Quem tem boca vai a Roma e muda tudo!


Mudar é uma das poucas constantes da vida. Sidarta Gautama dizia que a impermanência é a verdade da existência e isto se tornou o cerne do budismo. Na Grécia, Heráclito afirmou algo parecido. Eu nunca tive dúvidas. Desde os quatro anos de idade vivi mudando de cidade, por conta do trabalho do meu pai. Era um ir e vir danado. Por conta disso, estudei em nove escolas. Desde que saí da casa dos meus pais, há 10 anos, já morei em cinco apartamentos diferentes. É um apartamento a cada dois anos. Empregos foram vários. Projetos, inúmeros. Desejos, nem se fala. Parece que estava escrito nas estrelas que o meu karma seria conviver com a impermanência: nasci sob o signo de gêmeos. E estou às vésperas do meu aniversário de 34 anos vivendo uma das mudanças mais substanciais pelas quais já passei. Dizem que a cada sete anos todas as nossas células estão renovadas e somos um corpo diferente do que éramos há sete anos atrás. Na astrologia, o número sete também tem importância. Os astrólogos afirmam que a cada sete anos grandes mudanças acontecem no plano astral, logo, em todas as esferas da nossa vida. Assim, as maiores mudanças aconteceriam aos 7, 14, 21, 28, 35, 42 e assim por diante. Se assim for, pelo visto ainda tenho um ano de transformações até consolidar uma vida completamente nova. E parece que é isso mesmo que está acontecendo. Ou, talvez seja esta a explicação que eu consiga para lidar com tanta novidade.

A astrologia também diz que aos 28 anos começamos a passar pelo retorno de Saturno, um dos eventos de maior poder transformador. Pois, assim que fiz 28, eu ganhei uma bolsa para fazer um curso na Espanha que eu achei que jamais ganharia. E fiz uma viagem que mudou para sempre a minha vida. Aos 28 também, passei num concurso e comecei a trabalhar em uma instituição que me trouxe uma vida completamente nova e, como não poderia deixar de ser, grandes novidades e mudanças. Muito embora eu me estresse constantemente com a instituição, tenho que ser justa. Devo a UFRJ boa parte das grandes alegrias dos meus últimos anos e a semente de duas grandes mudanças: a que se deu quando eu entrei e a que começou a se revelar no ano passado. Foi também aos 28 que me separei de um casamento. Depois de tudo isso, vivi uma vida nova, diferente da que eu tive dos 21 aos 28. Não é que é mesmo danada essa tal de astrologia!? Agora, parece que a vida vem me preparando para uma nova virada. A virada que, considerando a perspectiva da astrologia novamente, deve dar origem a uma vida nova a partir dos 35. Mas os momentos de virada não são nada fáceis. Eu sempre fico reflexiva perto do aniversário. E, diante de tanta novidade, tenho me sentido até incapaz de verbalizar e bastante cansada. Esse texto é uma tentativa, porque eu preciso fazer isso, transformar em palavras o que eu vivo. Mas duvido que ele consiga expressar a intensidade do que estou vivendo. Porque não se trata de mudança de cidade, emprego ou namorado. São mudanças na forma de ver e sentir o mundo. São novos sonhos, desejos e pensamentos que me constituem hoje, diferentes dos que eu tinha há um ano atrás, por exemplo. E que fazem com que as questões "cidade", "emprego" e "namorado" sejam vistas por mim hoje sob perspectivas novas - ou renovadas, porque algumas coisas voltam em períodos de mudança, como questões ainda para serem resolvidas, porém, sob novas óticas. Mudanças desse tipo costumam então sobrepor passado e futuro de maneira ímpar, bem como conjugar grandes dificuldades com grandes alegrias. E isso traz uma série de coisas com as quais temos que lidar e que geram uma ansiedade absurda.

Para mim, existem duas coisas que tornam os períodos de mudanças mais cansativos do que poderiam ser. Uma delas é ter que conviver com situações que já não cabem mais no nosso dia a dia, mas que ainda não puderam ser completamente extintas desse dia a dia. É como estar num limbo entre o que foi e o que virá. É viver compondo o que fomos com o que passamos a ser de maneira ainda mais intensa que em momentos de calmaria, onde as coisas estão ajustadas e permanecem por um bom tempo até que uma nova onda de mudanças apareça. A outra é mais difícil e delicada: ter que lidar com as pessoas da nossa "vida anterior" que não conseguem entender - ou não querem entender - nossas mudanças e insistem em nos ver como o que já não somos mais. Até porque, em momentos assim a gente nem consegue direito revelar muito bem o que estamos sendo. E fica complicado para o outro nos entender. Essa pra mim é a parte mais dura. Porque toda mudança substancial necessariamente afasta pessoas e aproxima outras. É o movimento natural da vida. E como, em nossa maioria, somos pessoas apegadas, imagina a confusão que isso gera. Nesse período de grandes transformações que estou vivendo, descobri coisas bem interessantes sobre mim, coisas que eu jamais imaginei que pensaria ou faria. Ao mesmo tempo, comecei a ver facetas de pessoas muito próximas que eu também desconhecia. Mudanças nos fazem ver as coisas por outros ângulos de maneira bem literal. Nessas horas a gente descobre quem realmente nos vê como uma pessoa singular e única - e nos apoia nas mudanças - e quem só nos queria por perto de uma determinada maneira. É doloroso, mas é assim que é. Não dá pra lamentar isso. Eu nunca tive muitos problemas em aceitar as mudanças. Mesmo as mais dolorosas. Sempre brinquei que sou budista sem ser. Não que eu não sofra. Imagina. Mas aceito. Sou uma budista nietzschiana. Pratico o amor fati. Mas, também nunca vivi situações que considero extremas. Não sei se eu continuarei a sentir o mundo dessa maneira se algum dia eu for colocada diante de uma dessas situações que me assustam. Mas, como uma das constâncias da vida é a inconstância, pode ser mesmo que eu mude. Até agora essa foi minha permanência. Porque afinal, algo tem que permanecer. Na verdade, mais do que ser impermanência, a vida me parece o jogo entre uma e outra: a permanência e seu contrário. Yin e Yang. Roda da fortuna. Há coisas que ficam e sempre retornam. Talvez elas sejam o que nos constitui. Mas identidade é um conceito perigoso, daqueles fáceis de nos apegarmos. Porque há coisas que sempre são novas e, se estamos apegados a certas imagens de nós mesmos, temos dificuldade em aceitar o novo que nasce dentro da gente. De toda forma, em momentos de metamorfose, não é só o novo que aparece; há coisas que reaparecem. Em todos os casos, é um momento delicado. Mas maravilhoso, porque faz a gente sentir aquelas borboletas no estômago que nos fazem perceber o quanto estamos vivos! 

Antes de começar a escrever esse texto, me peguei nostálgica olhando minhas fotos no mural em cima da mesa do computador, e uma delas fixou o meu olhar por um bom tempo. Era eu, aos 28 anos, na Piazza Navona, em Roma, olhando "para o nada". Passei alguns minutos viajando naquela foto e percebi o quanto ela me dizia de algo que nem sei, mas sinto. Roma é uma das minhas cidades preferidas. E olha que mal passei por lá. Mas sempre foi uma cidade que fez parte do meu imaginário, seja nos livros de história ou nos filmes de Fellini. Quando eu estava na Espanha, não via a hora de poder pegar as malas e conhecer Roma. E me apaixonei, sem nem precisar de muito. Roma é uma das mais antigas cidades do mundo e uma das que mais passou por transformações. Estar lá é ver todas as Romas em uma: a do império, a da Igreja, a de Fellini, a de Mussolini, a Roma capital contemporânea e caótica, da noite, das grifes e das bolsas Prada falsificadas. Uma colagem aleatória e cheia de sentido. Como toda cidade, como todo ser humano. Uma semana em Roma não foi suficiente para saciar meu desejo de vivê-la. De todas as cidades que conheci, Roma foi aquela que, tendo sido presente por tanto tempo no meu imaginário, passou a estar ainda mais depois que a visitei. Talvez eu me identifique com esse ar de coisa em constante transformação que senti ao estar lá. E ao me pegar vidrada numa foto de seis anos atrás, senti uma coisa estranha no peito - ou no estômago. Aquele frio na barriga - as borboletas - de futuro, como quem já vê o que está por vir, mas sabe que só chegando lá é que saberá o que é este futuro. Sabendo que, ao chegar, um novo horizonte passará a fazer parte da vida. Eu não estava olhando para o nada, mas para algo ainda por vir que, de toda forma, já estava lá também. Na física após Einstein o conceito de tempo foi completamente resignificado. Passado, presente e futuro são uma coisa só. Basta olhar para uma estrela. A luz que vemos hoje é uma estrela que já morreu. Na foto, que pode ser vista abaixo, e no meu olhar, estão passado, presente e futuro sobrepostos, e ela agora parece resumir pra mim o que hoje sou. Não sei explicar muito bem, trata-se de intuição. Eu falei que esse texto não ia conseguir dar conta... Ainda sobre a foto, acho curioso que eu esteja na frente de Netuno, esse deus símbolo da inconstância, que cavalga as ondas em cavalos brancos com o poder de manter o mar calmo ou de criar tempestades. Sinto que, assim como Roma, eu nunca perdi a capacidade de me renovar e de me reerguer por cima ou junto das ruínas - coisas que períodos de transformação trazem! Mudar é sempre o resultado de uma situação onde coisas se arruínam, entram em decadência. O novo só pode fazer parte da nossa vida quando damos um belo tchau para o velho ou quando a vida assim se encarrega de fazer. E, ainda que algumas ruínas permaneçam visíveis - porque sempre existirão as que queremos que fiquem - é inevitável que novos prédios sejam construídos. A beleza está nessa composição maravilhosa entre o que foi, o que somos e o que seremos. Fellini tinha razão. A vida é uma loucura, alternando apogeu e decadência, mas é doce que só ela. Netuno deve saber sobre isso. Vou perguntá-lo. Cavalgarei com ele em direção ao que não sei.



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