notas ingênuas para o cotidiano


às vezes, é tão somente
o vento de quando o metrô chega na estação...

eu, já cansada (passa das dez),
tentando conter a ilusão da rua do passeio

o edifício odeon se torna um refúgio
para um coração estupefato por tantas palavras e desejos
e projetos que não cabem mais na agenda
e todas as certezas que não tenho

a música ainda chega
para inflar mais este corpo
necessitado daquilo que não precisa
desta força prolixa das letras

não fosse a poesia, eu sufocaria...
mas, se não fosse a música,
esse maravilhoso vazio do verbo,
eu já haveria de ter partido desta para o incerto

nem sei de mais nada
é tarde e estou cansada
os olhos ardem de tantas mensagens
que não cessam de me querer

chego a cogitar que posso atender
algumas delas
afinal, o amor líquido
parece tão mais fácil...

é que tudo anda cultural demais, um tanto...
racional demais

mas eu só desejaria correr na direção certa...
e sem resquícios de um leão covarde

só que a paixão confunde
e, diante do cansaço, delira

e sentir demais o mundo
a ponto de deixar transbordar
não somente o amor, mas as planilhas
e os problemas todos da família
é uma dor que dói
onde nenhuma palavra alcança

mas, às vezes, é tão somente
o vento de quando o metrô chega na estação...

e balança os cabelos,
faz ruído nos meus pelos
e eu fecho os olhos e penso:
ser gente
é ser qualquer coisa
e mais nada

antes de embarcar,
cansada...

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