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Mostrando postagens de 2014

há tantas auroras que ainda não brilharam

acordei tarde
procurando poesia
havia um cheiro ali ao lado
sei lá que lado
talvez todos
que fica a espreita
rondando minhas certezas
acordei tarde
porque é tanto o cansaço
e o amor tem sido uma cidade grande
com parque, arranha céu, cachorro, sinal de trânsito
verde, vermelho, cuidado
siga atento no amarelo
acordei e desejava poesia
para o café da manhã do quase meio dia
- há o silêncio do meio dia
estranhamente o meu apartamento silencia -
o sol ardia
ainda arde
há calor e talvez nem seja tão tarde
e, quem sabe,
mesmo assim, parecendo tarde
seja, na verdade,
cedo...

Isto não é uma poesia

não sabia quase nada
hoje sei menos ainda não sei o que se passa e sou mais feliz assim de tudo o que conquistei ficou aquilo pelo que não batalhei
mas pelo que me apaixonei
eu, a egoísta a adúltera infiel a workaholic que poderia esperar da vida o pior e ganhou o melhor
eu, a agradecida a embevecida o amor em forma de carne a doação em sangue e suor
a lealdade

os deuses sabem o que fazem
e, então, eis que sou o que sempre fui eu, a desgarrada no meio de uma chuvarada fazendo poesia
e poesia não serve pra nada!

atonal

sei lá que tipo de matéria eu quereria ser agora
sei que assim, compactada como um corpo humano,
não dou conta nesta hora

queria era estar decomposta
talvez em poeira estelar
em células mortas
infinitamente dividida
em minúsculos grãos de areia ao vento
que se espalhariam e não restaria nada
que pudesse dizer: veja, aquilo tem identidade

nenhum sólido
nenhum corpo
nenhum sentido exposto
nada que conte história

sem passado
sem futuro
só o presente sobreposto nele mesmo
sem desejo
mas com devir
sem afeto
mas com instinto
sem amor
apenas existindo

arrastada pelas tempestades
sem controle
destituída de toda saudade
desmembrada das cláusulas
que um dia o meu corpo assinou

descentrada
e só

diluída na partitura da dor

As Cartas de Sara - teaser

As Cartas de Sara é o nome do romance que estou escrevendo. Segue um teaser do texto...

“... e então lhe ocorreu que pudesse não ter lhe causado tanta vertigem a sensação de quando viu aqueles olhos pela primeira vez. Sara não era de se entregar tão fácil. Sua vaidade freava seu impulso de peixe diante da vara. Era ela quem pescava. Mas acordou de súbito naquela madrugada, desejosa de que tudo tivera sido apenas um sonho mal resolvido, e que aquele cheiro de musgo das paredes da antiga igreja fosse tão somente fruto de sua imaginação. Mas ela acordou. E seu corpo lembrou que não. Apenas recordava aqueles olhos e eles lhe remetiam à dor de seus avós em fuga da guerra e à carta escondida no porão do apartamento em Viena. Era um olhar de dor e também um olhar de horizonte. Continha o universo. E talvez ela pudesse cair na tentação de que teria visto, dentro daqueles olhos, toda a sua vida. Mas isto era proibido, a priori, pela escolha de um ofício injusto com o corpo. Logo ela, que era …

De volta pra casa

Como se revisitasse sólida
A doçura do meu afeto
Aquela estrela amanhecida
Me tomou inteira nos teus olhos
O mundo curtia ao longe
A tua senda envaidecida de saudade
Teu inexato signo da morte
Verdade que tomada ao vento
Foge ao meu caminho
Que tão íntimo ao teu, agora,
Se dobra na curva extática do infinito

Como se faltasse um nome
Uma palavra têxtil me tomou de assalto
E o campo numeroso do meu corpo mago
Fez chover sorrisos como meteoros tortos
Eis que o nome é o que menos importa
Pois se abriram as portas mais esplendorosas
Que temperadas me tomam feito o mar
E carregam meu sangue no teu paladar

Como se transbordasse a fome
Nasceu inteira uma lavoura enorme
Dentro da qual se dança o campo
Imantado de uma música-criança
E brotam lírios, uvas, azeitonas
E árvores pedindo seiva bruta
No horizonte endoidecido de desejo
Em que insetos despejam seus segredos
Na roda placentária movida de cheiro

Amanheci o ser amado no meu beijo
Anoiteci minha palavra nas estrelas
Enlouqueci minha saudad…

Metalinguagem

Meu paradeiro hoje
Um espelho
Narcisismo da exaustão
Não ouse querer encontrar
O meu ego na multidão
Estou só
Como só os exaustos
Sabem sê-lo
Com o corpo mais arrasado
Que a natureza concebeu
Que não suporta a luz, o caos
Fadiga de coliseu
Incapaz de tolerar o traço mal feito
E a palavra mal dita

Para seu governo torto
Faço poesia com a matéria vida
Num banco de metrô
No ensaio de uma orquestra
Quando já não dá mais
Pra suportar o próprio sentido
E nem mesmo toda festa

Meu sentido é tão somente sentir
E sei muito bem
O que faz este corpo cansado
Sorrir

Um espelho aberto um dia
Na clausura do tempo linear
Mostrou-me
Sem tempo
A cura que é amar

Mas dormir
Para um insone
É tão belo
Quanto o olhar
Daquele homem...

Faço poesia
Com qualquer coisa
Em dias assim
Quando a dor no corpo
Frita os músculos
E elimina o doce cheiro do jasmim

Pra não perder
O mistério do coração

Pra não morrer
De obrigação...

pra que serve a poesia

se não servir a poesia
para nada
prefiro não ouvi-la
não sou adepta do vazio
da palavra
que, aqui, uma vez dita,
- a física garante -
produz nota na cítara
do outro lado do planeta

que me sirva, a poesia!
como me serve um prato
de carne suculenta
ou prefiro esquecê-la

para quê poesia
se não me lembra, ela,
da vida latejante
que existe para além
do cansaço

deve servir sim!
para lembrar
o absurdo risível

que nada é tão absurdo
que não possa ser possível

Humano demasiado humano

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Hoje, voltando para a casa, me peguei metafísica. Pensava na vida, como quem olha pra muito longe. E eu realmente olhava. Pela janela do metrô. De onde não se vê nada, a não ser dentro de si mesmo – um lugar longe... Por alguns instantes, fiquei tentando encaixar as peças de um nebuloso quebra-cabeça ao qual o meu desejo está profundamente vinculado. E esqueci que eu estava num vagão de metrô. Minha estação é a última e, às quase dez da noite, são poucos os que ficam para descer. Depois que o trem parou na penúltima estação, ficamos três naquele vagão. E, então, eu me vi de novo no mundo exterior. Lembrei haver um corpo que interage e que estava presente em um determinado lugar: quando os meus dois companheiros de vagão me chamaram a atenção. Um homem e uma mulher, jovens como eu, caminhando ali pelos seus trinta e poucos anos. Sozinhos os dois, como eu estava. Ela chorava, com uma melancolia tão grande no rosto que chegou a partir meu coração. Olhava também para dentro, pois chorava…

Aos nossos contadores de história que se foram...

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Ariano Suassuna, que nos deixou hoje, disse certa vez: "o homem nasceu para a imortalidade. A morte foi um acidente de percurso". Em poucos dias, a morte chegou para três grandes pensadores e escritores brasileiros: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e o próprio Suassuna. Tive a sorte de conhecer dois deles: João Ubaldo e Suassuna. E me deixar inspirar, como ser humano e como escritora. Talvez, seja mesmo a imortalidade que guie um criador a produzir sua obra. E não se trata de ego, mas de uma missão dada pelo universo. Desde o seu início, há alguns trilhões de anos, todo o universo conta a sua história e a mantém eterna. Meteoros carregam bactérias capazes de sobreviver por muito tempo, mais tempo do que nossa capacidade humana é capaz de imaginar. Cada semente conta a história da planta que lhe deu origem e da próxima que ela originará. Nós, seres humanos, contamos nossa história e nossas histórias de inúmeras maneiras: pela palavra, pela tecnologia, as ciências, as imagens…

cheiro de rosa

um cheiro de rosa invade a minha sala

se é incenso vindo de fora
se é paixão que insiste no peito
que importa...

fato é que um cheiro de rosa
bate à minha porta

e devaneio

abro a garrafa de vinho
escrevo mais um soneto

enlouqueço
e cedo à tentação
de deixar escorrer pelo meu corpo
um cheiro persistente

que insiste em ser presente

mas canso
e me entorpeço

desabo
em direção a fonte
do espasmo

e me deixo
exausta

à mercê da tua estrada
à guisa das tuas madrugadas
sonhando contigo
a me acordar em noites calmas
delirando o abismo
de desejar estar sempre em tua jornada

estando

vivendo contigo
a construir
realidades novas

o que estamos fazendo
senão traçando, juntos,
uma estrada sinuosa?

um cheiro de rosa invade a minha sala
e sei que daí, a partir destes dias,
pensas que não sabes mais o que sentir

e eu...

eu não sei

apenas canto
tua maravilhosa presença

ensimesmando
com tanta
persistência...

o amor tranquilo

então, era isso...
de uma simplicidade estonteante!

então, era assim que, o tempo todo,
ele estava programado para chegar?

silencioso e sem querer

no frio de uma madrugada de inverno
depois da calma de um dia de sol
que renovou a fé nos dias que virão

então, era só isso?
e eu não precisava ter sofrido tanto?

mas, desconfio:
o sofrimento é que nos traz
o sentido da leveza
e sua grandeza

então, o tempo todo,
ele esteve comigo!

porque nunca não haveria de estar
eu apenas não o via
mas, desde sempre,
ele esteve respirando
em meu ouvido

então, era só isso...
simples, fácil, óbvio
e, por isso, belo

como o sol descendo no horizonte
ao som do bolero de Ravel

o substantivo vida

se perguntassem a um poeta o que é a vida
carbono seria estrela

vida é aquilo que existe quando a gente ama!
e sente dor de estômago...

é o cheiro que enjoa
e a luz que dificulta abrir os olhos

é quando bate a saudade
e nasce alegria de ouvir a voz querida

é carinho desejado
e acontecido
vértebra cintilando
o investido

vida é dor
dor nas vísceras

é quando os músculos se contraem
as lágrimas caem
o peito se apavora

vida tem gosto de vinho, azeite e amora
e é a lida que começa cedo para fazer o pão

é o moinho girando
a água cantando na pedra
o som da máquina do mundo
o cabelo ao vento
um poço bem fundo

tem cheiro de delírio
gosto de ser amado
tato de mar salgado
visão de deserto longo

vida é o estilhaço
das cordas renascidas
e o sopro que anuncia o susto

da morte

às vezes,
a vida parece uma falta de sorte...
e é um grande espanto

no entanto,
é a notícia dela,
da sua chegada,
a notícia da certeza
de que sentir-se vivo
é, antes de tudo,
sentir-se estrela!

Para as noites pequenas

Ah, se eu pudesse...
Fazer passar o tempo
E me deixar esquecer o vento
Se eu soubesse que sofrimento
Traz alívio ao final
Que dor rima mesmo com amor
E que a alegria de algo que nasce
É tão somente essa alegria doida e mais nada

Se eu soubesse antes que certas fomes não passam...

Ah, se eu soubesse...

poema sinfônico

uma sinfonia deve conter o mundo
e, em cada mundo, a paixão!

amanhecia a vida

anunciaram, as madeiras,
notas transversais

tomaram o meu corpo
e eu me rendi ao suor do sopro

fosso-oboé do meu desejo
clarineta fálica do meu sexo
meu nexo é levar a vida na flauta
e, em se tratando de paixão,
meu fagote sussurra coisas
impronunciáveis

metalizando a fala
minha verdade rara é tomada de torpor
trompas, trompetes, tubas, trombones
quando o mundo se refaz, são eles que anunciam

e, logo depois,
na percussão do universo,
anuncia-se o verbo!
um tímpano é capaz de produzir um mundo novo
e a infinidade de tudo o que percute
torna a existência mais certa e menos rude

e, entram elas, as teclas,
martelando a minha espinha dorsal
e arrepiando versos que,
piano, poderiam fazer nascer carnaval
para então, cravo, ressurgir, na quarta-feira,
o sagrado em uma harmonia inteira

a ecoar, também profano,
o choro de um magnífico coro

para chegarmos às cordas!
onde a realidade se estica
a multiplicar o possível

Um último tango no Rio de Janeiro?

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da noite pesarosa de um tango insuportável renascerá Piazzolla descalço e sem pudores para acertar os passos que se alinham tortos num tempo descompassado
virá predizendo  o fim de uma jornada
- na noite pesarosa, carioca e amarga -
há tangos improváveis que acabam sendo dançados mas o descompasso não pode ser perpetuado
é como dor de escarro que dói no peito conjugado de promessas as farpas miseráveis dos afetos absurdos
-  é preciso devolver a harmonia da cidade -
em Paris, morreriam os amantes envoltos em lágrimas e um bandoneón afogados às margens do Sena
- com uma garrafa do melhor vinho à mão -
no Rio de Janeiro a chuva se confunde às lágrimas dos que são lançados no deserto
- escondendo o céu claro -
e um último tango deve ser dançado cansado está de existir descompassado

Quem tem boca vai a Roma e muda tudo!

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Mudar é uma das poucas constantes da vida. Sidarta Gautama dizia que a impermanência é a verdade da existência e isto se tornou o cerne do budismo. Na Grécia, Heráclito afirmou algo parecido. Eu nunca tive dúvidas. Desde os quatro anos de idade vivi mudando de cidade, por conta do trabalho do meu pai. Era um ir e vir danado. Por conta disso, estudei em nove escolas. Desde que saí da casa dos meus pais, há 10 anos, já morei em cinco apartamentos diferentes. É um apartamento a cada dois anos. Empregos foram vários. Projetos, inúmeros. Desejos, nem se fala. Parece que estava escrito nas estrelas que o meu karma seria conviver com a impermanência: nasci sob o signo de gêmeos. E estou às vésperas do meu aniversário de 34 anos vivendo uma das mudanças mais substanciais pelas quais já passei. Dizem que a cada sete anos todas as nossas células estão renovadas e somos um corpo diferente do que éramos há sete anos atrás. Na astrologia, o número sete também tem importância. Os astrólogos afirma…

A solidão necessária...

Às vezes, o que mais precisamos é da solidão. Para escutarmos melhor o que fala dentro da gente, diminuindo a quantidade excessiva de ruídos. E isto deve ser feito. O espaço da nossa solidão e do nosso silêncio deve ser sagrado. Penso assim... Minha vida corre rápido. Sempre foi deste jeito. Cada semana é uma correria danada e o movimento é a única constante. Encontro sempre muitas pessoas, troco ideias com várias outras, vou sempre a muitos lugares diferentes, tanto quanto os mesmos de toda semana. Muitos desejos vão, outros vem, enquanto alguns permanecem. Por conta deste movimento todo, há momentos em que a cabeça e o coração parecem querer entrar em colapso. O corpo pede um pouco mais de alma... Quando isso acontece, tudo o que procuro é ficar absolutamente sozinha. De preferência, em um lugar alto ou amplo, ouvindo músicas que me lembram quem eu sou. Olhando para o céu ou para o mar, calada, contemplando como o mundo é grande e como a vida é incrível, até mesmo quando dói e porq…

A Estrada da Saudade

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A minha Petrópolis e a Petrópolis de sempre
Petrópolis, cidade da serra fluminense conhecida como Cidade Imperial, é uma daquelas cidades brasileiras que costumam encantar pessoas em busca de uma experiência de Brasil mais europeia. Frio, neblina, pinheiros, casarões imponentes, catedral de arquitetura gótica, histórias de monarcas, jardins bem ornamentados, uma coroa incrustada de pedras preciosas, exposta para nos lembrar da riqueza dos soberanos e de sua posição privilegiada na sociedade. Cidade onde se pode alugar carruagens para conhecer seu centro histórico e visitar um local que foi um importante cassino e hotel que hospedou figuras como Getúlio Vargas e Walt Disney, o Quitandinha. Pitoresco! A Avenida Koeler, que começa na praça da liberdade e vai até a catedral, é uma das belezas de Petrópolis. De cada lado da avenida, vemos belíssimas mansões e, no Hotel Solar do Império, se pode tomar um típico café da manhã colonial, ainda que não se esteja hospedado, no Restaurante Impera…

eu e a palavra

poucas coisas hoje me fazem tão feliz quanto escrever. gosto de acordar, correr ou praticar yoga, tomar meu café e sentar para escrever. eu passaria o dia escrevendo. foi percebendo isto no ano passado que resolvi, finalmente, investir na escrita como carreira. sei que não é nada fácil. para viver de escrever é preciso vender muitos livros, coisa bem difícil hoje em dia. mas existem caminhos para isso, e já comecei a trilhá-los, pois há que se caminhar, já que o caminho se faz assim. estou concorrendo a um prêmio de literatura em língua portuguesa na categoria poesia, com o meu livro "poemas em carta e outras poesias" e a uma bolsa do ministério da cultura para escrever o meu romance, o primeiro volume da trilogia "as cartas de sara" que, na verdade, já comecei a escrever. adoraria, daqui há um tempo, poder inverter a lógica do meu dia a dia hoje. atualmente, vivo da produção na área musical, que adoro também, mas produção é algo que consome. e tenho que ter muito…

infinito

tenho um amigo que diz que somos a consciência do universo, e que esta é a religião dele. ele é fascinado por física e astronomia, e sempre temos papos deliciosos sobre filosofia e cosmos... sempre tive dentro de mim esta certeza, mas nunca havia conseguido verbalizá-la com tamanha clareza como ele, um virginiano, fez. adotei para mim sua máxima! cada ser humano é o universo pensando sobre ele mesmo. e a criação é uma das maneiras com a qual podemos ter esta certeza. fiz um poeminha sobre isto:
infinito
dedicado à Gustavo Castro

cada um de nós é, inteiro, o universo pensando sobre si mesmo
a criação não é conexão porque o que somos já é
ela é a certeza do infinito  que começa e termina em nosso próprio pé

chuva, um violão e uma taça de canção

a vida?
ah, sei lá
algo absolutamente fascinante
e, às vezes, o que mais importa
é tão pequeno...
que de tão pequeno é grande

uma taça de vinho
pão com azeite
a música de Santaolalla
uma conversa que basta
e mais nada

uma conexão que são mil delas
as pétalas amarelas do girassol

a chuva na montanha
o cheiro de lasanha

um beijo...
e tudo que duas bocas
repletas de paixão
desejam

menino-música

Imagem
dicionário:
como verbalizar
o não verbalizável

silêncio na soleira da porta
notas que reverberam
nos muros de pedra
os tempos todos
dos homens

criando luz sonora
nas construções antigas
do corpo cultural
e pondo abaixo
aquela cidadela que seria nada
não fosse a tua música

atravessando
fazendo a seu modo o cotidiano
um deus

irradiando
semente nascente de embriaguez
que ilumina, de cegar,
a insensatez do soberano

rindo
como prostituta de santo

acreditando
como só aqueles que tem fé

verbalizando!
como antes não era possível

porque coragem
esse menino endiabrado
de divindade

porque menino deus
de riso escancarado
porque humano louco
e mago

porque profeta
porque alquimista

verbalizando
o não verbalizável


Mozart - Réquiem




improvável domingo

acordei um tanto extensa
e o cheiro de café
invadia meus sentidos

fazia silêncio, o céu estava azul
ventava um vento gelado
e eu podia ouvir, ao longe,
os pássaros

e me lembrei do rio,
do açude, das galinhas
da montanha que não cansava
de ser alma em forma de pedra

acordei e ouvi meu riso de criança,
de quando eu corria sem tempo
na sala grande da avó
fazendo festa

e me lembrei a primeira vez
que vi a morte...

acordei e vi algo
que ainda não havia visto

era domingo
e tudo foi novidade
como a grande novidade um dia
da menina de olhos curiosos

aprendi, desde cedo,
a conviver com o improvável
e, assim, acreditar
no inacreditável

notas ingênuas para o cotidiano

às vezes, é tão somente
o vento de quando o metrô chega na estação...

eu, já cansada (passa das dez),
tentando conter a ilusão da rua do passeio

o edifício odeon se torna um refúgio
para um coração estupefato por tantas palavras e desejos
e projetos que não cabem mais na agenda
e todas as certezas que não tenho

a música ainda chega
para inflar mais este corpo
necessitado daquilo que não precisa
desta força prolixa das letras

não fosse a poesia, eu sufocaria...
mas, se não fosse a música,
esse maravilhoso vazio do verbo,
eu já haveria de ter partido desta para o incerto

nem sei de mais nada
é tarde e estou cansada
os olhos ardem de tantas mensagens
que não cessam de me querer

chego a cogitar que posso atender
algumas delas
afinal, o amor líquido
parece tão mais fácil...

é que tudo anda cultural demais, um tanto...
racional demais

mas eu só desejaria correr na direção certa...
e sem resquícios de um leão covarde

só que a paixão confunde
e, diante do cansaço, delira

e sentir demais o mu…

enigma da esfinge

se não fosse a poesia, seria eu quem sufocaria...

--

rasgo em pedaços a vida rasa
que quer me sufocar no dia a dia
da tua existência em máscaras
da maquiagem bem feita
e da foto perfeita de perfil
bem vi tua perfeição a passear
e roubar tuas sandálias style
comigo, a poesia invade
meu horário de trabalho!
é deusa... e vadia que só ela
me lembra, afinal,
o que é que vale a pena
me depena
para que eu vomite palavras sinceras
e esqueça, para sempre, na mesa do bar
a triste máscara da beleza sem alma
e da cinza eterna alegria falsa
- quanta gente it que nos cerca... -
não tenho que fazer mesura em tua festa, meu bem...
sou poeta!
enquanto a tua trupe repete os prontos versos
tão midiaticamente perfumados
eu crio o universo!

la vie en rose

era danada essa tal de Hilda,
que roubou meus versos numa ode
descontínua e remota para flauta e oboé
de Ariana para Dionísio:
decreto, com ela, o reino do impossível!
e, junto a Piaf, no jardim da boemia, o reino do incorreto:
somente a beleza, um bom vinho e o sexo!
decreto, diante de seus versos, o reino da sorte:
munida de um cigarro para espantar o medo da morte...
e, assim, decreto hoje também, o reino do improvável
e do trompete rasgado das love songs de Miles.
feliz, ao decretar o reino do cansaço
de todo academicismo reacionário!
e o que digo é, obviamente, óbvio
e nem um pouco novo:
é preciso decretar o reino do corpo!

silêncio

dei-me o desafio do silêncio!

a partir de agora, tenho comigo
uma nova forma de respirar as horas.

mas não para negar a palavra.
sou justa!
ou negaria meu corpo...

mas para deixar que,
a partir de hoje,
e por tempo indeterminado,
fale mais o sentimento.

para que ele não se dilua
na voracidade do verbo
e a política se faça nos meus gestos.

dei-me o desafio do silêncio
para construir uma obra.
e para que a palavra possa
calmamente lapidada,
e, com o tempo, condizente,
encontrar, enfim,
a sua forma mais reluzente!

o poeta é um inventor

escrever é criar o que ainda não existe

quando algo se torna verbo
ganha status de concreto

e o poeta!?
o poeta é um inventor:
exagera!

prosa de um querer

sempre depois que te vejo é como se ficasse um cheio. fica cheio de vida o meu coração e tento transformar também em cheio o vazio que fica quando vou ou quando vais. e o vazio desaparece e fica um cheio tanto que transborda de vida semeando dentro de mim. extasiante. como podes ser tão bonito assim? tua beleza vem de longe, de um mundo subterrâneo que é ao mesmo tempo céu, lá onde nasceu a vida, daquele tempo sem tempo onde as estrelas espalharam poeira e era mesmo a música que mantinha em permanência e caos o universo. uma música das esferas a dar origem ao verbo. às vezes, depois de te ver e te sentir, quando só, eu choro, minutos seguidos, até que paro, sorrio e vou dormir. mas não choro um choro de tristeza. é o choro da falta das palavras. é o choro da primeira mulher que existiu sobre o planeta. às vezes rio. pois só o choro ou só o riso, destes momentos de ficar só após teus gestos e com teu cheiro impregnado em mim pelos abraços e o toque dessas mãos que criam versos, são ca…

brevidade

a vida é de uma tal brevidade que quase parece calculada para que, apenas pela intensidade, possamos sorver suas colheradas

o amor do lobo e do cordeiro

um lobo sempre reconhece outro lobo

pelo faro, pelo olho no olho

um lobo sabe que encontrou um outro lobo
quando sente no outro – como um calafrio –
a carne e os ossos de um grande desafio

o da própria existência

quando vê nele a mesma solidão – necessária –
e a liberdade rara de saber que a vida transcorre
em ciclos de início e de morte
que nutrem o amor infinito
que carregam em sua sorte

mas um lobo enfraquecido,
levado para longe de seu alimento,
pode enganar-se por inteiro
e ver um lobo quando encontra um cordeiro

um cordeiro também
sempre reconhece outro cordeiro
nasceram para o rebanho
e do rebanho jamais sairão
regozijam-se nele
e, felizes, mantêm fechados e nada atentos
seus pequenos olhos remelentos

todo cordeiro tem vocação para ditador
não suporta como os lobos se fortalecem de sua própria dor
nem sua calma solidão na estepe
nem como correm juntos como se corressem livres

e abafam com sorrisos falsos
toda a inveja dos olhos abertos das matilhas

mas crianças podem ser facil…

Gosto de Manjericão

Inicio, hoje, a série de publicações dos meus contos neste blog. Este é de 2007 e está publicado em meu primeiro livro, Novelo. Em 2011, revi o conto retornando a sua maior inspiração: Nietzsche. Espero que curtam!
Qual pode ser a nossa doutrina? – Que ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio (...). Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou assado, por se achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é conseqüência de uma intenção, uma vontade, uma finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal de ser humano” ou “um ideal de felicidade” ou um “ideal de moralidade” – é absurdo querer empurrar o seu ser para uma finalidade qualquer. Nós é que inventamos o conceito de "finalidade”: na realidade, não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um pedaço de desti…