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Mostrando postagens de 2013

feliz-cidade

estranha palavra felicidade (tente soletrá-la)
que só o tempo (para alguns?) é capaz de fazer
b rota R
não posso dizer que hoje sei dessa tal F-E-L-I-C-I-D-A-D-E
uma curiosa cidade difícil de habitar
tão                                                      distante...
não se costuma chegar lá
(estrada looo o o   o   oo  o n g a e acidentada)
mas algo, em mim, FALA...
e algo em mim

é capaz, hoje, de escutar!

não sei se isto significa que, finalmente, depois de tanto espanto eu descobri o que é
AMAR!
algumas palavras anunciam na placa: perigo!
mas se sequer me importo
 - visto a novidade que é a falta do espanto - 
então, talvez,
SEJA!
perigo só é perigo quando a gente, assim                                                deseja... (perigo!)
porque autômatos repetimos o que já
sabemos,

pois VEJA
perigo só é perigo quando não há chance de tudo ser
diferente
e HOJE eu sei (EU SEI!)
há alguma coisa em mim que nunca houve...
(guarde isto!)
e um silêncio muito longo parece pairar sob…

filme de Almodóvar

chove
e me atravessa um cheiro de café
entonteço...

acendem um cigarro
e o cheiro do café e o trago
me trazem a lembrança daquela viagem

entonteço...

trabalho...
e eu quase poderia ser uma mulher
a beira de um ataque de nervos

chove
tenho fome e penso o óbvio

estou cansada
trabalho, ensaio
entonteço...

queria a carne trêmula
a desvendar a flor do meu segredo

o cheiro do café...
a chuva
a memória

nenhum desespero
mas todo o desejo
entonteço...

trabalho...
o cheiro do café...
o cheiro do cigarro...

está cinza
o vento é frio
por hoje chega
necessito um vermelho

é que chega uma hora
em que o corpo desaba
e a pele que habito pede um basta

tenho fome...

paro e desato
penso o óbvio

abrir um vinho
fazer um macarrão

e no labirinto da minha paixão
me esquecer a ver um filme de Almodóvar

entonteço...

cartas

relendo as cartas que escrevi pra ti
faz tempo

era vento que soprava leve
a angústia dos meus sentidos

aquela luz ecoava tempo incerto
que se foi e, perdido, não é mais
que palavra eternizada no papel

meu véu já não esconde mais teu rosto

foi-se o tempo
em que eu era tua aurora

sou, em tempo,
uma nova espécie de agora


o vento do tempo

faz pouco tempo
um vento, carregando o futuro,
entrou pelo meu quarto

era um vento forte
que fez voar as fotos
e carregava a sorte

vinha de longe
muito mais longe
que do mar e da montanha

vinha do tempo e de suas entranhas

vinha do tempo,
o vento,
do que se anuncia
e já, tão meu,
me enche de alegria

faz pouco tempo,
um vento entrou pelo meu quarto
e, no meu ouvido,
sem tempo,
sussurrou o seu rastro

Felicidade e nada mais

É sexta-feira à noite, e estou em casa, cansada e feliz, alegre por que amanhã, sábado, não terei hora pra acordar, o que não significa que não terei o que fazer... Como tenho! E por isso também me sinto feliz. São coisas que eu escolhi, porque elas me escolheram. Amor! E algumas (menos) que não escolhi, mas que já entendi que é necessário vivê-las porque elas têm algo a me ensinar. E uma coisa me anima nesse instante: escrever sobre a felicidade. Venho refletindo bastante sobre essa coisa que persegue a humanidade, e que perseguimos como um tesouro e, de tanto perseguir obsessivamente, acabamos por encontrar qualquer coisa, menos a tal da felicidade.
Mas hoje estou sentindo algo que se aproxima ao que chamo de felicidade. Então é sobre isso que minha mente inquieta junto aos meus dedos frenéticos a procura das teclas do computador estão querendo escrever. Não realizei nesta vida o que já foi um dos meus sonhos, ser pianista (sonho que talvez nem exista mais, já que outros falam tão …

à mulher que se esqueceu

basta
todo jogo pálido
toda cena estúpida

chega desse jogo barato

pareces não saber mais
como se vive...

mostra a cara limpa
e deixe tudo claro

isso é raro?

cansada de toda farsa esquálida
escarro no teu rosto inválido
a fome de viver

escarro em tua alma morta
que esqueceu o que é paixão
o meu tesão bandido em viver

que triste tu és
alma pequena
que sequer consegue
murmurar desejos

tu
que teces fios sórdidos

pensas que não vejo!?

estou de olho na forma como costuras
e tenho pena de ti

tu que sofres e sequer se olhas
tu que levaste da vida porrada ácida agora
e nem assim...

tenho pena de ti

mas esqueço
porque não tens por si
mais nenhum apreço

e grande é meu desejo
de sair por esse mundo
a alimentar música, poesia
e o beijo mais doce e quente
que já conheci um dia

sabe quando um homem te arrepia!?
acho que tu já esqueceste...

talvez haja tempo
que ninguém lhe beije

tenho pena de ti
e digo

a paixão dá sentido

se esqueceste de si mesma
nada mais posso fazer
que ignorar-te

e viver a pleni…

presente

na poesia dos teus gestos
hei de ser, ainda mais,
a beleza do verso

na poesia do teu contra-verso
hei de ser diamante submerso

música nova

se eu fizesse uma música agora
teria, ela, cheiro de futuro
e uma única saudade

a que ainda está por vir...

se eu fizesse uma música agora
seria calma, alta e misteriosa
e voaria sobre os Alpes

seria música nova
incabível no passado
solitária e silenciosa

e não haveria qualquer nota

como se o corpo reconhecesse
apenas pulso nesse instante

se eu fizesse uma música agora...

ela não seria minha,
do que ainda reconheço

mas de quem não sei quem sou

e criaria a própria música
como se fosse a música primeira
que criou os homens

se eu fizesse uma música agora
eu sequer saberia que era minha

ela teria cheiro de começo

e me revelaria
o estranhamento que hoje sou

se eu fizesse uma música agora
seria a própria música cósmica
a voz de Deus a ecoar sobre o vazio

e não apenas seria música nova
que nasceria rasgando, indisfarçável

ela seria, antes,
nesse momento doloroso e mágico,
intocável...

através do espelho

maldito espelho
o outro
maldita palavra alheia
que me revela
e rasga minha veia
saturada de passado

a metamorfose não é bela

pode-se morrer nela
e se perder, para sempre,

lagarta no casulo...

é doloroso fazer nascer um corpo novo
quando já se está tão conformado no existente

no entanto,
há êxtase em perceber onde se conforma
e já, deforma

maldito espelho que é o outro
maravilhoso
que me revela onde falho
tanto quanto onde encaixo

bendito espelho

cristalino

como música barroca
eleva o espírito
e me lança no abismo

maldito espelho
que revela minha fraqueza

bendito seja!

ativa espera

a palavra
me salva

me amarra
a palavra

aperta

o amor
desperta

busco a palavra certa
como busco o amor liberto

e é na sua agudeza
que me embebedo de beleza

como se casco de árvore eu fosse
e escorresse feito seiva doce

e derretesse, amálgama do objeto
e explodisse, expansão do incerto

a palavra pouca
o amor que é verbo

amor que se tem certo
mas parece não ter cumprido ainda
sua caminhada no deserto

ando tateando a procura do verso mais profundo...

e me desloco de encontro, em desejo

quem sabe esteja ele a minha frente
e ainda não vejo

pois sinto uma brisa...
mas não sei ao certo o que ela diz sobre a vida

sei que traz auroras
e me responde certas inquietudes do agora

e, assim, tateando,
talvez encontrem, minhas mãos,
em suave conflito, a textura do infinito

e a palavra certa!
tanto quanto o amor que liberta...

como música exata, ou poesia, que esperaria o tempo que fosse pra nascer
e nasceria

quando se tem amor

dois poemas de um mesmo dia...

poema alado
na noite de um nascente setembro

lanço flores
para ressaltar a beleza
das rotas dos encontros
e expressar a delicadeza necessária
em tempos cansados do planeta

lanço-as para dar leveza
a pesos desnecessários

a vida é foda
mas é fácil

e me pisca o olho de um deus
na cumplicidade de uma certeza:
o que vem do coração
jamais pode estar errado

o que se faz com amor
é sempre um poema alado

---
na tarde de um nascente setembro

Um trabalho, seco
Sem vida, falho
Faltam-lhe afetos
Falta-lhe apreço raro
Um trabalho, escasso
De vida, de fome
Dos que lhe tratam
Perda de tempo?
Tempo mal gasto

Foi-se agosto
Levando o gosto do aprendizado
E deixando um amargo

E aguarda, o coração, a primavera

A luz de setembro há de brilhar
E retomar sorrisos ternos
Abraços fartos
Leveza do corpo
No único dos trabalhos
Que vale o suor e o osso

Ou se tem amor
Ou se está morto

poemas paulistanos

sequência de poemas escritos em um fim de semana em São Paulo

poema de aeroporto
sexta, aeroporto Santos Dumont

então, fez-se luz!
e, logo depois, verbo!
e Deus criou o homem e a mulher.
e criou o paraíso, onde plantou sonhos, música e delírio.
e fez-se o tempo.
e homem e mulher passaram a ter razão para viver o paraíso ao máximo!
mas o homem inventou o trabalho...
Deus, refletindo o por quê daquele ato,
até achou que alguns trabalhos valiam a pena...
em tempo, não pensou duas vezes:
para ajudar homem e mulher, sendo camarada e gente fina,
eis que Deus criou, então, a cafeína!

poema sinfônico
madrugada de sexta para sábado, após concerto da Osesp na Sala São Paulo

“uma sinfonia deve conter o mundo”
e em cada mundo, a paixão

era cedo

anunciaram, as madeiras,
notas transversais
tomaram o meu corpo
e eu me rendi ao suor do sopro

fosso-oboé do meu desejo
clarineta fálica do meu sexo
meu nexo é levar a vida na flauta
e, em se tratando de paixão,
meu fagote sussurra coisas impronunciáveis

met…

a vida, esse mistério: do desejo e o desapego

Pequenos momentos podem ser grandes momentos, quando capazes de ampliar a vida, de torná-la mais bonita e mais leve. E talvez sejam os pequenos momentos os que mais deem sentido à vida. Um abraço, um cafuné, um bom café, uma boa noite de sexo, encontros, reencontros, olhares, fazer uma comida pra quem se gosta, oferecer e receber ouvido, atenção, colo, flores, ter aquela conversa, beber um vinho, conseguir fechar um trabalho, iniciar um, pegar um avião, saltar do avião, chegar num lugar desconhecido, chegar num lugar que se ama. É no dia a dia que as coisas se consolidam, que a intuição tem espaço, que se constrói e se destrói. É no cotidiano, na necessidade de viver o que a vida nos coloca como nosso, que temos a chance de aplicar conhecimentos, teorias, juntar práticas, organizar, reorganizar, desorganizar. É no dia a dia que dimensões fundamentais da vida ganham espaço, como o cuidado, a atenção, a relação entre o que somos e o que é o outro e o mundo. Os grandes acontecimentos sã…

desabafo apaixonado

este texto foi deletado para dar lugar a asas de borboleta agora ele quer voar para onde a palavra não cresça

o olho do universo

alguns poemas nascem rápido diante da poesia do mundo...

---

estou em prece
largada ao chão a contemplar o que não descrevo

apenas sinto

o chão é gelado
e meu amor é chama consistente

o olho do universo
ilumina minha varanda
observando meus movimentos
como se soubesse o que penso
e como se compartilhasse dos meus anseios
e, cúmplice, atestasse o meu desejo

sobre a minha bicicleta, a lua cheia,
que sabe que dela nunca me canso

o som de um solo de les paul me arrasta pra longe
e eu poderia chegar agora onde jamais estive antes

assim, tão carregada de futuro...

escrevo e o céu é de um negro profundo
que arrepia os sonhos mais bonitos

chega a doer no peito tamanha beleza
e meu silêncio é uma reza em agradecimento

pois a lua cheia no alto do céu
anuncia novos dias

anuncia um despertar

e as nuvens de cores camufladas
que circulam em torno dela
e logo atrás, a montanha, vista da janela
dizem do meu corpo a querer ser pássaro

queria eu, agora, estar lá perto
a olhar bem dentro do olho do univ…

poesia de família

os poemas dedicados à família!

---

do corpo uno aos meus pais
vocês, que me conceberam...
são também o meu corpo!
está no meu sangue o código  que vem de gerações antigas
do homo sapiens aos nossos patrícios seu pereira e sr. vieira cristo outros de nome desconhecido...
mas são vocês que estão na minha pele! de que importa o sangue? importa a relação viscosa  do amor de pai e mãe
a torcida calorosa na arquibancada da vida aquele beijo dado no saguão do aeroporto enchendo de lágrima a despedida tão “desnecessária” 
porque logo viria o retorno
aquele semblante de cansaço... e eu chegava com o cheiro de álcool aquela voz levantada com o medo aquele frio na espinha quando chegou em mim o desejo
e então, aquele olhar aquele que revela uma galáxia  de quem carrega o coração fora de si
ninguém será capaz de me dizer que tal sensação valiosa é essa que nos torna do outro, um só  com nosso corpo
saberei um dia quando o meu próprio carregar a vida
por ora, sou filha por ora, recebo o abraço calo…

jogo de palavras

errante solidão
do corpo sólido
causa anseio calmo
possível fosse

gloriosa saudação
do etéreo gélido
busco antigo salmo
num caminho doce

quando vem a saudade

saudade é coisa curiosa

ela não pede para entrar
entra, simplesmente
como toda coisa
que foge do nosso trato

e, de repente,
revela o inesperado

ou, quem sabe,
não tão inesperado assim
já vivido como desejado

e é doce como a saudade
nos leva a certificar o que nos arrasta

e é certo como leva a saudade
um pedaço de nós para onde se desejaria estar
novamente...
pois saudade não é reticente

já tão incapaz de caber em si
o que nos faz sentir saudade nova
e já tão grande

saudade é coisa curiosa

vem nos lembrar
que em termos de quereres
caem, certa hora,
todos os nossos poderes
.
.
.
se nada controlo
que dirá, se controle em mim,
a força dos teus prazeres

o pêndulo e o poço

quando inflama um corpo
e a mente reclama, insolente,
divergente...

pra um lado o corpo,
pro outro lado a mente,

o mundo pede calma

mas o que se faz com o que não se alma
e com aquilo que se alma até demais?

quando inflama um corpo, inflama!
e nada mais

a mente tenta anuviar
nubla a memória
dispersa a história

libera palavras que tentam racionalizar

mas quando inflama um corpo, inflama!
e não há como disfarçar

a mente briga com o corpo
e relativiza o tempo
esse que corre,
oferece, tira e devolve...
sem chance pra lamento

tola mente!
porque a memória tem cheiro...

voz, carne, osso
sonhos, desejos

e desespero

e vira e mexe
a memória vira carne de novo
e a memória tem beijo

assim, inflama o corpo
e ri na cara da mente
mas, insolente, lhe olha a mente
e ri do corpo que se alma

mas se mente é a ideia do corpo
mente a mente para o próprio corpo?

apenas sei que inflama, o corpo...
em abraços longos que liberam fagulhas
revelando o que não foi dito
e todo o dito que foi tanto
e que teceu inúm…

Pitta

Eu me consumo
Não me importo em morrer
Minha chama é daquelas que renascem Ave mitológica
Procuro sempre por aquilo que me inflame Nasci sob a configuração da combustão

O tempo...

O tempo é uma das questões que mais me me tomam tempo nessa vida, como questão prática e simultaneamente filosófica. E a relação com o tempo, é sempre uma relação conflituosa para mim (mas que relação não é conflito, me pergunto... conflito é bom!). Tudo o que faço, ou melhor, tudo o que escolhi para me dedicar (ou que me escolheu) faço com intensidade, e fico sempre com aquela sensação de que me falta tempo, porque, teoricamente, eu precisaria de mais tempo para fazer mais e melhor (neurose minha). Mas essa é uma sensação de quase todo mundo hoje, pois vivemos bombardeados por informações, ofertas e convites. Achar que vamos dar conta de tudo é um erro para o sistema nervoso, e para a consolidação do que deve ser feito. Pois o que não nos falta é tempo. Talvez falte é concentração, foco naquilo que escolhemos como prioritário na vida. No entanto, embora tempo não seja desculpa quando queremos alguma coisa de verdade, não há tempo a perder. Porque a vida passa rapidinho... O ruim é q…

I Ching - um poema para tempos ruidosos

recolher-se, em si...
aquietar-se...

é tempo de lapidar os diamantes...
na sala escura, dos homens, distante...

para uma luz brilhar
sem ferir os olhos
é necessário um trabalho árduo

sensível, cauteloso
por vezes, solitário...

nada sabemos do que somos
enquanto tudo proclamamos como sábios...

no poço fundo, caem nossas verdades...

para o florescimento
é preciso devoção!

para o renascimento,
a observação...

retirar-se
momentaneamente
para reorganizar-se

é tempo de balanço!
para que seja triunfal
a descida da montanha...

move-se o universo em favor
quando uma estrela se enche de luz
internamente

virá, no exato momento,
do fundo do poço,
do abismo da alma-corpo,
aquela que mata a sede

por isso, o agora
é o tempo da reforma,
da obra de revestir-se
para a transformação íntima...

e não se pode utilizar um poço
enquanto ele está sendo revestido

este trabalho, no entanto, não é em vão
graças a ele, a água permanece límpida...

Está chegando...

Apresentação do livro que está no forno! 
A intimidade revelada pela poesia
Uma carta ao leitor

Rio de Janeiro, inverno de 2013
Querido leitor,

Antes que comece a ler as minhas cartas, vou te contar uma breve história. Não faz muito tempo desde que eu percebi que boa parte do universo da minha produção poética era composto por poemas-cartas, ou cartas-poemas, como assim o fez, certa vez, Manuel Bandeira, e como fizeram, e fazem, muitos poetas, nomeiem desta forma ou não. Mas, desde então, percebi que não importa o nome que tenham; importam sua motivação e seu propósito. São poemas dedicados, escritos sob uma única inspiração: o arrebatamento ou encantamento causado pelo outro. E com um único desejo: o de que este outro saiba disto e, se possível, dê um retorno. Nem sempre as cartas realizam esse desejo, é verdade. Kafka, por exemplo, sequer conseguiu entregar a longa carta que escreveu ao seu pai, quanto mais ousaria esperar por resposta... Uma vez entregue a carta, não significa que…

tantra

será, a minha poesia, a chama para queimar
o incenso do mundo

na realidade que construo com a palavra
transformar a pedra em ouro,
o vazio no som primordial
nuvem que atravesso num jato
deixando o meu rastro
como lençol de seda que estendo
para dormir o sono exato do planeta
e acordar inteira carregando, da vida,
no meu ventre, a tua saga

meu corpo é um templo!

encontre nele a tua tessitura, universo
pratique aqui, a tua união, onde pulsa o sexo e mora a divindade
sou folha branca de papel para que escrevas o teu verso

um ano depois...

Escrever é um vicio terrível, daqueles quase incontroláveis, químicos. Dá trabalho, cansa, me faz dormir tarde demais (porque quando começo só consigo parar quando sinto que o texto, como uma gestalt, se fechou...). Mas eu não sei viver sem... Porque é também a minha forma de digerir e processar as coisas. Sempre que o cotidiano fica denso demais, é escrevendo que consigo ficar mais leve. Pois bem, o momento agora é um desses momentos densos. E eu, como de praxe, também uso os textos como confissões e pedidos de ajuda, uma forma de afirmar para o meu ego de ascendente leonino que sou humana demasiado humana e pedir uma ajuda ao universo.
Fico impressionada em perceber como as coisas acontecem rápido na minha vida. Tudo muda o tempo todo. Claro que há os momentos de calmaria, ou eu não aguentaria. E quando falo de mudanças, não se trata de mudanças radicais o tempo inteiro, mas daquele permanente movimento que te faz mudar de perspectiva sobre os fatos por conta de pequenos (e nada tr…
o corpo nada sabe das palavras
ele apenas vive... como cheiro, gesto, carne
mas escrevo versos para criar realidade
vive, no corpo, a palavra poética
ganha a palavra, no corpo, métrica

novos poemas encontrados num caderno

o estranhamento no espelho nessa hora da madrugada não houve sono posso dizer que não houve nada estranhamento de si... do meu rosto, que tanto reconheço no silêncio e houve tanto barulho essa madrugada... mas que importa o sono que importa o sonho... queria eu apenas o gosto da calmaria no meu coração sem dono mas sou sempre caos e no caos me reconheço? não... eu sou silêncio e na solidão me reconheço no amanhecer do sono pouco, na garrafa de vinho, o gosto... no espelho o questionamento enquanto uns dormem outros festejam sou silêncio e me deparo com o meu tempo e interrogo o meu desejo no fundo, só temos a nós mesmos e por mais alegria que seja toda gente que por minha vida passa e mesmo com o mar onde a conversa nunca é rasa... é por isso que é preciso ir a ele pois é nele que me reconheço é por isso que é preciso degustar o vinho sempre pois no vinho me reconheço presente e no silêncio novamente apenas com a música interior e não aquela dessa noite de sono tão pouco de acordes t…

filosofia corpórea

eis um mistério:

o que fazer com o corpo
e aquilo que nele nasce
após um acontecimento...

o que fazer com o que fica dentro...

parte nova a integrar o corpo,
que, pelo que se deu, torna-se novo...

o que fazer com o corpo...
tomado ele de torpor e encantamento?
e de tudo que vem com o tempo...

o que fazer com o corpo
depois do acontecido,
e com o volume que lhe toma,
e até então, lhe era desconhecido...

o que fazer com a densidade
de uma nova informação?
e tudo o que não se sabe...
e o que se deseja de um encontro
e toda a densidade do outro
que lhe soprou o outono...

mas muda o corpo a todo instante
posto que é errante...

é preciso acostumar-se ao novo
e ao estômago do mundo...
onde nos lança
cada acontecimento profundo...