As quatro estações cariocas

Uma releitura carioca dos sonetos de Antonio Vivaldi
Escritos no verão de 2016, no Rio de Janeiro, para interpretação com a orquestra Johann Sebastian Rio


A Primavera

Chegada é a Primavera
Se uirapuru ou sabiá que a saúda, que importa
Correntezas aninham-se aos ventos que celebram pássaros
E as águas correm aliviando o doce calor carioca

Uma tempestade se anuncia no horizonte marítimo
Trovões levantam as ondas e alegram meninos
Ao seu fim, retornam as andorinhas ao Arpoador
E distribuem hipnóticos cantos sob o céu azul

Neste cenário de luz entre o mar e o bairro alto
Ao balançar das árvores e às buzinas de carro
Dorme o mendigo com um buquê de flores e o seu cão ao lado

Do pastoral subúrbio ao centro festejante
Dançaria Vivaldi um samba ao seu próprio furor e abrigo amado
Da primavera, cuja aparência de quase verão é brilhante e austera

(Vivaldi)
Chegada é a Primavera e festejando
A saúdam as aves com alegre canto,
E as fontes ao expirar do Zeferino
Correm com doce murmúrio.

Uma tempestade cobre o ar com negro manto
Relâmpagos e trovões são eleitos a anunciá-la;
Logo que ela se cala, as avezinhas
Tornam de novo ao canoro encanto.

Diante disso, sobre o florido e ameno prado,
Ao agradável murmúrio das folhas
Dorme o pastor com o cão fiel ao lado.

Da pastoral Zampónia ao Suon festejante
Dançam ninfas e pastores sob o abrigo amado
Da primavera, cuja aparência é brilhante.

O verão

Sob a dura estação pelo sol incendiada
Lânguidos homem e cachorro, arde o meio dia
Libertam as maritacas seu canto estridente
Cantores correm para os teatros à refrescar a poesia

Um doce vento norte se vai, e uma disputa
É improvisada pelo sudoeste das viradas na praia
E lamenta o marujo, porque sabe
Teme a feroz tempestade e é seu destino enfrentá-la

Toma dos pobres , após a lida, o repouso
O temor de alagamentos e trovões
E, de repente, inicia-se o tumulto furioso

Temor este, verdadeiro, que fulmina um céu vermelho
E um vendaval, a controverso modo, expulsa o suor dos dourados corpos
Que ora chove e assusta, que ora é o sol a pino que expulsa

(Vivaldi)
Sob a dura estação, pelo Sol incendiada,
Lânguidos homem e rebanho, arde o Pino;
Liberta o cuco a voz firme e intensa,
Canta a corruíra e o pintassilgo.

O Zéfiro doce expira, mas uma disputa
É improvisada por Borea com seus vizinhos;
E lamenta o pastor, porque suspeita,
Teme feroz borrasca: é seu destino [enfrentá-la].

Toma dos membros lassos o repouso
O temor dos relâmpagos e os feros trovões;
E de repente inicia-se o tumulto furioso!

Ah! No mais o seu temor foi verdadeiro:
Troa e fulmina o céu, e grandioso [o vendaval]
Ora quebra as espigas, ora desperdiça os grãos [de trigo].

O outono

Celebram os cariocas, com danças e cantos,
O grande prazer de um clima mais ameno
Entorpecidos ainda pela cerveja
Encerram as noites em bares sob a lua cheia

E ao fim dos carnavais e do sol estendido
O clima de outono é aprazível
E a estação convida a todos
A gozar um sono auspicioso

Mas o trabalhador, na nova manhã, sai à lida
Com ferramentas, gravatas, corre ao metrô, que irrompe
E foge do calor, da navalha, fogem dele as suas madrugadas

Exausto e em busca de um grande amor
Por dias e noites de cansaço e ameaças
Seu corpo pede calma, seu coração, oprimido, pede alma

(Vivaldi)
Celebra o aldeão com danças e cantos
O grande prazer de uma feliz colheita;
Mas um tanto aceso pelo licor de Baco
Encerra com o sono estes divertimentos.

Faz a todos interromper danças e cantos,
O clima temperado é aprazível;
E a estação convida a uns e outros
Ao gozar de um dulcíssimo sono.

O caçador, na nova manhã, à caça,
Com trompas, espingardas e cães, irrompe;
Foge a besta, mas seguem-lhe o rastro.

Já exausta e apavorada com o grande rumor,
Por tiros e mordidas ferida, ameaça
Uma frágil fuga, mas cai e morre oprimida!

O Inverno

Agitado tremor traz o dia cinza
Ao alegre sussurrar de tempos mais gélidos
Sacamos nossos casacos e echarpes
Batemos os dentes para lembrar que é inverno

Subir a serra e acender lareira
Enquanto lá fora a chuva fina traz neblina
Caminhar sobre o asfalto molhado a passos lentos
Gozando cada momento de frio parco, com medo de deixá-lo

Imaginamos gelo, abrimos vinho, namoramos no edredom
Há melancolia também em nossos corações
Que buscam a poesia no cintilar do orvalho da manhã

Sentimos, ao abrir a porta, arrepiar os pêlos
Ventos invadem os desejos por todos os lados
Cariocas também gostam de dias nublados

(Vivaldi)
Agitado tremor traz a neve argêntea;
Ao rigoroso expirar do severo vento
Corre-se batendo os pés a todo momento
Bate-se os dentes pelo excessivo frio.

Ficar ao fogo quieto e contente
Enquanto fora a chuva a tudo banha;
Caminhar sobre o gelo com passo lento
Pelo temor de cair neste intento.

Girar forte e escorregar e cair à terra;
De novo ir sobre o gelo e correr com vigor
Sem que ele se rompa ou quebre.

Sentir ao sair pela ferrada porta,
Siroco, Borea e todos os ventos em guerra;
Que este é o Inverno, mas tal, que [só] alegria porta.


* Sonetos de Vivaldi: tradução de Ricardo de Mattos

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