carta convite

homem de reticências...
se eu soubesse antes
que aqueles pontos todos na tua escrita
fossem chegar até o meu corpo

e tomá-lo...

teria eu deixado as tuas velas me encantarem?

teu vinho, tua família,
tua loucura, tua alegria...

pois antes disso
nada (ou quase nada) havia

tuas cordas
minha postura
tua música
minhas planilhas
tudo se esbarrava
nada produzia

mas então, eu fiz uma poesia...

soubesse eu que aquele sorriso,
de alguns anos atrás,
viria me encontrar de novo,
reinstalada num cais...

era mês de abril
você, de terno preto,
passou por mim na porta...

imagine só
bateu um calafrio na aorta

pequeno e intenso instante...
lembrar, como vivi,
a primeira vez que te vi

depois esqueci...
simples como o passar do tempo

mas me lembra um velho programa
que naquele distante abril
eu já poderia me envolver na tua trama

quisesse...
e me deixasse levar pelo teu diagrama

quem sabe já te levaria pra cama...
ou você, vai saber...

mas eis que veio
um novo abril
febril
diferente do primeiro
faceiro

e fez do mês de maio
o vento de raio
para eu conhecer teu cheiro

ah... aquele classicismo todo
que tomou o ar de minhas artérias
no apagar das luzes de abril

ao som de Beethoven, saí do eixo...
isso sim é que é se desalinhar com jeito!

soubesse eu que a euforia do meu trabalho
seria atalho para me levar a você...

talvez tivesse corrido
pra não enlouquecer

mas dizem as más línguas
que é justamente disso que eu gosto...

eu,
uma moça com brinco de pérola,
tatuagem envelhecida, música na veia,

um pássaro fugido, recém coração ferido...

soubesse eu que aquele olhar
que me tremeu as pernas na cantina
bateria em todas as minhas quinas...

perdi todo o equilíbrio

deste corpo que jurou ao universo,
inocente...
há tão pouco tempo,
administrar os anseios
que causaram tanto pranto

talvez tivesse tido tempo de fugir
pra não me emaranhar nos teus encantos

mas quando o corpo fala
toda a memória se dilui

toda história é esquecida

e só há o presente
nas gavetas do sentido

justamente nesta hora
é que a sorrateira memória
na junção com o meu desejo
me leva a mais justa forma de festejo: rir!

porque fugir?
de medo?
ora, eu que tanto me lanço no agora...
sem me importar com a forma
que terão as coisas na aurora

porque me ofereço inteira
pra tudo que me move
em qualquer hora

esperar o que?
o tempo certo de viver?
como fazem as senhoras tristes
que nunca gozaram?

já faz tempo descobri que tempo certo
nem relógio sabe encontrar...

você,
homem de reticências,
sabe muito bem o que é capaz de causar...

já eu,
mulher de multiplicidade,
não fui pra ti nem a metade...

não me permitiu, meu signo de ar,
tão conhecido do teu escorpião,
revelar toda a minha canção

eu levaria tempo
pra te mostrar quem sou

como sempre se leva...
não é sempre assim!?

mas meu leão não se importa...
ele quer bater na tua porta!
vestido de preto e com sapato vermelho...

porque temos,
doce escorpião,
ao nosso lado, o universo,
para recitarmos qualquer oração

venha mais um vez
e eu te mostrarei exclamação!

um pouco mais da minha maluquice aérea
que derruba toda a minha postura séria
e se derrete ao te ver abrir teu sorriso de menino,
embora homem tão já feito...
como se fosse apenas um pretexto pra uma rima óbvia

me encantam tuas reticências...
aguardo-as, quem sabe...
novamente reveladas no meu corpo
e espero, sem pressa...
mas à beira,
a tua circularidade em mim,
alheia a todo tempo que não seja
o tempo daquilo que se deseja

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