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Apresentação do livro que está no forno! 

A intimidade revelada pela poesia
Uma carta ao leitor

Rio de Janeiro, inverno de 2013

Querido leitor,

Antes que comece a ler as minhas cartas, vou te contar uma breve história. Não faz muito tempo desde que eu percebi que boa parte do universo da minha produção poética era composto por poemas-cartas, ou cartas-poemas, como assim o fez, certa vez, Manuel Bandeira, e como fizeram, e fazem, muitos poetas, nomeiem desta forma ou não. Mas, desde então, percebi que não importa o nome que tenham; importam sua motivação e seu propósito. São poemas dedicados, escritos sob uma única inspiração: o arrebatamento ou encantamento causado pelo outro. E com um único desejo: o de que este outro saiba disto e, se possível, dê um retorno. Nem sempre as cartas realizam esse desejo, é verdade. Kafka, por exemplo, sequer conseguiu entregar a longa carta que escreveu ao seu pai, quanto mais ousaria esperar por resposta... Uma vez entregue a carta, não significa que a teremos, a reposta. Em alguns casos, sabemos que ela jamais será possível, o que torna ainda mais fascinante este universo, pois revela a entrega daquele que escreve. Independente da resposta, importa escrever e entregar a carta; revelar, pela palavra, o que se passa intimamente.

Assim, seja para um amor, uma paixão, uma irmã, os pais, um casamento, a avó, um amigo, um artista, ou vários deles, os poemas aqui expostos revelam grande intimidade: foram escritos em momentos de profundo encantamento, ou de grande desespero, como uma forma de dar conta, com a palavra, de tudo o que o corpo viveu, ou quereria viver, na relação com o outro, e de traduzir-lhe isto, ou de revelar-lhe como ele foi, por mim, compreendido e, em mim, marcado.

Lembro-me que quando percebi que eu reunia muitos poemas-cartas, outras duas coisas aconteceram junto a esse momento, bastante curiosas pela relação que estabelecem com os poemas e comigo. Primeiro, eu descobri a origem do meu nome.

Vanessa é um nome que até o século XVIII não existia. Ele foi criado pelo escritor irlandês Jonathan Swift, aquele de As Viagens de Gulliver, em um poema dedicado, no ano de 1713, após uma fatídica carta. Pois vejam só! Imaginem a minha cara quando descobri isso, ao buscar a origem do meu nome de forma tão despretensiosa... Como se não bastasse ter sido criado por um escritor, ainda havia sido criado em um poema dedicado... Mas a história não é lá muito feliz. Parece que Vanessa se apaixonou por ele, mas ele não correspondeu. Há também versões que dizem que eles foram amantes, que é, obviamente, a minha versão preferida. Nos dois casos, o final é o mesmo: Vanessa, ao descobrir que Swift nutria um grande afeto por uma mulher chamada Stella desde muito tempo, e que Stella havia se mudado para perto de Swift, envia uma carta a ela falando de um romance entre os dois. Jonathan Swift, quando soube da carta de Vanessa a Stella, decidiu nunca mais ver Vanessa, e escreveu-lhe um poema de despedida, Cadenus e Vanessa, onde os nomes dos dois aparecem ocultados em codinomes. O nome Vanessa foi criado a partir do nome verdadeiro da mulher, Esther Vanhomrigh. E assim, entra para a história da humanidade. Tenho um amigo que sempre diz que o nome é uma missão. Faz tão pouco tempo que descobri a origem do meu nome que ainda não consegui encontrar qual a missão de quem o carrega. Será que é superar pés na bunda? Brincadeiras à parte, o nome Vanessa vem do nome Esther, que significa estrela, e nomeia uma espécie de borboletas, o que dá excelentes pistas. Mas, de toda forma, talvez minha missão primordial como Vanessa seja escrever cartas...

Logo depois, conheci um poema de Mana Bernardes que pareceu traduzir exatamente o que estes meus poemas são para mim. Tomo a liberdade de transcrevê-lo aqui, embora sem o seu outro, o singular trabalho de caligrafia de Mana:

No papel
Não caberia
O que no corpo
Já não cabia
Na poesia caberia

A palavra poética é, para mim, esta forma de fazer caber o que não cabe mais no corpo. Uma das minhas formas mais próprias e apaixonadas de compor a realidade. Algumas vezes, a poesia dedicada é um presente em agradecimento à existência do outro: o meu retrato pessoal deste outro. Em outras, assume a forma de convite. Em alguns casos, a necessidade apenas de relatar e compartilhar minha visão do vivido, diferente de quando é a forma de viver o que não foi possível ter vivido, e desaguá-la na poesia entregue ao outro. Em todos os casos, é a intimidade revelada pela palavra.

Quando, então, surgiu a ideia de reunir estes poemas em um livro, ao mesmo tempo uma questão se colocou: como revelar toda essa intimidade? Como eu suportaria revelá-la? Inicialmente, houve um receio, como se tornar público estes poemas viesse a me fragilizar ou a expor demais aqueles para quem dediquei poemas. Meditei durante um tempo se valia a pena trabalhar, como proposta de um livro, e do projeto de intervenção artística que nasce a partir dele, esta minha intimidade. Afinal, algumas destas cartas são bem explícitas de um sentir; algumas que eu quereria que meu pai não lesse (risos), assim como declarou Alen Ginsberg ao contar que sentiu vergonha em publicar Howl só de imaginar que seu pai leria (embora eu ache que nada aqui se assemelhe a este fantástico poema libertário, pelo menos no tom erótico-político...). Mas o mesmo Ginsberg decidiu publicar, também, por isso, pois o poeta não pode simplesmente não publicar por medo ou vergonha. Santa, ou melhor, maldita inspiração! Outras cartas são lindamente tolas (ridículas cartas de amor), e revelam o meu coração, o meu corpo e o outro pelo meu olhar. O amor, aliás, é uma das grandes fontes de inspiração poética e destas cartas, e não há quem me convença que poemas de amor não digam mais nada na história da poesia e da literatura (pois eu ouvi isso de um famoso escritor que leu os meus poemas...). Dirão, e sempre, porque amor e vida são irmãos gêmeos.

Assim, depois de muito meditar, resolvi arriscar, trabalhando essa minha intimidade, que é também a do outro, sob o horizonte do cuidado. Alguns nomes puderam ser revelados, outros não, assim como nem todo poema dedicado entrou no livro (pois há aqueles que são apenas meus e do outro, e pertencem àquele universo particular das relações). Quis arriscar porque o material era rico para se construir intervenções, inclusive no corpo de novos outros, os leitores, percebendo também que não publicá-los é que talvez fosse a fragilidade. Compartilhar as intimidades nos aproxima. Como, então, manter guardadas estas cartas apenas para mim ou, em alguns casos, para os destinatários, quando boa parte delas expressa tão somente o que todos nós sentimos: prazer, encantamento, dor, alegria, tristeza... Como não compartilhar ainda mais a forma como a vida se revela em mim, se é justamente no ato de compartilhar que reside o que de mais rico a vida pode nos oferecer? Essa percepção foi determinante, inclusive a de que nada do que está aqui será surpreendente, porque o humano demasiado humano é nosso conhecido íntimo. Abrir o baú das minhas cartas nada mais é que essa vontade de compartilhar sentimentos, sensações, o mundo como eu sinto, o que, para mim, é a afirmação da potência da vida. Apaixonar-se, encantar-se, gritar de dor, chorar de saudade, declarar-se, tudo isso é prova de que estamos vivos! Revelar um pouco de como eu sinto tudo isso é, então, uma alegria! E nesse meu revelar, poderá, o leitor, até acompanhar algumas histórias, através de poemas que, juntos, produzem narrativas. E a vida é o material da arte; são, as duas, uma coisa só. Por isso, o livro publicado. Por isso, tudo o que pode ser criado com tal imensidão íntima revelada, para usar uma expressão cara a Gaston Bachelard; a imensidão que surge dentro da alma (também como corpo, em uma unidade) quando do contato profundo com o outro.

Por fim, publicar estes poemas é também uma forma de prestar uma homenagem a cada um dos destinatários destas cartas. Na maioria dos casos (exceto um ou outro em que o destinatário é um grupo genérico ou um ente qualquer), elas são direcionadas a pessoas que passaram pela minha vida ou ainda estão presentes. A elas o meu profundo agradecimento por terem permitido que eu entrasse em suas vidas e, em alguns casos, por se manterem pertinho de mim. Encontros produzem poesia! Na minha vida funciona assim.

Compõe este livro também, um pequeno conjunto que chamo de outras poesias, por falta de nome melhor, confesso, mas também para marcar a diferença: não são cartas, mas poemas que eu gostaria de publicar. Com eles, fecho o livro. E com isto, encerro este texto, antes que a minha mania de escrever demais transforme uma simples apresentação numa tese.

Que venham, então, novos outros, os mesmos renovados e novos poemas-cartas.

Com o desejo de que escrevam também os seus,

Vanessa Rocha

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