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Mostrando postagens de 2014

Há tantas auroras que ainda não brilharam

acordei tarde procurando poesia havia um cheiro ali ao lado sei lá que lado talvez todos que fica a espreita rondando minhas certezas acordei tarde porque é tanto o cansaço e o amor tem sido uma cidade grande com parque, arranha céu, cachorro, sinal de trânsito verde, vermelho, cuidado siga atento no amarelo acordei e desejava poesia para o café da manhã do quase meio dia - há o silêncio do meio dia, estranhamente o meu apartamento silencia - o sol ardia ainda arde há calor e talvez nem seja tão tarde e, quem sabe, mesmo assim, parecendo tarde seja, na verdade, cedo

Isto não é uma poesia

não sabia quase nada hoje sei menos ainda não sei o que se passa e sou mais feliz assim de tudo o que conquistei ficou aquilo pelo que não batalhei mas pelo que me apaixonei eu, a egoísta a adúltera infiel a workaholic que poderia esperar da vida o pior e ganhou o melhor eu, a agradecida a embevecida o amor em forma de carne a doação em sangue e suor a lealdade os deuses sabem o que fazem e, então, eis que sou o que sempre fui eu, a desgarrada no meio de uma chuvarada fazendo poesia e poesia não serve pra nada!

Atonal

sei lá que tipo de matéria eu quereria ser agora sei que assim, compactada como um corpo humano, não dou conta nesta hora queria era estar decomposta talvez em poeira estelar em células mortas infinitamente dividida em minúsculos grãos de areia ao vento que se espalhariam e não restaria nada que pudesse dizer: veja, aquilo tem identidade nenhum sólido nenhum corpo nenhum sentido exposto nada que conte história sem passado sem futuro só o presente sobreposto nele mesmo sem desejo mas com devir sem afeto mas com instinto sem amor apenas existindo arrastada pelas tempestades sem controle destituída de toda saudade desmembrada das cláusulas que um dia o meu corpo assinou descentrada e só diluída na partitura da dor

De volta pra casa

Como se revisitasse sólida A doçura do meu afeto Aquela estrela amanhecida Me tomou inteira nos teus olhos O mundo curtia ao longe A tua senda envaidecida de saudade Teu inexato signo da morte Verdade que tomada ao vento Foge ao meu caminho Que tão íntimo ao teu, agora, Se dobra na curva extática do infinito Como se faltasse um nome Uma palavra têxtil me tomou de assalto E o campo numeroso do meu corpo mago Fez chover sorrisos como meteoros tortos Eis que o nome é o que menos importa Pois se abriram as portas mais esplendorosas Que temperadas me tomam feito o mar E carregam meu sangue no teu paladar Como se transbordasse a fome Nasceu inteira uma lavoura enorme Dentro da qual se dança o campo Imantado de uma música-criança E brotam lírios, uvas, azeitonas E árvores pedindo seiva bruta No horizonte endoidecido de desejo Em que insetos despejam seus segredos Na roda placentária movida de cheiro Amanheci o ser amado no meu beijo Anoiteci minha palavra nas e

Metalinguagem

Meu paradeiro hoje Um espelho Narcisismo da exaustão Não ouse querer encontrar O meu ego na multidão Estou só Como só os exaustos Sabem sê-lo Com o corpo mais arrasado Que a natureza concebeu Que não suporta a luz, o caos Fadiga de coliseu Incapaz de tolerar o traço mal feito E a palavra mal dita Para seu governo torto Faço poesia com a matéria vida Num banco de metrô No ensaio de uma orquestra Quando já não dá mais Pra suportar o próprio sentido E nem mesmo toda festa Meu sentido é tão somente sentir E sei muito bem O que faz este corpo cansado Sorrir Um espelho aberto um dia Na clausura do tempo linear Mostrou-me Sem tempo A cura que é amar Mas dormir Para um insone É tão belo Quanto o olhar Daquele homem. Faço poesia Com qualquer coisa Em dias assim Quando a dor no corpo Frita os músculos E elimina o doce cheiro do jasmim Pra não perder O mistério do coração Pra não morrer De obrigação

Pra que serve a poesia

se não servir a poesia para nada prefiro não ouvi-la não sou adepta do vazio da palavra que, aqui, uma vez dita, - a física garante - produz nota na cítara do outro lado do planeta que me sirva, a poesia! como me serve um prato de carne suculenta ou prefiro esquecê-la para quê poesia se não me lembra, ela, da vida latejante que existe para além do cansaço deve servir sim! para lembrar o absurdo risível que nada é tão absurdo que não possa ser possível

Humano, demasiado humano...

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Hoje, voltando para a casa, me peguei metafísica. Pensava na vida, como quem olha pra muito longe. E eu realmente olhava. Pela janela do metrô. De onde não se vê nada, a não ser dentro de si mesmo – um lugar longe... Por alguns instantes, fiquei tentando encaixar as peças de um nebuloso quebra-cabeças ao qual o meu desejo está profundamente vinculado. E esqueci que eu estava num vagão de metrô. Minha estação é a última e, às quase dez da noite, são poucos os que ficam para descer. Depois que o trem parou na penúltima estação, ficamos três naquele vagão. E, então, eu me vi de novo no mundo exterior. Lembrei haver um corpo que interage e que estava presente em um determinado lugar quando os meus dois companheiros de vagão me chamaram a atenção. Um homem e uma mulher, jovens como eu, caminhando ali pelos seus trinta e poucos anos. Sozinhos os dois, como eu estava. Ela chorava, com uma melancolia tão grande no rosto que chegou a partir meu coração. Olhava também para dentro, pois chorava

Aos nossos contadores de história que se foram...

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Ariano Suassuna, que nos deixou hoje, disse certa vez: "o homem nasceu para a imortalidade. A morte foi um acidente de percurso". Em poucos dias, a morte chegou para três grandes pensadores e escritores brasileiros: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e o próprio Suassuna. Tive a sorte de conhecer dois deles: João Ubaldo e Suassuna. E me deixar inspirar, como ser humano e como escritora. Talvez, seja mesmo a imortalidade que guie um criador a produzir sua obra. E não se trata de ego, mas de uma missão dada pelo universo. Desde o seu início, há alguns trilhões de anos, todo o universo conta a sua história e a mantém eterna. Meteoros carregam bactérias capazes de sobreviver por muito tempo, mais tempo do que nossa capacidade humana é capaz de imaginar. Cada semente conta a história da planta que lhe deu origem e da próxima que ela originará. Nós, seres humanos, contamos nossa história e nossas histórias de inúmeras maneiras: pela palavra, pela tecnologia, as ciências, as imagens,

Cheiro de rosa

um cheiro de rosa invade a minha sala se é incenso vindo de fora se é paixão que insiste no peito que importa fato é que um cheiro de rosa bate à minha porta e devaneio abro a garrafa de vinho escrevo mais um soneto enlouqueço e cedo à tentação de deixar escorrer pelo meu corpo um cheiro persistente que insiste em ser presente mas canso e me entorpeço desabo em direção a fonte do espasmo e me deixo exausta à mercê da tua estrada à guisa das tuas madrugadas sonhando contigo a me acordar em noites calmas delirando o abismo de desejar estar sempre em tua jornada estando vivendo contigo a construir realidades novas o que estamos fazendo senão traçando, juntos, uma estrada sinuosa? um cheiro de rosa invade a minha sala e sei que daí, a partir destes dias, pensas que não sabes mais o que sentir e eu... eu não sei apenas canto tua maravilhosa presença ensimesmando com tanta persistência

O amor tranquilo

então, era isso! de uma simplicidade estonteante! então era assim que, o tempo todo, ele estava programado para chegar? silencioso e sem querer no frio de uma madrugada de inverno depois da calma de um dia de sol que renovou a fé nos dias que virão então, era só isso? e eu não precisava ter sofrido tanto? mas, desconfio: o sofrimento é que nos traz o sentido da leveza e a sua grandeza então, o tempo todo, ele esteve comigo! porque nunca não haveria de estar eu apenas não o via mas, desde sempre, ele esteve respirando em meu ouvido então, era só isso... simples, fácil, óbvio e, por isso, belo como o sol descendo no horizonte ao som do bolero de Ravel

O substantivo vida

se perguntassem a um poeta o que é a vida carbono seria estrela vida é aquilo que existe quando a gente ama! e sente dor de estômago é o cheiro que enjoa e a luz que dificulta abrir os olhos é quando bate a saudade e nasce alegria de ouvir a voz querida é carinho desejado e acontecido vértebra cintilando o investido vida é dor dor nas vísceras é quando os músculos se contraem as lágrimas caem o peito se apavora vida tem gosto de vinho, azeite e amora e é a lida que começa cedo para fazer o pão é o moinho girando a água cantando na pedra o som da máquina do mundo o cabelo ao vento um poço bem fundo tem cheiro de delírio gosto de ser amado tato de mar salgado visão de deserto longo vida é o estilhaço das cordas renascidas e o sopro que anuncia o susto da morte às vezes, a vida parece uma falta de sorte e é um grande espanto no entanto, é a notícia dela, da sua chegada, a notícia da certeza de que sentir-se vivo é, antes de tudo, senti

Para as noites pequenas

Ah, se eu pudesse... Fazer passar o tempo E me deixar esquecer o vento Se eu soubesse que sofrimento Traz alívio ao final Que dor rima mesmo com amor E que a alegria de algo que nasce É tão somente essa alegria doida e mais nada Se eu soubesse antes que certas fomes não passam Ah, se eu soubesse...

Poema sinfônico

uma sinfonia deve conter o mundo e, em cada mundo, a paixão! amanhecia a vida anunciaram, as madeiras, notas transversais tomaram o meu corpo e eu me rendi ao suor do sopro fosso-oboé do meu desejo clarineta fálica do meu sexo meu nexo é levar a vida na flauta e, em se tratando de paixão, meu fagote sussurra coisas impronunciáveis metalizando a fala minha verdade rara é tomada de torpor trompas, trompetes, tubas, trombones quando o mundo se refaz, são eles que anunciam e, logo depois, na percussão do universo, anuncia-se o verbo! um tímpano é capaz de produzir um mundo novo e a infinidade de tudo o que percute torna a existência mais certa e menos rude e, entram elas, as teclas, martelando a minha espinha dorsal e arrepiando versos que, piano, poderiam fazer nascer carnaval para então, cravo, ressurgir, na quarta-feira, o sagrado em uma harmonia inteira a ecoar, também profano, o choro de um magnífico coro para chegarmos às cordas! onde a reali

Um último tango no Rio de Janeiro?

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da noite pesarosa de um tango insuportável renascerá Piazzolla descalço e sem pudores para acertar os passos que se alinham tortos num tempo descompassado virá predizendo  o fim de uma jornada - na noite pesarosa, carioca e amarga - há tangos improváveis que acabam sendo dançados mas o descompasso não pode ser perpetuado é como dor de escarro que dói no peito conjugado de promessas as farpas miseráveis dos afetos absurdos -  é preciso devolver a harmonia da cidade - em Paris, morreriam os amantes envoltos em lágrimas e um bandoneón, afogados às margens do Sena - com uma garrafa do melhor vinho à mão - no Rio de Janeiro a chuva se confunde às lágrimas dos que são lançados no deserto - escondendo o céu claro - e um último tango deve ser dançado cansado está de existir descompassado

Petrópolis, uma cidade de saudade

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A minha Petrópolis e a Petrópolis de sempre Petrópolis, cidade da serra fluminense conhecida como Cidade Imperial, é uma daquelas cidades brasileiras que costumam encantar pessoas em busca de uma experiência de Brasil mais europeia. Frio, neblina, pinheiros, casarões imponentes, catedral de arquitetura gótica, histórias de monarcas, jardins bem ornamentados, uma coroa incrustada de pedras preciosas, exposta para nos lembrar da riqueza dos soberanos e de sua posição privilegiada na sociedade. Cidade onde se pode alugar carruagens para conhecer seu centro histórico e visitar um local que foi um importante cassino e hotel que hospedou figuras como Getúlio Vargas e Walt Disney, o Quitandinha. Pitoresco! A Avenida Koeler, que começa na praça da liberdade e vai até a catedral, é uma das belezas de Petrópolis. De cada lado da avenida, vemos belíssimas mansões e, no Hotel Solar do Império, se pode tomar um típico café da manhã colonial, ainda que não se esteja hospedado, no Restaurante I

Infinito

Tenho um amigo que diz que somos a consciência do universo, e que esta é a religião dele. Ele é fascinado por física e astronomia, e sempre temos papos deliciosos sobre filosofia e cosmos... Sempre tive dentro de mim esta certeza, mas nunca havia conseguido verbalizá-la com tamanha clareza como ele, um virginiano, fez. Adotei para mim a sua máxima! Cada ser humano é o universo pensando sobre ele mesmo. E a criação é uma das maneiras com a qual podemos ter esta certeza. fiz um poeminha sobre isto: Infinito dedicado à Gustavo Castro cada um de nós é, inteiro, o universo pensando sobre si mesmo a criação não é conexão porque o que somos já é ela é a certeza do infinito  que começa e termina em nosso próprio pé

Chuva, um violão e uma taça de canção

a vida? ah, sei lá algo absolutamente fascinante e, às vezes, o que mais importa é tão pequeno que de tão pequeno é grande uma taça de vinho pão com azeite a música de Santaolalla uma conversa que basta e mais nada uma conexão que são mil delas as pétalas amarelas do girassol a chuva na montanha o cheiro de lasanha um beijo... e tudo que duas bocas repletas de paixão desejam

menino-música

no dicionário: como verbalizar o não verbalizável silêncio na soleira da porta notas que reverberam nos muros de pedra os tempos todos dos homens criando luz sonora nas construções antigas do corpo cultural e pondo abaixo aquela cidadela que seria nada não fosse a tua música atravessando fazendo a seu modo o cotidiano um deus irradiando semente nascente de embriaguez que ilumina, de cegar, a insensatez do soberano rindo como prostituta de santo acreditando como só aqueles que tem fé verbalizando! como antes não era possível porque coragem esse menino endiabrado de divindade porque menino deus de riso escancarado porque humano louco e mago porque profeta e alquimista verbalizando o não verbalizável foi Mozart meu primeiro amor

Improvável domingo

acordei um tanto extensa e o cheiro de café invadia meus sentidos fazia silêncio, o céu estava azul ventava um vento gelado e eu podia ouvir, ao longe, os pássaros e me lembrei do rio, do açude, das galinhas da montanha que não cansava de ser alma em forma de pedra acordei e ouvi meu riso de criança, de quando eu corria sem tempo na sala grande da avó fazendo festa e me lembrei a primeira vez que vi a morte acordei e vi algo que ainda não havia visto era domingo e tudo foi novidade como a grande novidade um dia da menina de olhos curiosos aprendi, desde cedo, a conviver com o improvável e, assim, a acreditar no inacreditável

Notas ingênuas para o cotidiano

às vezes, é tão somente o vento de quando o metrô chega na estação eu, já cansada (passa das dez), tentando conter a ilusão da rua do passeio o edifício odeon se torna um refúgio para um coração estupefato por tantas palavras e desejos e projetos que não cabem mais na agenda e todas as certezas que não tenho a música ainda chega para inflar mais este corpo necessitado daquilo que não precisa a força prolixa das letras não fosse a poesia, eu sufocaria mas, se não fosse a música, este maravilhoso vazio do verbo, eu já haveria de ter partido desta para o incerto nem sei de mais nada é tarde e estou cansada os olhos ardem de tantas mensagens que não cessam de me querer chego a cogitar que posso atender algumas delas afinal, o amor líquido parece tão mais fácil é que tudo anda cultural demais, um tanto racional demais mas eu só desejaria correr na direção certa e sem resquícios de um leão covarde só que a paixão confunde e, diante do cansaço, delira

Enigma da esfinge

rasgo em pedaços a vida rasa que quer me sufocar no dia a dia da tua existência em máscaras da maquiagem bem feita e da foto perfeita de perfil bem vi tua perfeição a passear e roubar tuas sandálias style comigo, a poesia invade meu horário de trabalho! é deusa... e vadia que só ela me lembra, afinal, o que é que vale a pena me depena para que eu vomite palavras sinceras e esqueça, para sempre, na mesa do bar a triste máscara da beleza sem alma e da cinza eterna alegria falsa - quanta gente it que nos cerca... - não tenho que fazer mesura em tua festa sou poeta! enquanto a tua trupe repete os prontos versos tão midiaticamente perfumados, eu crio o universo!

La vie en rose

era danada essa tal de Hilda, que roubou meus versos numa ode descontínua e remota para flauta e oboé de Ariana para Dionísio: decreto, com ela, o reino do impossível! e, junto a Piaf, no jardim da boemia, o reino do incorreto: somente a beleza, um bom vinho e o sexo! decreto, diante de seus versos, o reino da sorte: munida de um cigarro para espantar o medo da morte. e, assim, decreto hoje também, o reino do improvável e do trompete rasgado das love songs de Miles. feliz, ao decretar o reino do cansaço de todo academicismo reacionário! e o que digo é, obviamente, óbvio e nem um pouco novo: é preciso decretar o reino do corpo!

Silêncio

dei-me o desafio do silêncio! a partir de agora, tenho comigo uma nova forma de respirar as horas. mas não para negar a palavra. sou justa! ou negaria meu corpo. mas para deixar que, a partir de hoje, e por tempo indeterminado, fale mais o sentimento. para que ele não se dilua na voracidade do verbo e a política se faça nos meus gestos. dei-me o desafio do silêncio para construir uma obra. e para que a palavra possa calmamente lapidada, e, com o tempo, condizente, encontrar, enfim, a sua forma mais reluzente!

O poeta é um inventor

escrever é criar o que ainda não existe quando algo se torna verbo ganha status de concreto e o poeta? o poeta é um inventor : exagera!

Prosa de um querer

sempre depois que te vejo é como se ficasse um cheio. fica cheio de vida o meu coração e tento transformar também em cheio o vazio que fica quando vou ou quando vais. e o vazio desaparece e fica um cheio tanto que transborda de vida semeando dentro de mim. extasiante. como podes ser tão bonito assim? tua beleza vem de longe, de um mundo subterrâneo que é ao mesmo tempo céu, lá onde nasceu a vida, daquele tempo sem tempo onde as estrelas espalharam poeira e era mesmo a música que mantinha em permanência e caos o universo. uma música das esferas a dar origem ao verbo. às vezes, depois de te ver e te sentir, quando só, eu choro, minutos seguidos, até que paro, sorrio e vou dormir. mas não choro um choro de tristeza. é o choro da falta das palavras. é o choro da primeira mulher que existiu sobre o planeta. às vezes rio. pois só o choro ou só o riso, destes momentos de ficar só após teus gestos e com teu cheiro impregnado em mim pelos abraços e o toque dessas mãos que criam versos, são cap

Brevidade

a vida é de uma tal brevidade que quase parece calculada para que, apenas pela intensidade, possamos sorver suas colheradas

O amor do lobo e do cordeiro

um lobo sempre reconhece outro lobo pelo faro, pelo olho no olho um lobo sabe que encontrou um outro lobo quando sente no outro – como um calafrio – a carne e os ossos de um grande desafio o da própria existência quando vê nele a mesma solidão – necessária – e a liberdade rara de saber que a vida transcorre em ciclos de início e de morte que nutrem o amor infinito que carregam em sua sorte mas um lobo enfraquecido, levado para longe de seu alimento, pode enganar-se por inteiro e ver um lobo quando encontra um cordeiro um cordeiro também sempre reconhece outro cordeiro nasceram para o rebanho e do rebanho jamais sairão regozijam-se nele e, felizes, mantêm fechados e nada atentos seus pequenos olhos remelentos todo cordeiro tem vocação para ditador não suporta como os lobos se fortalecem de sua própria dor nem sua calma solidão na estepe nem como correm juntos como se corressem livres e abafam com sorrisos falsos toda a inveja dos olhos abertos das mat

Gosto de Manjericão

Conto de 2007, que está publicado em meu primeiro livro, Novelo . Em 2011, o revi retornando à sua maior inspiração: Nietzsche.  Qual pode ser a nossa doutrina? – Que ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio (...). Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou assado, por se achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é conseqüência de uma intenção, uma vontade, uma finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal de ser humano” ou “um ideal de felicidade” ou um “ideal de moralidade” – é absurdo querer empurrar o seu ser para uma finalidade qualquer. Nós é que inventamos o conceito de "finalidade”: na realidade, não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo – não há nada que possa julgar, medir, comparar,

outono

um poema que nasce na madrugada de vento forte e chuva desejada, trazendo o outono é calor – ou frio – que sobe pela espinha da noite de tempo longo, inteiramente... minha? tempo sem fim, do que insiste em ser verdade do filme, do vinho e de mais nada talvez, da vaidade desejos, palavras, silêncio após Beethoven, calma após a estrada o outono... sempre revelando a minha fala mas um outono de abandono e amor por uma rima que não pode ser falada

Saga da autoreferência

broto como flor de cacto hoje nasço de um mandacaru planta forte carregada de espinhos eu floresço sonhos concretude plena sorte de ser quem sou mas foi preciso muito foi preciso que esse espinho cravasse no meu peito a tua seiva e derramasse nela um ideal fugaz de vida para que eu pudesse construir minha fortaleza devaneio... mas meu muro não é muralha e tem tantas portas quanto luzes acesas passei por muitas estradas naquela juventude já perdida vi tantos se perderem para nunca mais voltarem eu definhei meu corpo novo em copos e garrafas vi o êxtase tomar os seres aquela alegria que se tornaria mágoa e vi uma dessas alegrias se tornando pó até desaparecer morta deixando frutos mas levando sua juventude embora magra, sofrida e quão cheio de doçura ele era... mas teve que partir carregado pelas pedras e então, eu ouvi um não que jamais esqueci nunca um não me fez tão feliz e me libertou para que eu me descobrisse liberta já faz tanto