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Babel

Minha missão
É “incorrer em tautologias”
Nasci errada
Uso mantras diariamente
Por necessidade e prazer
Não sei olhar no espelho
Que não seja para ver as rugas
Que escalam os fossos do cérebro
O azul me enerva
Posto que é cor que não se soube
Por muito tempo
Se uso óculos
Não é para melhorar a visão
Toda a gente já nasce enxergando
Mas esquece
Minhas mãos não me entregam verdades
Meu rosto menos ainda
Tudo o que sei
Coloco em palavras
E elas não são
Absolutamente nada
Para ver de fato
É preciso abandonar
A seriedade
Gosto de descascar as sombras...

CATEDRAL

Há tempos atrás
Sonhei para nós dois
Uma gótica catedral
De pedras firmes
E torres bem altas
Para delirarmos
A ilusão da eternidade

Mas ervas daninhas
Proliferaram  nas cabeças
Dos gárgulas
E no fim dos tempos
O que restou
Foi nada

Até nos esbarrarmos
Na velha cidade
Sob o leito
Da madrugada

Apenas de poesia

Se eu pudesse
Viveria só de poesia
Encarnada na beleza
E na crueldade do sutil
Largaria os delírios errados
As planilhas sem vida
Os contratos que amarram
A burocracia construída

Pois amanheci desejando mergulhar
No que revelam aqueles olhos
Foi por pouco que não te disse,
Não sei bem de que maneira,
Que devias ser meu, por que não

Amanheci querendo o brilho dos girassóis
Dos quadros de Van Gogh na minha janela
E quando eu olhasse a vida lá fora
Não veria apenas os carros que passam

Amanheci querendo mais a prosa de ontem
O riso amigo talhado em reencontros criativos
O prosecco providencial de uma noite sem fim
Poética dos tempos sem tempo da paixão

Amanheci querendo diluir minha alma
No andantino da quarta de Tchaikovsky
Ainda que o russo não rime com o português

Mas amanheci e já tocava o telefone
E me lembrei da moral
E já era tarde para o capital
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo do trabalho
Pois que lugar pode ter a poesia no tempo das convenções
Pois que lugar pode ter a…

A-moral

Que o encantamento
É fruto da verdade do imoral
E a imoralidade não mente
Calafrio é calafrio
Pulso acelerado
Não é nada mais que ele mesmo
Que os olhares não mentem
Mais que as intenções
Que sangue é sangue
E a cor azul não mente
A voz, muito menos
O tempo... este menos ainda

Que revela ele deste tempo todo
Que não percebi?

Era uma vez um tempo que passou
E numa página dele
Uma partitura inesperada
Como de praxe constrói
O seu legado
Pergunto: será?
Desejo: será!
Que a moral não é mais forte
E nunca foi
Nenhuma instituição
Jamais venceu a pulsão
Que o mar, o céu e as pradarias
Sempre foram horizontes que conversam

Em suas imensidões líquida e aérea
Dialogam, fluidas, com a imensidão terrestre
De casca, de chão, de história de luta
De seriedade sólida que revela
Uma consistência poética
E uma profundidade de paixão

Que o imoral deseja realizar-se
Pulsão!
E revela, o outro lado, o seu apoio
Porque sempre haverá sim,
Fidelidades perversas
Como sempre,
E a história nunca contradisse,
As …

As quatro estações cariocas

A Primavera
Chegada é a Primavera
Se uirapuru ou sabiá que a saúda, que importa
Correntezas aninham-se aos ventos que celebram pássaros
E as águas correm aliviando o doce calor carioca

Uma tempestade se anuncia no horizonte marítimo
Trovões levantam as ondas e alegram meninos
Ao seu fim, retornam as andorinhas ao Arpoador
E distribuem hipnóticos cantos sob o céu azul

Neste cenário de luz entre o mar e o bairro alto
Ao balançar das árvores e às buzinas de carro
Dorme o mendigo com um buquê de flores e o seu cão ao lado

Do pastoral subúrbio ao centro festejante
Dançaria Vivaldi um samba ao seu próprio furor e abrigo amado
Da primavera, cuja aparência de quase verão é brilhante e austera


O verão

Sob a dura estação pelo sol incendiada
Lânguidos homem e cachorro, arde o meio dia
Libertam as maritacas seu canto estridente
Cantores correm para os teatros à refrescar a poesia

Um doce vento norte se vai, e uma disputa
É improvisada pelo sudoeste das viradas na praia
E lamenta o marujo, porque s…

O universo das coisas não publicadas

Sento-me diante dela
A quem costumamos nomear vida
E à rosa subsiste seu nome

Deixo de lado cetro e vaidade
Acomodo-me em seu sítio forte
Onde trono é tronco de árvore

Ela me solicita despir-me
Abandonar os livros e a razão
Para ouvir o que grita

Recolho os meus sentidos e os vazios
Meus demônios dizem
Que talvez não valha a pena

Uma nudez com pena da morte?
E a morte ri na minha cara
E diz que é vida ainda

Retiro, então, a pele
Marcada mesmo
É por traços invisíveis

E encaro os profundos olhos dela
Vida ou morte, tanto faz
São fêmeas

Ambas dão a luz
E são a mesma face cálida
Mirando as nossas fragilidades

Para extrair delas
O óleo essencial de nossas almas
Verdades

Busco em seus espelhos
Os porquês
Em vão, tolice

Disparo sangue pelos meus
Com o coração chovendo espinhos
Despedaçado

Ao lembrar a infância feliz
Com cheiro de mato
Totem de um tempo já perdido

O que importa é fluído
A vida é círculo
E de tudo resiste sempre uma flor

De cada vida na nossa, pólen
Flor até mesmo quando feia