. então pode ser que sim, que eu fale da cultura. meu dia hoje foi marcado, basicamente, por discussões, leituras e escritas. um dia cultural? eu ia comemorar o dia da cultura no samba da pedra do sal. mas desisti. não consegui quem fosse comigo. e, mesmo assim, talvez eu não tivesse ido, porque fui tomada, como às vezes acontece, pela febre da escrita. eu já havia sambado no fim de semana. e dançado bastante. venho dançando há semanas. dancei charme, até meus pés cansarem. estou cogitando virar frequentadora assídua de bailes charme. essa música se conecta comigo de uma forma estranha, fisicamente interessante. inexplicável. mas tudo está tão inexplicável que pouco importa. um garoto que me viu entregue ao charme veio falar comigo que estava encantado com a minha entrega à dança, que percebia que eu não era da galera do charme, mas que a minha entrega era um encanto. bonito isso. exceto o fato de que essa percepção diz que eu errava mais do que acertava rs. e isso é cultura!

então sim, eu vou falar de cultura. pois bem, tenho insistido com os meus alunos desse semestre para irem ao samba da pedra do sal, esse reduto da cultura. mas do que estou falando mesmo? reduto da cultura! o que será que quero dizer com isso? de toda forma, é de grande importância cultural, e eu queria muito ter ido ao samba da pedra do sal. mas vou na próxima segunda. de qualquer jeito. sozinha, com alguém legal ou alguém chato que eu possa esquecer na cadeira enquanto sambo. talvez lá eu tivesse encontrado amigos ou até alguns alunos, mas eu tive que vir pra casa. até pensei em chegar e praticar yoga antes de escrever, já que hoje não fiz pela manhã, mas fui tomada por essas palavras. yoga é cultura? pensei ainda em desistir de tudo isso e ir à meditação budista das segundas-feiras. mas não era mais possível. e toda segunda é esse dilema. escolher entre o samba e Buda... cultura!

tomada então, pelas palavras, cheguei em casa e não fiz o que quase sempre faço primeiro, que é tirar os sapatos, uma ato cultural de conexão imediata com a natureza. eu liguei o computador. mas precisava comer. a natureza gritava. porque, me conhecendo, sei que esse texto seria longo e eu poderia fraquejar olhando a tela e teclando. caminhei tensa pra casa, lembrando que na geladeira parecia não haver nada sólido. foram muitos dias entre minha casa e casas alheias nesse último mês, que fazer compras já nem sei como é. estive nômade. só lembrava de líquidos. um suco do bem de tangerina já aberto, mate caseiro que eu fiz um dia e esqueci de beber e duas garrafinhas de Heineken pra me sentir James Bond, além da água, claro. não poderia ser esse o meu jantar. alguma coisa eu haveria de achar. e agradeci mamãe que me cedeu belas panquecas de espinafre quando até então eu só comia vegetais. isso foi na sexta-feira. santas panquecas que eu trouxe pra casa e me salvaram o jantar da segunda-feira! ponto pra mãe!

pela manhã, discuti com os alunos qual era a contribuição da ideia de economia criativa para a cultura. talvez, no mundo da superespecialização, falar em economia criativa seja criar ainda mais abismos, já que setoriza a criatividade. mas ainda estou pensando sobre isso. de toda forma, a criatividade (para além da economia) é algo a ser discutido em tempos de disputas necessárias. disputa. desde que conheci Marcus Faustini tenho usado esse termo. ele caiu como uma luva ao meu momento de revisão de conceitos. hoje, em pé na espera da barca para Niterói, eu lia as páginas quase finais do seu Guia Afetivo da Periferia. desde que comecei a ler o livro, e desde que conversamos pela primeira vez, tenho me perguntado quais os inventários possíveis da minha vida, e fico com vontade de também escrever uma autobiografia. caótica assim, como um guia, um mapa de afetos. por alguns instantes, acho engraçado, aos 32 anos, querer escrever uma autobiografia. mas talvez a vontade exista porque eu ache que eu já tenha vivido o suficiente pra, ao menos, contar umas histórias engraçadas, e queira povoar o mundo com mais histórias inúteis. que seja então. ou só porque gosto de contar histórias, e minha vida tem algumas. escrever é minha cachaça. e estou disputando a cidade também, o imaginário, o desejo. estou criando meu espaço-tempo, ou os meus espaços-tempos nas relações todas que tive e tenho. fiquei com a impressão de que encontrar a Agência de Redes pra Juventude e o Faustini (que, em nossa conversa, descobri que havia participado do Inter, o projeto mais amoroso que já fiz na vida), nomeou algumas coisas que estavam sem nome pra mim. de toda forma, falarei com ele sobre isso. e estudarei essas produções de inventários, cartografias e abecedários. amanhã, uma terça, passarei o dia na Agência, porque sei que alguma coisa ali tem algo muito forte pra me dizer. tenho me interessado muito em conhecer as formas de viver que as pessoas têm encontrado nas cidades. especialmente, aquelas que disputam espaços com as hegemonias em favor da autonomia. isso talvez seja minha pesquisa de doutorado. é na ação cultural que as pessoas mais tem encontrado as formas de produção de autonomia? pode ser. 

(pausa: nesse momento em que escrevo uma banda começa a tocar na escola do lado da minha casa. uma bateria forte, uma voz feminina cantando "agora só falta você". afinada a menina, bom batera, guitarra consistente. a música acaba e começa uma versão rock and roll de "preciso me encontrar", do Cartola. isso é cultura.)

mas o grande deslocamento desse dia se chama Slavoj Zizek. nunca havia parado para ler um livro de Zizek, somente artigos. mas hoje era meu primeiro dia de férias da UFRJ. eu estava no centro do Rio tentando resolver umas coisas da trevo criativo, a empresa da qual sou sócia consultora e mais o nome bonito de "articuladora de redes". não consegui resolver o que deveria, não por mim, mas pela desorganização alheia. resolvi entrar na livraria porque ainda tinha a esperança de ir pro samba. fui pra Travessa, pedi um café, uma água com gás e abri o computador. escrevi. uma mini autobiografia para o meu blog (estou verborragicamente egocêntrica), porque vou transformar o blog em um espaço para quase tudo que eu crio. então lá haverá um "quem sou eu". pois bem, cansada de escrever, eu desci e fui ver o que as estantes me trariam, já segurando a mão pra não pegar na carteira e comprar mais um monte de livro que vai ficar esperando o dia de ser lido. Zizek me chamou por um título: "órgãos sem corpo"; em uma alusão clara ao corpo sem órgãos de Deleuze. eu, que desde que conheci Deleuze, andei de mãos dadas com ele, fui lançada no vazio. Deleuze como o filósofo do yuppie... Ok, nada tão estranho. Mas ao ler um dos capítulos de "em defesa das causas perdidas" era como se Zizek me olhasse e falasse: "tolinha. você fica acreditando no trabalho em rede achando que isso é uma revolução, e é só mais uma  forma de atualização do capitalismo". tá, tudo bem. até já pensei sobre isso. bastante. mas a forma como ele faz uma crítica à ideia de multidão de Negri, que também muito tem de Deleuze e, por sua vez, de Spinoza, da inteligência geral como o auge do capitalismo, em que este mesmo se extingue, numa perspectiva marxista totalmente tradicional, mas atualizada na revolução do digital, desloca totalmente o ser humano apaixonado. porque me apaixonei por Deleuze. a tal ponto de usar o Mil Platôs (sua fantástica cooperação com Guattari) nas aulas de política cultural, em que sentava à vontade na mesa da sala, abria o livro e jogava para os alunos: e aí, o que tem as máquinas desejantes a ver com a política de cultura?

resisti o quanto pude a comprar o livro. vamos ver o quanto aguento. mas desde que terminei o mestrado eu prometi pra mim mesma que deixaria um pouco a leitura filosófica de lado para me dedicar mais ao corpo, à poesia e a práticas diversas, para diversificar o meu olhar e minha perspectiva e retornar à filosofia depois dessas novas imersões. tenho conseguido. mas Zizek não me sai da cabeça. porque falou diretamente comigo, não só por me provocar, porque essa crítica a Negri eu mesma já fiz. até mesmo ver Deleuze como alguém que fala direto ao jovem empreendedor não é de todo estranho. e de alguma forma, eu sou uma figura que passeia entre o empreendedor e o artista. uma figura-nada. mas a forma como faz Zizek é que me pegou. a forma consistente numa escrita avassaladora. porque tenho essa relação com a escrita, que passa pela estética. a plasticidade, a sonoridade, a construção, elas me encantam. antes de pegar o livro de Zizek estava folheando um livro do Pierre Levy, já conhecido, tentando reencontrar nele o que me fez ter como primeira ideia de monografia e depois de mestrado falar sobre a Internet. mas eu ainda não sabia muito bem o que falaria naquela época, não havia subsídios que me ajudassem naquele ano de 2003. e optei por falar da cultura, querendo vê-la pela ótica da teoria da ecologia profunda e das redes cibernéticas. um trabalho de filosofia. e assim a cultura me persegue desde então. no mestrado lá estava eu, na busca de entender o sentido contemporâneo de cultura, levada por uma metodologia foucaultiana, outra das minhas paixões. essa cantora careca. nunca vi um sadomasoquista escrever tanto... mas também nunca conheci um. não que eu saiba. e aí veio o Zizek com sua cara de garoto problema. preciso lê-lo. se vai ser agora não sei. mas sei que preciso.

me pergunta se isso é cultura!? não sei. e se eu tivesse ido ao samba da pedra do sal chegaria a tal verborragia? talvez essa verborragia seja cultura, e o samba seja natureza pura, porque é ritmo, sensação, batucada, paixão, crônica da rua. espontâneo. mas essa separação cultura e natureza é um dos grandes problemas do mundo. então é melhor parar por aqui, ou farei uma tese. isso é cultura.

sei que, chegando em Niterói, dois casais, por algum motivo, me chamaram a atenção. eu estava com a cabeça cheia. fechei o livro do Faustini e segui andando pensando no filho da puta do Zizek e em como tudo isso havia me dado uma vontade absurda de escrever sobre cultura, mas eu nem sabia por onde começar e a única coisa que me vinha a mente era fazer um texto sobre tudo isso, por que não. comecei a desenhar o texto na cabeça. sem forçar a barra. o texto se esboça sozinho. ao mesmo tempo um diagrama da trevo começou a aparecer na minha cabeça. desenhei na mente esse diagrama pra desenhá-lo no papel, porque agora sei o que a trevo pode ser em potência. mas isso é assunto pra outro momento. no meio de tudo isso, eu aflita na minha sede insaciável da escrita, vivo a seguinte cena. uma garota corre em direção a um garoto que a esperava na saída da barca. os dois se abraçam como se quisessem se fundir um no outro. e choram. aquilo me arrebata de uma tal maneira que paro e fico olhando a beleza daquela cena. eu que estava tão submersa em pensamentos, sou arrastada por isso. paro alguns instantes e meu coração aperta, como se se sentisse sufocado de tanta cultura e quisesse também um abraço dessa intensidade, e só um abraço assim fosse capaz de me aliviar o peso que às vezes querer tanto causa nessa vida. e eu sei, eu queria sim um abraço como aquele. por isso saí com um sorriso no rosto, feliz por eles. aquele abraço já não devia estar aguentando pra ser dado. ufa, me aliviei por eles. quando atravesso a rua um outro casal. sem que eu me desse conta, de repente estava na frente de um jovem casal brigando. o garoto rasgava um papel com fúria. uma carta, um poema? vai saber. aquilo também foi pra mim um gesto que me aliviou. porque às vezes tudo o que a gente quer é rasgar com toda a nossa vontade o que já não faz mais sentido. e eu continuei andando a pensar o que não faz mais sentido na minha vida. e percebi o quanto, nessa hora, difícil é discernir desejo, de intuição, de cultura, de autonomia. mas é preciso fazer esse exercício. e, assim, ia construindo o texto, andando rápido pra chegar logo em casa. nessa febre de andar rápido, passa ao meu lado um garoto num skate. usava blusa verde, all star vermelho e tinha cabelos negros quase até a cintura. me chamou atenção de cara. foi engraçado porque lembrei do Shiryu, meu cavaleiro do zodíaco preferido. a associação foi imediata. Cavaleiros do Zodíaco marcou minha adolescência (tenho todos os episódios no meu computador, e ainda salvos no HD externo), e lembro que imaginava que se o Shiryu fosse de verdade ele seria muito gostoso. pois aconteceu do menino dar uma tropeçada no skate e o seu skate cair na minha frente. e ele veio pegar e me olhou com profundos olhos negros que me fizeram tremer na base. como era bonito a criatura! mas ele só olhou, pegou o skate, não disse nada e foi embora. tanta coisa me distraiu num trajeto que não durou nem 10 minutos, mas elas na verdade alimentaram o meu texto e minha reflexão sobre cultura. assim, pensando nos casais, nos meus inventários, no garoto do skate, no Zizek, no Deleuze e nos desejos todos desse momento da minha vida me pergunto: mas porque um dia da cultura? o que isso quer dizer? porque eu, como produtora cultural, pensadora que faço questão de ser, poeta, professora, palestrante (pode?) não consigo simplesmente escrever nada nesse dia sobre identidade, política, economia, do in antropológico, lei Rouanet e nem mesmo sobre contracultura e aquela alegria toda hippie? nem sobre o meu trabalho?

então eu acho que estou chegando àquele estágio tal de imersão numa questão que tudo parece ser uma coisa só. tântrico isso (talvez porque eu esteja estudando o tantra na sua radicalidade imanente?). e quando começo a pensar sobre cultura não consigo esquecer a natureza. lembro que estou devendo minha dissertação pra um mundo de gente que prometi enviar, e que preciso fazer isso. lá eu falo de cultura até dizer chega, e da natureza. cultura talvez seja a palavra mais presente na minha vida. porque briguei com ela durante muito tempo. a cultura nos afasta (pense só...). mas aí eu entendi que nós, cada um de nós, é que fazemos a cultura, e que ela pode ser o que quisermos. 

a segunda palavra mais presente na minha vida deve ser paixão. dizer que a cultura pode ser o que a gente quiser é uma fala apaixonada! e pra mim, paixão é natureza. eu escrevo, e isso é cultura. mas escrevo porque estou apaixonada por uma ideia, um texto, uma vontade de expor tudo isso. isso é natureza. natureza é aquilo que é espontâneo? se for assim, eu tenho sido mais natureza que cultura. a tal ponto de me contradizer o tempo inteiro, de escrever poemas chamados de últimos mas que não são nem os primeiros. ao ponto de viver o conflito "expor ou não expor", eis a questão. mas sei que meu combustível tem sido a paixão porque estou despudorada. perdi o medo de me expor. posso não me expor por outros motivos mais nobres mas, por medo, de forma alguma. quando fiz uma consulta ayurvédica há um tempo atrás a terapeuta descobriu meus doshas (constituições de todo o universo) dominantes: pitta-vata, com desequilíbrio de vata. isso quer dizer o seguinte, em linhas bem gerais e de forma bastante ordinária. pitta é regido pelo fogo. quem tem predomínio do dosha pitta é movido pela paixão. vata é regido pelo ar. quem tem predomínio do dosha vata gosta de diversidade, pensa muito e quer tudo muito. se está desequilibrado, o que é o meu caso, a pessoa sofre com insônia, dispersão e fica literalmente voando por aí. que combinação, pensei, quando ela me falou. e me passou uma dieta que acalma meu vata e regula meu pitta. mas acho que estou é estimulando pitta sem acalmar vata. há tempos que não me lembro de estar tão apaixonada. tanto que preciso ter o cuidado de não me sabotar em nome daquilo que me arrasta. não falo apenas de estar apaixonada por alguém. falo da paixão de estar vivo, de se descobrir potente, de mudar tudo sem o menor medo do que estar por vir. de fazer revoluções a cada minuto. faz uns quatro meses que minha vida deu uma guinada. foi como se de repente tudo, absolutamente tudo, precisasse ser revisto. e foi doloroso. mas foi necessário. ainda sinto os efeitos. foi como uma tsunami. os estragos estão por toda parte. mas as casas começam a se reerguer. nunca escrevi tanto. escrevi em quatro meses mais do que escrevi no ano passado inteiro. ou não teria conseguido lidar com tanta mudança que eu mesma provoquei, até certo ponto, o que torna tudo mais difícil. mas era preciso. era preciso para que eu não sabotasse o meu desejo. e o desejo só apontava pra um lado: mudança, porque a mudança era o desejo. minha bússola é como aquela do Jack Sparrow, aponta pro desejo. onde fica o norte e onde fica o sul não importa. eles se reconfiguram o tempo inteiro. fico procurando uma imagem que possa sintetizar esse momento de tanta migração. ainda não achei. o mais perto que cheguei, tatuei no meu corpo no mês de agosto. uma gaiola aberta com um pássaro voando. para onde ele está indo não faço ideia. só sei que ele precisa ir. cultura? natureza? só voando longe pra saber...

e foi movida por paixão que eu havia resolvido fazer uma viagem nessas breves férias. pensei nela o dia todo também. porque amanhã, se isso tivesse vingado, eu estaria embarcando pra Patagônia ou pra Bolívia. passei noites pesquisando os lugares, preços de passagem, esperando encontrar passagens mais baratas, vendo albergues, pensando na roupa de frio, e em como o gelo ou os desertos me colocariam num contato profundo comigo mesma. mas, de repente, uma surpresa. mudança de casa. e foi preciso aceitá-la. e se tornou quase insuportável a ideia de viajar sabendo que eu chegaria e voltaria pra minha casa solitária em Niterói, como uma pendência mal resolvida. era como viajar pra esquecer um problema e voltar e encontrar tudo de novo. faltava ainda essa mudança, entendi. porque a casa como existe hoje, nessa cidade, já não faz mais sentido. venho pra casa já em tom de despedida. chego em Niterói já na ânsia dos dias em que a barca será substituída pelo metrô. confesso que isso me angustia um pouco. perderei o mais belo de morar em Niterói, a travessia quase diária pelo mar, para passar por um buraco onde as pessoas desfilam suas caras de cansaço. mas tudo bem, buscarei a poesia do subterrâneo. questão de sobrevivência, questão de vida. Niterói se tornou um marasmo. mas, mais que isso, eu já não me sinto mais parte de Niterói. isso já faz um tempo, e já há algum tempo venho esboçando a mudança para o Rio. mas eu precisava de uma chacoalhada pra isso. e ela aconteceu. vamos eu e dois amigos. três pessoas sedentas por mais movimento. vamos fazer saraus. vamos viver no caos. porque é isso que agora queremos. e se tornou também necessário economizar, aprender a viver com menos. eu que deixarei um emprego no próximo mês... para ter mais tempo pro prioritário, para ser mais leve, para ter mais arte e para viajar mais. e organizar uma pequena volta ao mundo. ir à Índia, finalmente, depois de tantos anos praticando yoga, estudando aquela loucura de país que me atrai e provavelmente vai me deslocar de forma assustadora. tudo isso é cultura? sim, acho que tudo isso é cultura. esse deslocamento sem dúvida será um choque cultural. e falar de mim é falar da cultura. cada um que fala de si fala tanto da cultura quanto da natureza. sendo assim, acho que falei da cultura nesse dia da cultura. eu que tenho lido os poemas eróticos e de amor de Hilda Hilst e escrito também alguns pra mim, e fico pensando em como Foucault foi feliz ao escrever a história da sexualidade como uma história da própria construção do ser humano como sujeito. porque o sexo nos desafia, ao estar na fronteira da cultura e da natureza.

e agora chove lá fora. e isso não é cultura. muito embora meu pai tenha me dito que hoje existem tecnologias de manipulação localizada do clima. medo disso... medo é cultura e natureza. eu sinto uma melancolia gostosa das noites de chuva. bom, isso é cultura? na verdade, eu percebo, que se é cultura ou natureza não interessa, gosto mesmo é de estar nas fronteiras. prefiro a exclamação do tudo pode ser! porque, em suma, tudo pode ser o que quisermos, do jeito que quisermos. basta termos isso no horizonte e disputaremos pelo nosso espaço-tempo. isso é cultura. isso é natureza. isso é ser humano. isso é beleza. 

em Niterói, 05 de novembro de 2012, finalizado às 23h05

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