poemas paulistanos

sequência de poemas escritos em um fim de semana em São Paulo

poema de aeroporto
sexta, aeroporto Santos Dumont

então, fez-se luz!
e, logo depois, verbo!
e Deus criou o homem e a mulher.
e criou o paraíso, onde plantou sonhos, música e delírio.
e fez-se o tempo.
e homem e mulher passaram a ter razão para viver o paraíso ao máximo!
mas o homem inventou o trabalho...
Deus, refletindo o por quê daquele ato,
até achou que alguns trabalhos valiam a pena...
em tempo, não pensou duas vezes:
para ajudar homem e mulher, sendo camarada e gente fina,
eis que Deus criou, então, a cafeína!

poema sinfônico
madrugada de sexta para sábado, após concerto da Osesp na Sala São Paulo

“uma sinfonia deve conter o mundo”
e em cada mundo, a paixão

era cedo

anunciaram, as madeiras,
notas transversais
tomaram o meu corpo
e eu me rendi ao suor do sopro

fosso-oboé do meu desejo
clarineta fálica do meu sexo
meu nexo é levar a vida na flauta
e, em se tratando de paixão,
meu fagote sussurra coisas impronunciáveis

metalizando a fala
minha verdade rara é tomada de torpor
trompas, trompetes, tubas, trombones
quando o mundo se refaz, são eles que anunciam

e, logo depois,
na percussão do universo,
anuncia-se o verbo
um tímpano é capaz de produzir um mundo novo
e a infinidade de tudo o que percute
faz a existência mais certa e menos rude

e então, as cordas...
onde a realidade se estica
para multiplicar o possível
e o impossível do infinito

contrabaixos,
esses mensageiros do profundo
ressoam graves desde o fundo do oceano
e revelam minha insanidade necessária

violoncelos,
mestres da doçura e do experimento
vêm nos ensinar o caminho do meio
meu corpo, deles tomado,
delicia a eterna hora do recreio

violas,
as pontes...
sem elas, a passagem seria dolorosa
minha alma, cansada,
dança com elas a valsa enluarada

e chegamos aos violinos,
tão carregados de história...
eu viveria na melodia dos versos que produzem

e ao me encontrar, de frente pro mistério,
no quase segredo que revelam,
eu morreria, para recriar minha fala,
nas mãos de um spalla

e, então, no ouvido do maestro
renovando o sexo dos deuses
reconstruir-se-ia o mundo
por teus gestos

como poema sinfônico

semeando luz
em todo e qualquer universo

um maestro deve ser deus
cada um de nós, maestros de si mesmo
a reger as sinfonias de nossos desterros

e cada sinfonia deve conter o mundo

sejam quantas forem

nove, dez,
quarenta...

são elas, os cantos da terra
e a vida que se reinventa

espanto
sábado, após visita ao Museu da Língua Portuguesa e uma pequena surpresa

espanto...
o que mais agora, pode,
anunciar meu canto?

fosse a vida mais exata
e seria calma,
mas chata...

espanto...
palavra que ficou da tarde
de tantas palavras

palavra que ficou, precisa,
pela rede social, revelada

palavra que me deixa
sem palavras
querendo, apenas, escutá-las

e ouço o poeta
sussurrar no meu ouvido:

“penetra surdamente no reino das palavras.
lá estão os poemas que esperam ser escritos.”

---

o mundo,
esse ovo curioso e fecundo
a vida,
essa coisa doida varrida

---

no instante seguinte em que lanço a palavra,
dela já me desapego

não a nego

mas ela sai como escarro ou beijo
e assim, lançada no mundo,
de mim, torna-se apenas lampejo

a palavra só tem peso
se a quisermos desejo

a delicadeza do abandono
madrugada de domingo para segunda...

recado está dado
meu samba está leve

te deixo de lado

recado está dado
economizo as palavras

te abandono de mim
para renovar o nosso apreço
e deixar, assim,
surgir um novo começo

recado está dado
mesmo que eu não saiba o que ele diz

aceito o silêncio
com alma de aprendiz

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