um ano depois...

Escrever é um vicio terrível, daqueles quase incontroláveis, químicos. Dá trabalho, cansa, me faz dormir tarde demais (porque quando começo só consigo parar quando sinto que o texto, como uma gestalt, se fechou...). Mas eu não sei viver sem... Porque é também a minha forma de digerir e processar as coisas. Sempre que o cotidiano fica denso demais, é escrevendo que consigo ficar mais leve. Pois bem, o momento agora é um desses momentos densos. E eu, como de praxe, também uso os textos como confissões e pedidos de ajuda, uma forma de afirmar para o meu ego de ascendente leonino que sou humana demasiado humana e pedir uma ajuda ao universo.

Fico impressionada em perceber como as coisas acontecem rápido na minha vida. Tudo muda o tempo todo. Claro que há os momentos de calmaria, ou eu não aguentaria. E quando falo de mudanças, não se trata de mudanças radicais o tempo inteiro, mas daquele permanente movimento que te faz mudar de perspectiva sobre os fatos por conta de pequenos (e nada triviais) acontecimentos, às vezes em um único dia. É assim que tem sido a minha vida há um ano, mais precisamente. 

2012 foi um ano de rupturas, muitas, e por iniciativa minha, que começaram logo depois do meu aniversário, e se faz sentido a tal da revolução solar, agora estou entrando em um momento completamente novo, de estruturar a vida. As mudanças não cessaram, mas nesse momento são absolutamente diferentes. Essa semana, por exemplo, foi tão cheia de pequenas novidades, de um turbilhão de sentimentos e possibilidades que eu cheguei em casa hoje atônita. Não sabia o que fazer, precisava ficar sozinha. Abri mão de todos os bons programas que eu tinha pra essa sexta-feira a noite, de bar a concerto, pra ficar em casa com minha escrita, minhas músicas e minha seleção de Paulaner de diversos sabores. Aliás, ficar só é uma coisa que tenho feito muito de um tempo pra cá, pois está brabo de dar conta de todo o furacão dentro e fora de mim. E gosto disso, da solidão desejada... me reconheço muito nessa condição, além de me renovar nela. Sempre fiz questão dos momentos de solidão, mas no último ano eles foram meio escassos, e acho que isso me fez um mal danado pra autonomia. 

Parece que, para mim, o ano de 2012 acabou só depois do carnaval, e como de praxe no Brasil, o meu ano de fato começou depois do carnaval. Mas estamos em julho e tanta coisa nova aconteceu de março pra cá que parece que em 3 meses já se passou um ano... Assim como parece que tudo o que se deu de julho do ano passado até fevereiro desse ano foi há, sei lá, cinco anos atrás... 

Há um ano eu vivia uma outra vida. Há exato um ano atrás... e logo depois das rupturas todas que empreendi, eu me perdi num turbilhão. A sensação foi de sair de um ninho, onde eu estava aconchegada e, nos últimos momentos, acomodada, e de repente cair num buraco negro. Foram muitas rupturas ao mesmo tempo, e eu entrei num fluxo de dispersão. Vivi o caos durante esse tempo. Foi apenas em janeiro, quando tirei férias e viajei sozinha pro sul da Bahia, que consegui aquele distanciamento mínimo pra observar o que estava acontecendo e poder me reconectar com os meus desejos mais sinceros. Então, adoeci. Durante uma semana da viagem eu participei de um workshop de astanga yoga e com tudo o que aquela prática mexeu em mim eu caí de febre e dor de garganta, e tinha dores horríveis a noite no corpo todo, e chorava sem parar. Acho que chorei em uma semana o que não chorei em um ano... Porque fui me deixando sentir todas as dores que não me permiti quando estava com o corpo tomando porrada das muitas mudanças. Era preciso resistir. Mas foi só parar que de repente o corpo reagiu... quando voltei da viagem eu estava profundamente grata ao yoga, mas voltei desconectada da astanga, e ainda insisti, forcei uma barra que não deu certo... eu sabia que era preciso mudar isso também, mas ficava numa batalha interna tola, apegada. Enfim, cheguei no Rio e caí direto no carnaval. Foi o meu carnaval mais carnaval em anos. No sentido de me jogar na multidão, coisa não muito fácil pra mim, porque eu preciso me preparar psicologicamente antes pra não entrar em pânico. Mas avalio que eu precisava daquela catarse, como encerramento de um ciclo, de uma Vanessa que se foi pra dar lugar a uma nova Vanessa... Retomo, hoje, coisas que ficaram lá atrás, e que me constituem, onde eu me reconheço, como por exemplo, esses momentos de solidão e silêncio, e a espontaneidade, para afirmar o que for que eu estiver sentindo de verdade. Um eterno retorno, sim... mas, mais deleuziano que nietzschiano. O retorno, porém, diferente. Uma espiral, e não um círculo. Retomo a espontaneidade com muito mais leveza, e com mais clareza do que ela significa...

Mesmo tendo sido uma criança calada, daquelas que a mãe esquecia que estava em casa porque ficava desenhando num cantinho ou lendo ou inventando narrativas, e uma adolescente obscura, cheia de questões difíceis, sempre fui muito espontânea. E foi com a espontaneidade que conquistei muitas coisas incríveis na vida. Mas com o tempo essa espontaneidade foi minando. Mas é claro, bastava beber um pouquinho que ela voltava rapidinho rs. Nunca aceitei que determinassem os rumos do meu desejo. Sempre briguei pela liberdade (até onde ela é possível) de conduzir minha vida do jeito que eu bem entendo. Se existe uma verdade pra mim, é essa. Por isso muitas brigas na adolescência com a família, coisa felizmente superada desde que saí da casa dos meus pais há 10 anos... Nossa, como passou rápido... Bom, as pessoas costumam dizer que eu sou bem espontânea, e devem achar essa minha fala estranha... mas enfim, se soubessem o que se passa aqui dentro... E embora eu escreva muito, há coisas que nunca serão reveladas nos meus textos. E eu sou boba de fazer isso!? (risos) Mas hoje eu entendo muito melhor a espontaneidade que antes, porque eu achava que ela era uma coisa arbitrária, tola, que poderia ferir as pessoas, uma total falta de senso coletivo... Isso há muitos anos atrás... Mas quando voltei a pensar nela, entendi que ser espontâneo é tão simplesmente agir de acordo com o que se acredita, e que isso não exclui a atenção que se deve ter com o outro, seus desejos, suas alegrias e tristezas. É o jogo da convivência! O difícil é fazer isso sempre, quando se vive processos coletivos, porque há aqueles que insistem em te puxar pra baixo, grupos que não conseguem atuar como coletivos valorizando ao mesmo tempo as singularidades, o brilho de cada um. E nem é preciso ir para o âmbito do grupo para perceber isso. Quantas relações a dois diminuem as singularidades, ao invés de ampliá-las, potencializar o que há de melhor em cada uma... Mas a atenção a isso é o desafio também. O que não dá é deixar que a energia medíocre que muitas vezes se instaura num grupo mine nossa capacidade de criação. Pois, eis que veio a palavra! Criação é a palavra da vez pra mim. 

Como pessoa que só sabe viver apaixonada, tenho entendido muito da minha infelicidade com alguns processos e lugares. Minha paixão primeira? Criar! Ou estou num processo criativo ou estou morta. Radical assim. Quando escrevo estou criando, quando canto, produzo realidade, e no trabalho de planejamento e produção o que me alimenta é o processo de reunir informações, pesquisar, trocar ideias e dar vida a um projeto. Coloque-me apenas pra realizar burocracias e verá uma pessoa totalmente amarga... Pois isso é revelador e, desde março, quando voltei do buraco negro onde eu estive perdida por uns bons 6 meses, isso tem determinado a minha vida. E a vida tem me revelado caminhos grandes a partir disso, com perspectivas absolutamente novas, o que implica também em uma responsabilidade muito maior. Eis que agora, aos 33 anos, eu me vejo de frente pra possibilidade de realizar tudo o que eu sempre quis. E estou com um baita frio na barriga... Essas possibilidades? De forma bem geral, trata-se de dar vida a projetos que ficaram por tempos engavetados, porque talvez estivessem esperando a hora certa de aparecer, e de, cada vez mais, ter mais autonomia sobre o meu tempo de trabalho. Qualquer pessoa que verdadeiramente não tem medo de se conhecer, parece ter esse mesmo desejo. Controlar o próprio tempo... Controlar mesmo, sendo bem enfática. Perdi o medo de algumas palavras. Tudo o que está aí, todas as instituições, família, trabalho, escola etc, tem como premissa controlar o tempo de suas ovelhas. Para não entrar nessa só mesmo retomando para si o controle. Quem faz meu tempo, antes de qualquer coisa, sou eu. É primordial essa forma de agir, para que o jogo com a instituição se torne mais justo. Eu sempre me coloquei na frente, levando em consideração esse horizonte, mas só hoje é que começo a colher os frutos mais bonitos dessa plantação. Embora eu respire ainda um pouco tensa, respiro aliviada. O que está colocado pra mim é lindo. Como eu disse, tudo o que eu sempre quis. Resta-me agora ampliar minha força pra lidar com tudo o que vem junto com mais visibilidade e responsabilidade, inclusive a responsabilidade maior sobre o meu próprio tempo. Os desafio mudaram...

Hoje, conversando com uma pessoa muito querida, falamos sobre como a fase dos trinta anos é realmente a fase de meter as caras e brigar pelo que se quer. Você já não é mais jovem como era, também não é velho, já viveu coisas suficientes pra saber o que quer, o que ama, como ama, o que deseja. E começa a querer definir um monte de coisas. Onde de fato vai ficar (tempo e espaço), com o que trabalhar, ter filhos ou não ter (pra quem ainda não teve, como é o meu caso)... E depois dos trinta e poucos vc já passou pelo retorno de Saturno, ou seja, relaxa e goza rs. Pois eu me sinto no momento do possível, e com aquela sensação de que o que eu decidir agora vai definir minha vida pelos próximos anos. Não sei se necessariamente onde vou ficar espacialmente, porque gosto de uma mudança, mas onde vou ficar em termos de desejo, por um bom tempo... Não por toda a vida... Não que isso não seja possível, mas é melhor não pensar assim, vai por mim...

Conversando com um amigo no dia do meu aniversário, ele me contou sobre uma experiência incrível que teve com umas mulheres xamãs em Mauá, e que havia ficado muito ligado em numerologia. Calculamos o meu ano. Somando a data do meu aniversário este ano encontramos o número 4. Quatro, ele me disse, é um ano de estruturar, diferente do ano 3, um ano de rupturas, agitação, novidades (fiquei pasma) e de um ano 5, que será meu próximo aniversário, um ano de transformações (ai, tudo de novo...). Pela numerologia, esse ano que começou no dia 19 de junho será um ano de muito trabalho e de consolidação. Bom, acho que já percebi... Minha revolução solar não diz algo muito diferente também, embora seja mais consistente e complexa. Estou em um ano de leão, ou seja, um ano de dar a cara a tapa, de mostrar a que vim nesse mundo. Já dá pra perceber pelo tom do meu texto, um tanto egocêntrico... Mas há que se fazer justiça a leão, e eu como uma boa geminiana, que tudo analisa, reflete (e mil fatores ao mesmo tempo), digo: leão é o signo do brilho. Quando ele consegue fazer o seu brilho ultrapassar seu ego, ilumina tudo ao ser redor. Vamos ver como vou me sair... Coisas lindas estão na minha mão para que eu aproveite. Novos trabalhos, novos desejos, um controle maior do meu tempo, uma nova yoga, novas atividades, uma nova música, tudo novo de novo! O mundo é meu! E pode ser seu...

É bem como diz a música do Abba (apenas com uma pequena mudança no pronome e na idade)... I can dance, i can jive, having the time of my life... I am the dancing queen... only thirty three!

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