As Cartas de Sara - teaser

As Cartas de Sara é o nome do romance que estou escrevendo. Segue um teaser do texto...


“... e então lhe ocorreu que pudesse não ter lhe causado tanta vertigem a sensação de quando viu aqueles olhos pela primeira vez. Sara não era de se entregar tão fácil. Sua vaidade freava seu impulso de peixe diante da vara. Era ela quem pescava. Mas acordou de súbito naquela madrugada, desejosa de que tudo tivera sido apenas um sonho mal resolvido, e que aquele cheiro de musgo das paredes da antiga igreja fosse tão somente fruto de sua imaginação. Mas ela acordou. E seu corpo lembrou que não. Apenas recordava aqueles olhos e eles lhe remetiam à dor de seus avós em fuga da guerra e à carta escondida no porão do apartamento em Viena. Era um olhar de dor e também um olhar de horizonte. Continha o universo. E talvez ela pudesse cair na tentação de que teria visto, dentro daqueles olhos, toda a sua vida. Mas isto era proibido, a priori, pela escolha de um ofício injusto com o corpo. Logo ela, que era tão corpo quando tocava uma fuga. E que apesar de sua insistente racionalidade, buscava pelo sangue em cada nota de suas composições. O velho amigo Mozart ressoava mais uma vez em seus ouvidos, lembrando, inclusive, que ela devia mais honras a mestres mais antigos que ele, e àquele, dono da música das esferas. Ele, com seu riso de escárnio e a estranha conjunção de divindade e boemia, parecia querer dizer que tudo haveria de fazer sentido para ela, uma vez que o seu réquiem ainda não estava composto. Ele mesmo não o havia finalizado. Morrera antes, pobre e frágil. Repleto da fragilidade de todos os criadores: a febre. Por que ela haveria de querer, ali, em sua cidade, chegar ao fim do que nem mesmo sabia onde começava? Sentia-se tão jovem... Mas ele, aos 35, já tinha até morrido. Foi como um cometa. E ela não era nem uma pedrinha para começar a desejar status de meteorito. Todavia, retornava um provável começo, ainda que começasse no meio. Quando aquele encontro despertou o melhor e o pior dela mesma... Sara oscilava, assim, entre a música e a palavra. Mas não tinha o dom da última. Era verborrágica e enchia os ouvidos de seu novo amigo com excesso. Voltava para a casa, improvisada na pequena pousada no alto da cidade, e sentia-se a própria materialização do supérfluo. Ela podia ouvir de longe a sua reza. Ele sim era amante da palavra. Um poeta. Mas limitado pela instituição e a castidade. Que poesia sobrevive sem sexo, ela pensava. Que amor sobrevive sem corpo, se o corpo é um templo e toda a sua estrada é um caminho luminoso. Nestas horas, meditava a necessidade real das cantigas de amor romântico. Queria extirpar a família. Tinha ciúmes da hóstia na boca de cada beata e se odiava por isso. Vivia naquele limite ímpar do ser humano quando encontra a sua casa. Marca o território, como bicho. Lembrava, nesses momentos tão demasiadamente humanos, que a carne vem antes da cultura. Ela, uma nietzschiana. Que confundiu tanto liberdade com egoísmo e parecia não entender absolutamente nada de filosofia. E lembrava as palavras feministas de sua mãe, uma filósofa de corpo antes que da academia, e sentia um arrepio como se fosse traidora. Mas ela sabia, lá no fundo, que haveria de descobrir que era maior que isto. Que talvez sua avó cigana lhe dissesse, quando teve uma filha bastarda no Alentejo. Sara confundia-se na madrugava. Em todas as suas referências. O pai, doce, a mãe, libertária, a irmã, cabalística. O violino, a fome, a poesia, a guerra. O apartamento de Viena lhe voltava sempre à memória como a face fria e tenebrosa da vida. Queria esquecer a dor das vidas que não puderam ser. E mal sabia ela o que ainda estava por vir. O que lhe esperava quando foi àquela cidade medieval apenas para cumprimentar o seu amigo imaginário e visitar sua primeira morada. Não sabia ela o que a série de acontecimentos num vinhedo em Portugal viria a afetar tudo o que acreditava. Ela ainda tinha muito o que viver até chegar a Veneza e voltar para o Rio, e poder comer comida árabe com o seu pai, um judeu, naquele restaurantezinho do Largo do Machado. Queria apenas dormir, mas o coração pedia um café e o suor, apesar do frio, era tenso o suficiente para lhe ocorrer sair pela madrugada e bater à porta de carvalho da catedral. Enlouquecia. E era nestas horas que preferia ouvir o padre italiano ao invasivo Confutatis. Mas ela era vivida, apesar de tão jovem. E podia remexer sua caixa de segredos que encontraria uma saída. Ela tinha bagagem depois de ter sido negada com sua sinfonia e violentamente separada de sua casa. Sara não sabia de todo, mas sabia ser mais do que parecia. Lembro-me de contar em uma das cartas que nesta hora decidiu ficar parada em frente ao espelho para contemplar o quanto a sua máscara talvez estivesse tão colada ao rosto que já não sabia quem era. E se recordou quando solou a Meditação de Thais diante de uma plateia de mais de mil pessoas e parece sequer ter se importado com o que dizia. Levou alguns anos para entender que a beleza do corpo acaba. E o que fica, é só aquilo que a gente constrói.”

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