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Mostrando postagens de 2018

Sangue de dragão

Luana, a mulher, especulava: parecia ter nascido para a solidão da alma. O dragoeiro não sangrava naquela manhã, enquanto, ao ser violentada, ela mantinha seus olhos fixos nele. Ela sim, jorrava um sangue impossível de estancar, muito menos de se transformar em seiva. Num ímpeto, lhe ocorreu como teria sido se não lhe tivesse causado tanta vertigem a sensação de quando o viu pela primeira vez. O homem, não a árvore. Queria acordar subitamente, ávida de que tudo tivera sido apenas um pesadelo, fruto de uma má digestão, e de que aquele cheiro de musgo das paredes da antiga igreja não lhe tivesse embaçado a razão. Mas o seu corpo não permitia devaneios. A alma lutava com ele, afinal, mesmo solitária, era livre. Ela recordava aqueles olhos, os mesmos que sequer lhe olhavam durante aquele ato asqueroso, e já naquele tempo em que os encarou, inaugural, eles lhe remetiam a uma dor que viveria escondida no porão da casa. Mas ela ainda não sabia. Talvez pudesse não ter caído na tentação de te…

Ser ou não ser: eis a questão!

Hoje li uma frase interessantíssima da maravilhosa Bruna Lombardi: "se o plano A não funcionar, lembre-se que o alfabeto tem mais vinte e cinco letras". O máximo, não é? É preciso ouvir quem foi capaz de interpretar Diadorim na televisão! Mil atrizes passarão e ela continuará sendo mito: um Ser que despertou para a sua potência. A frase caiu como uma luva para começar este texto em que pretendo falar um pouco sobre buscar quem somos, algo que vem deixando muita gente ansiosa, porque acha que controla a vida. Que cilada!
"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre / Em nosso espírito sofrer pedras e flechas / Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, / Ou insurgir-nos contra um mar de provocações / E em luta pôr-lhes fim? Morrer, dormir, não mais".
O clássico texto acima, uma fala de Hamlet, de Shakespeare, traz uma profunda reflexão filosófica de toda a humanidade desde sempre. Shakespeare era bom em dar vida ao inconsciente coletivo antes mesmo que Jung diss…

Não analise, celebre: um papo sobre Osho, política, espiritualidade, sexo, amor e liberdade.

Após o lançamento do documentário Wild Wild Country, Osho virou um dos assuntos mais comentados entre os viciados em séries da Netflix. E também nas redes sociais. Só não foi mais por aqui porque o lançamento da série documental coincidiu, no Brasil, com o circo feito pelo STF e a mídia em torno da condenação e prisão do Lula. E enquanto eu assistia os capítulos, ia encontrando semelhanças entre as histórias, guardadas as devidas diferenças entre um e outro. Mas, ao meu ver e de outros tantos, Lula foi condenado de forma apressada e por motivos políticos. Pois ainda que haja crimes, as provas são insuficientes. O mesmo aconteceu com Osho. As questões realmente em jogo são de outra ordem. Mas não estou aqui para defender nem um nem outro como se fossem seres imaculados, pois ninguém é. Somos todos luz e sombras. E ainda que eu ache que Lula tenha sido condenado por razões eleitoreiras e considere o seu primeiro governo o melhor que o Brasil já teve, não vou defender que deveria ter si…

Se há cansaço

Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também a casa
Pedaço imenso de conforto
Singular
Que descansa
O que a lida cansa
E nos convida a recuar

Nessas horas pesarosas
Pouca coisa importa
O essencial se porta
Horizonte em nobre cena
Sob as folhas que balançam
Plenas de sua fotossíntese
Ao céu estrelado
Fragmento do óbvio
Que atrai o homo sapiens
Desde o seu primeiro espasmo

E o silêncio inquebrantável
Do abraço que se ama
Confortável
Ruídos de grilo
Ecoando na montanha
Café e cama

Um vinhedo antigo
Lembra que o tempo
É o rei soberano
Se há cansaço
E uma vez vivo, haverá
Há também um oceano
De calma e certeza
De onde é preciso estar