Não analise, celebre: um papo sobre Osho, política, espiritualidade, sexo, amor e liberdade.

Após o lançamento do documentário Wild Wild Country, Osho virou um dos assuntos mais comentados entre os viciados em séries da Netflix. E também nas redes sociais. Só não foi mais por aqui porque o lançamento da série documental coincidiu, no Brasil, com o circo feito pelo STF e a mídia em torno da condenação e prisão do Lula. E enquanto eu assistia os capítulos, ia encontrando semelhanças entre as histórias, guardadas as devidas diferenças entre um e outro. Mas, ao meu ver e de outros tantos, Lula foi condenado de forma apressada e por motivos políticos. Pois ainda que haja crimes, as provas são insuficientes. O mesmo aconteceu com Osho. As questões realmente em jogo são de outra ordem. Mas não estou aqui para defender nem um nem outro como se fossem seres imaculados, pois ninguém é. Somos todos luz e sombras. E ainda que eu ache que Lula tenha sido condenado por razões eleitoreiras e considere o seu primeiro governo o melhor que o Brasil já teve, não vou defender que deveria ter sido absolvido, pois uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Mas sim, que o processo seguisse em frente no tempo devido de um julgamento e com retidão por parte dos juízes. Junto, obviamente, com o julgamento de todos os demais suspeitos de corrupção, pois é na seletividade que mora o perigo. Mas entre a utopia e a realidade, há um abismo. Vemos isso no caso de Osho, assunto motivador desse texto. Quanto a ele, as questões que fazem com que agora, de uma hora pra outra, estejam pipocando críticos ferrenhos em grau máximo de ódio, são as mesmas que motivam as brigas políticas no país, com um querendo provar estar mais certo e mais correto que o outro, enquanto a vida passa e o sistema político permanece o mesmo. Se tem uma coisa que aprendi com tudo o que cresceu em torno de Osho foi sobre o poder do coletivo para além de toda e qualquer polaridade. E muito mais. Apesar de não o defender como guru iluminado, sem dúvida, aprendi muito quando conheci sua obra e até mesmo com a sua vida totalmente disparatada.

Osho é um mito contemporâneo. Foi uma das figuras mais controversas do século XX, amado e odiado no mesmo grau. Considerado um falso guru por uns, verdadeiro e iluminado para outros, desde criança manifestava interesse pela verdade do Ser e até sua avó declarou-se discípula do jovem mestre que ele era na época. Formou-se em filosofia, foi professor, crítico dos dogmas religiosos, portador da bandeira da liberdade (e das responsabilidades que ela traz) e criador de um potente e profundo programa de meditação. E apesar de ter sido um capitalista, que soube muito bem usar, para disseminar sua criação, todo o recurso que os seus seguidores americanos e europeus doavam, o acesso à meditação dinâmica criada por Osho é gratuito. Você pode aprender e fazer sozinho em casa, através da Internet, se não quiser pagar para estar em uma vivência. E se tiver dinheiro para ir à Índia visitar o seu resort/comuna, verá que os preços são menores do que uma mensalidade de aula de yoga. Mesmo os preços de se hospedar no resort saem em conta em comparação aos hotéis. Está achando o nome resort estranho para um local de espiritualidade? Pois esse é Osho, alguém que saiu dos padrões e desafia as categorizações. Foi um místico libertário, feminista, independente e autônomo em seu pensamento e ação, para além das tradições, capaz de unir Oriente e Ocidente como poucos. O primeiro mestre espiritual com visibilidade global a não negar o mundo material e a deixar o circo pegar fogo. Digo em escala global porque na Índia há muitos mestres e mestras assim, que não separam espírito e matéria, luz e sombras. Para ele, a liberdade era o ponto principal da jornada de evolução da consciência, junto com a vida prazerosa e alegre, sem negação do corpo e da matéria, tudo implicado, claro, em responsabilidade. Osho sempre foi transparente em seus discursos e só não ouviu quem não quis ou o tomou como muleta, como muitas pessoas que procuram um guru ou um mestre fazem: Aceitar a sua responsabilidade irá transformá-lo e a sua transformação é o começo da transformação do mundo — porque você é o mundo. Seja lá o quão pequeno for, um mundo em miniatura, você carrega todas as sementes. Nada de novo no front. Todos os grandes mestres espirituais e muitos filósofos já disseram isso antes, e ele pertencia a essa mesma linhagem de mestres e filósofos. Seus livros, baseados em seus Satsangs (sat = verdade e sanga = em companhia, uma espécie de palestra espiritual), estão entre os mais vendidos no mundo todo desde a década de 1970. A comuna de Osho, em Poona, na Índia, é o lugar mais visitado do país, atrás apenas do Taj Mahal. No entanto, o momento mais explorado pelo documentário é justamente o momento mais trágico de Osho, na época chamado Bhagwan Shree Rajneesh. Não é ruim para aqueles que estão em um caminho de busca espiritual, pois nos alerta a mantermos a atenção plena em nossas ações. Pois se até alguém considerado um mestre está sujeito a falhas, que dirá os simples mortais. Mas é uma pena que tenha sido excluída do filme toda a vida anterior à ida de Osho e seus seguidores para os EUA. Pela importância da mobilização planetária que a existência de um homem como ele provocou e ainda provoca, goste você ou não, Osho merecia um filme mais à altura de seu impacto.

O que Wild Wild Country faz é explorar o momento mais conturbado de sua trajetória, que termina com uma condenação de Osho nos EUA por problemas com a imigração, e a condenação de sua secretária Sheela e do grupo dela por tentativa de homicídio e mais um monte de bizarrices, com as quais não se comprovou ligação direta de Osho. Tanto que ele não foi acusado de nenhum dos crimes de Sheela, mas por outros "menores", já que o governo de Oregon e dos EUA queria mesmo era expulsá-lo do país, vendo nele o atrator de todo tipo de gente e todo tipo de liberdades. Tudo isso, no país da liberdade... O que vemos quando assistimos o filme é um desfile de preconceitos e julgamentos dos chamados cidadãos de bem dos EUA, algo muito parecido com o que estamos vivendo hoje no Brasil. Mas não acho que estão errados, embora não os defenda. Mas não é uma questão de certo e errado. O que é diferente assusta mesmo. Especialmente se isso afeta a propriedade privada e a família, que é a verdade daquela gente e de muito mais gente no mundo. A instalação de uma gigante comunidade autogestora (de mais ou menos cinco mil pessoas) no meio de uma pequena cidade conservadora dos EUA formada por fazendeiros, seria no mínimo algo provocador. Afeta toda a cultura local. Porém, devemos lembrar que a cultura de Oregon já foi autogestora, quando quem habitava aquelas terras eram os povos nativos, que foram dizimados pelos antepassados dos fazendeiros de hoje. Sua história é marcada por conflitos culturais. Mas se não defendo os fazendeiros de Oregon, também não defendo os seguidores de Osho que eram responsáveis mais diretamente pela política da comunidade. Muito menos Sheela, que ultrapassou os limites de qualquer convivência em sociedade. Não vou fazer muitos spoilers, assistam o filme. Mas em não defendendo, também prefiro não julgar. O tempo e a corte estadunidense já fizeram isso. A começar pelo fato de que estamos falando dos anos 1980, onde a realidade era outra. Depois, porque o ser humano, quando se sente ameaçado, age de maneiras que fogem à razão. Incluem-se nesse time eu, você, Sheela, Osho, Lula, Trump, Bolsonaro e todo o restante da humanidade. Gostemos ou não, em algum ponto da existência as nossas vidas sempre podem se espelhar. Fique um bom tempo sem se olhar no espelho da alma e veja o que terá se tornado. Figuras assustadoras como Hitler, por exemplo, estão sempre a espreita de nossos fascismos interiores. Por fim, recolho o julgamento porque Sheela, indiana formada na mais tradicional cultura de devoção da Índia, apenas fez o papel dela de proteger o seu guru, como todo e qualquer indiano devoto de um guru faz nos milhares de ashrams (comunidades espirituais) existentes no país. A questão é que os fins não justificam os meios. E é difícil defender os meios dela, como, por exemplo, ter armado a comunidade até os dentes, uma comunidade que antes de se sentir ameaçada, era pacífica. E isso sim, teve o aval de Osho. No entanto, defendo a existência da comunidade e a validade de toda a obra dele. A força dessa obra é algo que só aparece no filme nas falas emocionadas de alguns de seus amigos e seguidores, culminando num capítulo final muito bonito, que inclui perdão e redenção. Inclusive numa bela fala de Sheela ao ser presa, sobre não fugir às responsabilidades de suas escolhas feitas em liberdade, seguindo assim, os ensinamentos do mestre. Mas infelizmente essa não é a tônica mais explorada no restante dos capítulos, o que contribui para a disseminação do ódio à Osho por aqueles que não fazem ideia do que seja a cultura espiritual da Índia e a sua obra, e desconsidera que ainda hoje, exatos vinte e oito anos após a sua morte, ele é uma das figuras mais influentes no mundo, um guia espiritual globalizado que revirou os conceitos de espiritualidade, amor, capitalismo e anarquismo. Ou melhor, talvez esteja justamente em tudo isso a semente do ódio. Como o contrário também é verdade. Existe muito amor. Dá pra imaginar porque ele causa tanto rebuliço.

Mas antes de continuar a falar sobre Osho e explorar o fato de que ele se perdeu em seu caminho (e os motivos disso), como muitos de seus discípulos concordam, quero escrever sobre questionamentos fundamentais que aproximam Osho de muitas pessoas. Inclusive, que me levaram a ele também, motivos que me apaixonaram a escrever esse texto, além do fato de que, há dezessete anos, pratico e estudo yoga e a espiritualidade indiana em suas diversas vertentes. Aprendendo com ele, assim como com toda a vida ao meu redor, sigo no caminho tortuoso que é viver a busca por Deus dentro de mim, atenta para não me considerar melhor do que ninguém por conta disso nem invalidar as demais formas de busca ou mesmo quem não se importa com isso, pois também já fui ateia. Hoje, considero Deus a energia primordial que une consciência e criação, luz e escuridão, nem masculina nem feminina, mas os dois, que contém toda a pluralidade do mundo e a potência de sermos o que quisermos, de não nos limitarmos pela sociedade e pela cultura. Somos todos um e, ao mesmo tempo que isso é divino, não significa nada, não pode significar nada em termos de ego, essa instância controladora da psique que acha que já sabe tudo. Somos tudo, mas nada é nosso, muito menos sabemos a verdade. Temos apenas intuições e uma mente que cria a realidade. Logo, podemos ser qualquer coisa, ainda que a cultura e a sociedade nos diga que não. E isso não é só elemento para enredo de ficção, como a história do personagem da Marvel, Doutor Estranho. É de uma força real enorme e de grande responsabilidade também. Começa por aí o poder simbólico de Osho, que talvez estivesse à frente de seu tempo, mas não soube lidar com isso. Perdeu-se, como Nietzsche ao fim de sua vida.

O que mais move quem se aproxima das palavras de Osho e, acredito, a maior parte daqueles que viveram em suas comunas nos anos 1970 e 1980, e que vão à Poona hoje, é a liberdade de ser, de amar e o sentido de comunidade, tudo isso para além da propriedade, que é a grande questão do mundo em que vivemos. Embora Osho fosse capitalista, todo o dinheiro gerado pelo comércio de seus livros – a principal fonte de renda da comunidade – era utilizado em prol da própria comunidade e retroalimentava a divulgação de sua obra. Não vou aqui discorrer criticamente sobre sua coleção de Rolls-Royces. Osho era apaixonado por esse carro e ganhava vários de seus admiradores mais ricos. Cada um com as suas manias. O que importa é que a comunidade era e é totalmente sustentável. Todo o dinheiro era movimentado dentro daquele sistema anarquista. E, para quem não sabe, o anarquismo não é necessariamente socialista, pois existe a corrente anarcoliberalista. O anarquismo atravessa as duas correntes tanto quanto existe no meio, com várias nuances. Osho não falava em anarquismo, mas a essência de suas comunidades era anarquista. Ao menos, até Sheela implementar suas políticas de repressão. Mas a proposta ultrapassava a ideia de fronteira, de Estado-nação e por isso também incomodou tanto a Índia quanto os EUA. Porque a força do coletivo tem um poder impressionante diante do poder centralizado. Wild Wild Country mostra o que essa força, movida de forma autônoma, sem imposição, apenas pelo amor a uma causa, é capaz de produzir. O anarquismo sempre me apaixonou, desde os meus primeiros contatos com propostas anarquistas, quando eu ainda era muito nova, aos quinze anos, a exemplo da Somaterapia de Roberto Freire, que une Reich e o Anarquismo. O livro Coiote, de Freire, é o romance que mais participou da minha formação política e emocional. Ele conta a história de um garoto que na lua cheia vira lobo e encanta quem o conhece, atuando como o Eros de nossa Pisque. Totalmente integrado à natureza, ama tudo e todos sem dedicar exclusivamente o seu amor a ninguém. A personificação do amor em estado maior, como um verbo intransitivo. Coiote era ainda um cara para quem a casa era o mundo todo. Para ele não havia fronteira. Tudo era humano, tudo era possível, tudo era nosso, de maneira livre e sem propriedade. A utopia libertária em forma de gente. Aquilo me marcou profundamente, pois me identifiquei. Algo dentro de mim dizia que o amor era assim, gigante e despersonalizado, e que a vida em sociedade seria muito mais harmônica se não existissem fronteiras ou centralização de poder, se todos tivessem a mesma oportunidade de demonstrar sua força criativa, de trocar, de ir e vir. Imagine there's no countries, eu cantava, e sonhava com um mundo sem Estado. Meu inconsciente já dava pistas de que o Estado centralizador também estava em mim, na minha alma, e por isso eu o negava. Então, fui estudar o anarquismo, que segue comigo até hoje como um guia da minha alma, embora como sistema macropolítico eu entenda que seja um caminho mais difícil. Talvez não tenhamos evolução espiritual suficiente para isso. Mas algo que sempre defendi foram as comunidades alternativas autogestoras. E sempre acreditei no poder do coletivo. Esse foi o primeiro aspecto que me atraiu em Osho, como a muitas pessoas. Suas comunidades foram e são experimentos bastante interessantes nesse sentido. Vamos ler o que o próprio dizia sobre isso:

MINHA VISÃO de um novo mundo, o mundo das comunas, significa nenhuma nação, nada de grandes cidades, nenhuma família, mas milhões de pequenas comunas espalhadas por toda a terra em densas florestas, exuberantes florestas verdes, nas montanhas, nas ilhas. A menor comuna viável pode ser de cinco mil pessoas e a maior comuna pode ser de cinqüenta mil pessoas. De cinco mil a cinqüenta mil - mais que isso se torna inviável, assim surge novamente a questão da ordem e da lei, e da polícia, e da corte, e todos os velhos criminosos são trazidos de volta. Uma comuna é uma declaração de uma vida não ambiciosa, de igual oportunidade para todos. Mas lembrem-se de minhas diferenças com Karl Marx. Não sou a favor de impor igualdade sobre as pessoas porque essa é uma tarefa psicologicamente impossível - e quando você faz alguma coisa contra a natureza, isso se torna destrutivo e venenoso. Dois homens nunca são iguais. Mas posso ser facilmente mal entendido, então tente entender meu ponto de vista muito claramente. Não sou a favor da igualdade, mas também não sou a favor da desigualdade! Sou a favor de criar iguais oportunidades para cada um ser ele mesmo. Em outras palavras: na minha visão, cada indivíduo é igualmente único.

O segundo aspecto, derivado desse sentimento de liberdade, diz respeito às relações. Já vi muitas críticas de detratores de Osho afirmando que a sua filosofia em nada ajuda um buscador. Pois eu digo o contrário. É uma filosofia prática, que conforta aqueles que se sentem estranhos no ninho, os dá uma perspectiva de que é possível existir como se é. Lembrando mais uma vez que liberdade e responsabilidade caminham juntas. É aquela velha história: a nossa liberdade termina onde a do outro começa. Todo assunto relacionado ao amor na obra de Osho é ponto de polêmica, embora eu não consiga ver polêmica em nada. Mas porque, ao falar principalmente de relações íntimas para além da ideia de propriedade, ele toca no ponto mais espinhoso das relações: a fidelidade. Mas Osho vai além, e coloca o amor numa perspectiva espiritual. Basta ter disposição para olhar para a sua obra. Em relação à questão da propriedade do corpo, do desejo e do sentimento, Osho foi, para mim e para muitos, libertador. Talvez esse seja um dos pontos pelos quais mais pessoas buscam suas palavras e as meditações dinâmicas, querendo sair dos padrões e das redes de cobranças que vivemos nas relações íntimas, que expressam o quanto somos uma sociedade neurótica e doente. Esse é também um ponto que sempre me movimentou. Hoje, aos trinta e oito anos, posso dizer que tenho claro para mim que há experiências que são só nossas, da nossa liberdade como indivíduo, e só pertencem ao nosso caminho de evolução. Ninguém deve (ou não deveria) legislar sobre isso, exceto quando a nossa liberdade passa a afetar a liberdade do outro. Mais uma vez, aqui está a responsabilidade. Nesse ponto, se não entra a ação correta do indivíduo, entra o coletivo. E nada disso fere a lealdade ou o amor, ou não deveria, pois são coisas diferentes. Desde que os relacionamentos se estabeleceram na relação de propriedade, o ser humano já sofreu muito. Especialmente as mulheres, que são as galinhas e vadias da história, enquanto os homens são os garanhões que não conseguem se segurar. Coitados. Tipo de pensamento que mata mulheres diariamente pelo mundo e que gera doenças sérias na psique dos homens. Vivemos em uma cultura doente, que culpa e pune as pessoas pelo prazer, desde o mínimo prazer em viver. Diariamente a gente mata nossa potência por nos permitirmos manter essa rede complexa de culpabilização. Não nos relacionamos com honestidade, porque temos medo e somos carentes. No aspecto da maioria de nossas relações, estamos socialmente ainda na fase da criança birrenta. No máximo, do adolescente inconsequente. E isso se aplica não apenas às relações íntimas de casal, mas a todas elas, como as amizades, as de trabalho e as delicadas relações familiares. No caso dos casais, em muitos as singularidades sequer são colocadas em pauta. Isso no dito mundo democrático. Estou desconsiderando as sociedades mais conservadoras. Preferimos viver mentiras que, um dia, explodem das formas mais dolorosas. Porque somos todos apaixonados pelo poder, para usar uma expressão maravilhosa de Michel Foucault sobre os nossos micro fascismos, aqueles entranhados na alma. O Estado centralizador está mesmo dentro de nós. Adoramos exercer poder sobre o outro. E nessa conjuntura, é impossível o amor emergir em sua totalidade.

Antes de Osho, a psicanálise trouxe o assunto à tona com Freud. Reich foi o primeiro a unir tal pensamento com a política. E depois, Michel Foucault, Simone de Beauvoir, Sartre, Deleuze, Anais Nin, Hilda Hilst no Brasil, grande pensadores e escritores trouxeram a questão de forma mais enfática, tanto para a filosofia e poesia quanto para suas vidas. Até o mundo pop teve seus expoentes questionadores das neuroses das relações, como John Lennon e Yoko Ono, que estavam muito além da rasa expressão amor livre. A diferença de Osho é que ele era considerado um líder espiritual. E dentro do universo da espiritualidade, esse era um assunto desconhecido dos ocidentais. Embora Osho não fosse ligado a nenhuma linhagem tradicional indiana, seu pensamento se alinha ao Tantra, tanto que há inúmeros discursos dele sobre o Tantra, onde a união masculino e feminino é o almejado, é o próprio samadhi (iluminação espiritual). Como tudo na vida é sujeito à interpretação e diferentes usos, no Tantra não é diferente. Há a corrente para quem a união entre os opostos se dá num caminho individual, de meditação, yoga, canto de mantras, e há o caminho que diz que o samadhi só pode acontecer através da união real entre duas pessoas. E o sexo seria o principal veículo. É daí que vem a associação do Tantra com o sexo, que faz com que se confunda uma coisa com a outra. Osho parecia unir as duas correntes. Há quem diga que não. Mas posso dizer que conheço bastante os discursos de Osho sobre o amor. O samadhi pode até ser vislumbrado pelo sexo, pelo orgasmo, numa relação de entrega e confiança entre as partes, mas é uma experiência individual muito além dos sentidos. E que só ganha densidade e profundidade, na experiência meditativa. Mas, o povo gosta mesmo é de polemizar, como dizem por aí. E Osho, por falar das relações afetivas para além da propriedade e na perspectiva da liberdade, acabou ganhando da mídia, apoiada pelas camadas conservadoras da sociedade, um título honorário pejorativo: o de guru do sexo livre. Mas ele nunca se nomeou desta forma ou estimulou orgias (como gostam de afirmar) ou infidelidades. Basta ler os relatos de seus seguidores, mesmo dos que deixaram de segui-lo. Não que fosse um problema também se estimulasse, não estou aqui como defensora da moral. Se assim tivesse feito, haveria os seus seguidores tanto quanto os detratores. Embora, ao ser um defensor da liberdade, sua comunidade tenha se tornado alvo fácil tanto daqueles que queriam um lugar pra pegar geral quanto dos que estavam interessados em atacar o que assusta. Sempre há os aproveitadores. E, além disso, sexualidade é tabu, ainda que o sexo esteja em toda parte. Porém, mais como mercadoria, difundindo preconceitos e machismos, e menos como algo natural. Por isso o tom pejorativo. Quem busca os ensinamentos de Osho de maneira livre de pré-conceitos e medos, verá que ele fala do amor e do sexo como algo espiritual. Esse para mim foi o pulo do gato: entender que o amor que a gente sente por alguém é a nossa grande chance de conhecer o amor maior de Deus. E que o sexo e o amor podem se encontrar, mas são coisas diferentes. É aí que caem por terra o ciúme, a posse, a carência. O entendimento de que, em suas próprias palavras, o relacionamento é uma estrutura e o amor é um fenômeno não estruturado mudou a minha vida. E a de muita gente. Assim, tendo tentado a conexão com inúmeras religiões e não alcançado o sucesso, encontrei no amor a minha religião, como a linda guru Amma. E no Yoga, a canalização de todas as energias neuróticas, para transmutá-las. Caminho que várias pessoas fizeram e encontraram em Osho uma das fontes de sabedoria. Em outro momento escrevo um texto apenas sobre Yoga e Tantra. Por ora, volto à Wild Wild Country.

Uma amiga de longa data, que leu Osho pela primeira vez no ano passado e disse ter sido impactante para ela como pessoa e como mãe (mais uma vez, aí está a filosofia prática), começou a fazer aulas de yoga há pouco tempo, com uma professora que tem muito mais experiência do que eu nesse caminho. Ao dizer para a professora que ela era iniciante, aquela respondeu como uma verdadeira mestra: somos todos iniciantes. Isso me tocou muito e me deixou muito feliz. Falei pra ela: "vai nessa aí". Porque a verdade é essa, estejamos em qualquer parte do caminho, estamos todos no início da jornada, pois as armadilhas do ego são tantas que podemos sempre voltar pra estaca zero. Inclusive os mestres mais evoluídos na espiritualidade. Pois o ponto mais próximo de outro ponto é o seu oposto. Enquanto estamos no meio, onde tudo é tudo e nada é nada, as coisas caminham num certo grau de equilíbrio. Mas encontre a luz e terá mais clareza do que são as trevas, como o contrário também é verdadeiro. Se o universo se dobra, ambos se encontram. Cada vez que um guru se torna midiático, ele passa a ter que conviver com essas armadilhas do ego mais do que se vivesse recluso numa caverna nos Himalaias ou num ashram desconhecido. Eu respeito muito a coragem daqueles que decidem viver no mundo real e não numa caverna, a expor, assim, também as suas sombras. Pensemos em um ser muito iluminado como Jesus. Mesmo ele teve os seus tormentos e os seus momentos de sombritude. Não fosse assim, ele jamais teria entrado no templo arrasando com tudo. A ele não interessava se aquela era a cultura local ou o que mantinha o conforto das pessoas. Jesus, a personificação do amor e do perdão, entrou lá chutando o pau da barraca, literalmente, e afirmando, na base do grito, algo totalmente novo que a maioria não entendeu. Não estou comparando Jesus e Osho, não é isso. Sob muitos aspectos, se distanciam. O que quero dizer aqui, é que somos complexos ao sermos humanos. Ainda que Jesus seja um ser de luz, estava vivendo na matéria. A própria palavra guru, designada na Índia para seres que chegam ao samadhi e se tornam guias espirituais, traz essa dualidade complexa. Ela une duas sílabas em sânscrito que significam trevas e luz. Guru é aquele que encara as trevas para encontrar a luz. É uma capacidade divina presente em todos nós. Podemos encontrá-la em outros seres que consideramos mais a frente no percurso do que nós. Mas será um erro para todo aquele que se tornar devoto de um guru criar a expectativa de que ele está acima do bem e do mal. Estamos todos no mesmo barco e prontos a aprender uns com os outros. A devoção é uma grande "arma" de aprendizagem sobre nós mesmos e o cosmo, mas tem limites. Inclusive, Osho não se dizia guru. Para muitos poderia ser, mas ele falava justamente em quebrar o jogo entre guru e discípulo. Ele pode sim ter se iluminado aos vinte e um anos, sozinho como foi, sem a mediação de um outro guru, contrariando a maioria da tradição indiana e o ligando a dos grandes mestres. E criou práticas fantásticas de liberação de estresses, medos e angústias, usando ainda muito bem a palavra, como profundo orador e conhecedor de filosofia que era e de todas as tradições místicas, para ajudar outras pessoas a encontrar a verdade dentro de si. Mas era um ser humano, doente desde muito novo, fraco por uma fibromialgia que o tornou viciado em Valium e óxido nítrico, além de ter se tornado um viciado em drogas alucinógenas depois que levou para o seu círculo alguns produtores de Hollywood. Se já somos suscetíveis aos erros quando saudáveis, quando doentes e sob efeito de drogas de maneira não ritualística os canais se abrem e se tornam frágeis. O que me parece ter acontecido com Osho foi que ele não soube sustentar a atenção plena depois que se iluminou. Ou talvez nem tenha se iluminado, mas foi um homem que chegou perto de entender a verdade suprema da qual os Vedas (textos antigos da Índia) nos falam, que vemos em seres como Jesus Cristo ou Buda. Talvez precisasse de alguém que o orientasse, um guru. Talvez, por negar toda e qualquer tradição, ao negar ter ele mesmo um guru, um ponto de apoio qualquer que fosse, um terapeuta ou sei lá o quê, tenha ele se perdido nos emaranhados da mente traiçoeira. Algo que talvez também ele tenha percebido ao fim da vida, quando se tornou mais compassivo, mesmo que dopado. O que não nos cabe é julgá-lo a torto e a direito como se Osho estivesse tão distante que não fosse um espelho de nós mesmos. Só que fazemos isso o tempo todo, pois somos formados na cultura da justiça, de acharmos que somos o certo e o outro é o errado. Mas por mais que queiramos controlar as forças sociais, a vida se equilibra por ela mesma, pois sempre há aspectos que fogem da nossa visão, que é condicionada por inúmeros fatores. Não que não devamos denunciar o que achamos errado e viver pelo que achamos certo, pois nesse jogo é que nos descobrimos, mas entendo que o mais interessante é trabalharmos todos em prol do autoconhecimento, do amor e do perdão. Mesmo quem busca vibrar nessa energia diariamente, escorrega o tempo inteiro. Lembro-me de uma vez em que me peguei julgando com muito ódio o bispo Edir Macedo e, ao perceber a loucura em que eu estava entrando, me coloquei um bom tempo em silêncio e meditação, para assentar em mim que eu não me sentia feliz com aquele sentimento e que ele era caminho fácil pra ruína. É a mesma coisa que fazem com Osho e é o que fazemos o tempo todo com tudo o que é diferente de nós. Temos sim que ficar atentos a todos que nos prometem o paraíso. Mas se tem uma coisa que aprendi com as palavras de Osho e, antes disso, com mestres de altíssima vibração, e também na filosofia e no yoga, é que toda resposta está dentro de nós. Por isso não me tornei seguidora dele, como de nenhum outro mestre. Sou devota de todos e de nenhum. Porque a fé deve ser cega, a crença jamais. A fé é em relação à vida e ao universo, trabalhada apenas no âmbito individual e em vibrações altas, nascida da meditação, do amor, do serviço, da compaixão. Já a crença se dá em leis criadas pelos seres humanos. São elas que nos limitam, que dificultam as respostas nos momentos mais difíceis, colaborando para a propagação de doenças psíquicas e emocionais que nos destroem. Nenhum buscador espiritual, praticante de yoga que seja, salvo raríssimas exceções, pode ser dizer um iluminado de fato, um yogi liberto dos condicionamentos do mundo e da mente. Quem acha que chegou a esse ponto tem que arcar com enormes responsabilidades, como Osho teve que arcar. Todos somos aprendizes, caminhantes no caminho. Até mesmo os gurus. Nossa experiência na Terra é para isso, para vivenciarmos toda a loucura que é a vida na matéria. Ela também é divina. Também é face de Deus, ou do Universo, ou de Paramatma, ou do nome que for. Por isso, acredito que mais do que propor revoluções sociais, temos que propô-las associadas à revolução que mais importa: a de dentro. Não se pode mudar o mundo sem mudar a si mesmo. Não se pode querer um mundo de mais luz sem olhar para as próprias sombras. Osho deu uma chacoalhada em nosso mundo de tantas faces fundamentalistas ao se colocar na vida com acertos e erros escancarados. Assim, ajudou a despertar a vontade de se autoconhecer em milhões de seres humanos em todo o mundo, direta ou indiretamente. Aprendamos com ele o que acontece quando somos levados pela sociedade sem atenção ao nosso interior, porque ele mesmo se deixou levar pelas seduções sociais que aprisionam.  Osho é o último nome que ele usou durante a vida, já próximo do seu falecimento. Trata-se de uma reverência em japonês, que significa algo como "consciência oceânica". Nada mal para quem foi tão capaz de fazer da própria vida uma obra de arte, ainda que caótica e contemporânea como uma pintura de Pollock. Mas que, mesmo assim, chega a produzir luz. É assim que é a vida, precisamos das sombras para enxergarmos a luz, mesmo que isso seja doloroso. É um mistério ao qual nos cabe reverenciar sem a pretensão de que o conhecemos. Saber demais é perigoso demais, nos impede de encontrar a verdadeira paz, que não está na cessão das guerras pura e simplesmente. Mas a cessão da guerra só virá quando encontrarmos a paz dentro de nós, quando aprendermos a celebrar a vida ao invés de querer destruí-la. Quando passarmos a trabalhar mais para o fluir do amor maior. Isso é o amor fati do qual falava Nietzsche, amar tudo como é, apesar de. O pulo do gato para a humanidade. Como disse Osho certa vez, esqueça essa história de querer entender tudo. Em vez disso, viva. Em vez disso, divirta-se. Não analise, celebre!