Sangue de dragão

Luana, a mulher, especulava: parecia ter nascido para a solidão da alma. O dragoeiro não sangrava naquela manhã, enquanto, ao ser violentada, ela mantinha seus olhos fixos nele. Ela sim, jorrava um sangue impossível de estancar, muito menos de se transformar em seiva. Num ímpeto, lhe ocorreu como teria sido se não lhe tivesse causado tanta vertigem a sensação de quando o viu pela primeira vez. O homem, não a árvore. Queria acordar subitamente, ávida de que tudo tivera sido apenas um pesadelo, fruto de uma má digestão, e de que aquele cheiro de musgo das paredes da antiga igreja não lhe tivesse embaçado a razão. Mas o seu corpo não permitia devaneios. A alma lutava com ele, afinal, mesmo solitária, era livre. Ela recordava aqueles olhos, os mesmos que sequer lhe olhavam durante aquele ato asqueroso, e já naquele tempo em que os encarou, inaugural, eles lhe remetiam a uma dor que viveria escondida no porão da casa. Mas ela ainda não sabia. Talvez pudesse não ter caído na tentação de ter visto dentro daqueles olhos toda uma vida imaginada. Mas foi tudo rápido como um cometa. E ela não era nem uma pedrinha para desejar ter força de meteorito. No túnel da memória que acompanhava a agonia, meditava a real necessidade das cantigas de amor romântico. Queria extirpar tudo aquilo. Lembrava que a carne vem antes da cultura. E ela sabia, lá no fundo, que haveria de descobrir que era maior que isso, a cultura.

Luana, a bailarina, estava no meio da roda e tinha os pés maravilhosamente tortos, voltados para dentro. Foi sempre a mais expressiva. Mesmo entre tantos cisnes e ninfas protocolares, era possível reconhecê-la. Suas mãos eram penas que escreviam fraseados no ar. E quando abria os olhos, suspendia-se o tempo. Era como um tiro certeiro ou um raio fulminante. Naquela noite, estava ainda mais destacada, oferecida em sacrifício. E dava saltos atípicos, batia as mãos nas pernas, sacudia os braços como louca e socava o chão, prestes a morrer. Sua mente girava acompanhando o corpo que suava debaixo de uma túnica incomum, as tranças balançando, a luz piscando monstruosa. Homens e mulheres de vestes duvidosas e chapéus cônicos aguardavam a hora do fim, dançando em transe ao seu redor. Tímpanos e trombones soavam dentro dos ossos de Luana, pois aos ouvidos já não havia mais nada. O som se esvaía, a visão estava turva, tudo parecia nublar e ganhar contornos mais belos, como nos dias de neblina na fazenda. E ela ia morrendo devagar, entregue aos deuses, até desabar subitamente. A morte parecia mais bonita do que sempre sonhou.

Mas o homem esmurrou a porta e entrou no quarto abrindo a janela. Foi um segundo aterrador aquele, o de se confrontar com a vigília. Luana, a esposa, transpirava ofegante, enquanto o seu marido a encarava destituído de escrúpulos, acariciando-a por entre as suas pernas, falando-lhe ao pé do ouvido com os dentes cerrados. E subia as mãos e lhe apertava os braços. “Já estou indo, sonho bobo”, ela murmurou assustada, saltando da cama, os olhos de olhar fulminante contornados de um roxo esverdeado, perdidos como nunca, as mãos trêmulas, onde nenhuma pena pararia, e a desolação por não ter morrido às últimas notas daquela sagração. Levantou-se e tinha, agora, todo o seu corpo entortado por um sacrifício inconsolável. Ao sair do banheiro, seu marido a segurou com força. Antes do café, ele tinha outros planos. E a levou de corpo consentido por medo à cama onde os lençóis embaralhavam os conceitos. Enquanto ele caía sobre ela rasgando mais a sua liberdade, ela permanecia imóvel e distante como um cadáver, com a cabeça voltada para a janela, de onde se podia ver o dragoeiro.

Luana, a criança, tinha se tornado amiga da árvore, última da espécie a resistir naquela ilha vulcânica no meio do oceano. O dragoeiro, por sua vez, marcava o meio da propriedade que havia sido de sua família, para onde se mudou com a promessa de felicidade plena. Por aquele homem, largou tudo, mesmo a dança. Após a morte do pai, que já vivia há anos sem a mãe, herdou a fazenda no meio da ilha, longe do mar. No entanto, era possível sentir a maresia. Sempre é. E no meio da casa, daquela casa no meio da ilha, que sobrevivia no meio do oceano, marcada ao meio por um dragoeiro centenário, viveu um homem que se apossou de tudo que a ela pertencia. Quase tudo. Da árvore, não quis saber. Talvez por magia, sequer chegava perto dela. E debaixo de sua copa e ao redor de seu tronco, Luana encontrava amor e respostas. Estava sozinha nas mãos de alguém que acreditava conhecer quando, então, viu o ar pérfido de dominador que circulava naquele corpo ignorante, sobre o qual queria ela dizer, caso tivesse recursos e ouvidos que a ouvissem, que era assim porque jamais soube o que é amar. Na frente dos empregados, ele era a máscara da mais doce das criaturas humanas, “um homem de sorte por ter se casado com a mais bela das mulheres”.

Durante a infância e a adolescência, Luana aprendeu balé com a única professora da ilha, uma francesa aposentada que havia se mudado para lá em busca dos ares frescos do oceano e da paz que, dizem, as ilhas sabem traduzir. Apaixonada por descobrir no próprio corpo a beleza do mundo, a menina cresceu bailarina, incentivada pela mãe, uma mulher de finos e profundos interesses pela arte e a filosofia, o que cultivava em segredo. O pai se preocupava mais em administrar a fazenda, que exportava frangos e laranjas além-mar. Quando a mãe estava morrendo de tuberculose, chamou a filha ao leito e lhe disse para partir, para que não repetisse a sua história. O pai já não tinha forças para impedi-la e Luana foi conhecer o mundo. Tornou-se a primeira bailarina de uma famosa companhia estrangeira. Um dia, desolada por haver perdido o papel de Giselle para uma jovem promissora, caminhava pelas ruas da cidade velha, próxima à uma igreja um tanto abandonada. Sentia-se perdida, como se ao voltar de um salto num pas de deux não houvesse mais quem a segurasse. Na esquina entre a igreja e a praça, topou com ele, de olhar profundo e torturado. Desde então, tornaram-se amantes doentios, depois, um casal de namorados e, por fim, marido e mulher. Casaram-se na igreja semiabandonada, apenas os dois, e só depois avisaram as famílias. Seu pai sequer lhe escreveu uma carta. A única que ela recebeu da fazenda, um mês depois, foi o aviso de seu falecimento, através do caseiro, um homem doce. Naquele dia, tornou-se herdeira da propriedade. Fazia dez anos que não ia à ilha. O marido tomou a frente das conversas com os advogados. “Melhor assim”, pensou ela sem saber. E foi visitar o dragoeiro. A árvore parecia definhar. Porém, uma semana depois, tornou-se novamente viva e luminosa. Luana a visitava todos os dias e contava as suas aventuras pelo mundo. Gostava de não saber se a tratava de árvore ou se o chamava dragoeiro. Aquele ser centenário era, para ela, a mais amorosa das criaturas, por sobreviver a tanta intempérie e permanecer oferecendo a sua seiva curativa. Com mais uma semana de estadia, seu marido convenceu-a a ficar por lá. Ele se tornaria administrador da propriedade. Prometeu-lhe viagens, todos os livros que ela amava e usou o dragoeiro em chantagem. “Sua árvore torta precisa de você. E você já não é a mesma bailarina que era quando mais jovem, há meninas mais novas assumindo o seu lugar. Além do quê, o que ganharia fazendo de novo os mesmos papéis? Fique aqui comigo e será a mulher mais feliz do mundo!” Mas o que ela ignorou ao dizer “sim, vamos ficar” era que perder papéis já interpretados pouco importava, uma tristeza pequena demais diante do abandono de sua arte e do sonho de ainda dançar A Sagração da Primavera. Mas ela abandonou. Amava aquele homem e acreditava que acreditava que não saberia viver sem ele, mesmo diante da agressividade que ele já demonstrava e que ela dizia ser “apenas descarga de uma alma atormentada”. Até então, no ano em que estiveram juntos no estrangeiro, ele havia batido no rosto dela apenas algumas poucas vezes, sempre bêbado. Ela achava que achava natural. Mas na fazenda, os tapas se tornaram verdadeiras agressões, que se tornaram grandes violações e ameaças, com ou sem bebida. A cada vez que ela ousava denunciá-lo a algum funcionário, a ameaça se tornava mais concreta. E, assim, os sonhos de Luana foram sendo guardados na caixa de antiguidades da família, no porão da casa principal da propriedade, onde escondia o seu diário e encontrou o de sua mãe, que não tinha sido violentada no corpo, mas não havia escapado da violência ao ter sido proibida de estudar e trabalhar. Naqueles dias, ela e o dragoeiro tornaram-se prisioneiros de uma ilha isolada, tornando-se, eles mesmos, ilhas abandonadas, sem amigos, cartas, notícias do mundo ou leis que os protegessem e palavras de conforto. Tinham somente um ao outro. Então, exausta da prisão e tomada de natureza, no café daquela manhã, Luana acertou as costas do homem com uma faca. Aterrorizada, mas lúcida, correu em prantos na direção do caseiro, que entrava pela porta e se assustou com as mãos ensanguentadas da mulher.

Antes de partir sob o sol do meio dia, sem saber se o homem resistiria ou não, desceu ao porão. Na volta, entregou seu diário na mão do caseiro e de sua mulher, que chorava silenciosamente com a alma se despedaçando como cúmplice que havia sido de um crime anterior, do qual tinha conhecimento mas calou-se. Possuída, assim, de frágil liberdade, Luana correu em direção ao dragoeiro, que também sangrava, e observando que ele lhe oferecia a sua seiva, tomou-a às mãos e provou-a em gratidão. Era primavera. Seu sonho, finalmente, seria realizado. Entregue em sacrifício aos deuses, Luana subiu na copa da árvore para desaparecer das vistas inquisidoras. Ela e o dragoeiro. Os dragões sobem ao céu na primavera, Luana, a liberta, havia lido uma vez num livro perdido na estante da mãe.

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