Ser ou não ser: eis a questão!

Hoje li uma frase interessantíssima da maravilhosa Bruna Lombardi: "se o plano A não funcionar, lembre-se que o alfabeto tem mais vinte e cinco letras". O máximo, não é? É preciso ouvir quem foi capaz de interpretar Diadorim na televisão! Mil atrizes passarão e ela continuará sendo mito: um Ser que despertou para a sua potência. A frase caiu como uma luva para começar este texto em que pretendo falar um pouco sobre buscar quem somos, algo que vem deixando muita gente ansiosa, porque acha que controla a vida. Que cilada!

"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre / Em nosso espírito sofrer pedras e flechas / Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, / Ou insurgir-nos contra um mar de provocações / E em luta pôr-lhes fim? Morrer, dormir, não mais".

O clássico texto acima, uma fala de Hamlet, de Shakespeare, traz uma profunda reflexão filosófica de toda a humanidade desde sempre. Shakespeare era bom em dar vida ao inconsciente coletivo antes mesmo que Jung dissesse o que era isso. E Hamlet parece concluir que, apesar de todos os percalços e dores, melhor ser do que não ser. Buscar o Ser, essa coisa que tanto se fala por aí, seja na filosofia, poesia ou no campo da espiritualidade, é um bicho que, por mais que o desdenhemos, uma hora nos pega. A gente até tenta fugir e saboreia a consciência "de que a metafísica é consequência de estar mal disposto". Mas, como o mesmo Álvaro de Campos nos revela no seu Tabacaria, o desejo do Ser permanece: "Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse, / E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, / Calcando aos pés como um tapete em que um bêbado tropeça / Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada". É, quem me dera...

Mas foi o mesmo Fernando Pessoa que escreveu isso, em sua faceta Álvaro de Campos, que encontrou a sua forma mais potente de Ser. Álvaro de Campos era apenas sua face que duvidava e se angustiava, cuja expressão estava em querer sentir tudo de todas as maneiras e, assim, acabava por colocar ciladas a ele mesmo. Chegar a tamanho entendimento de si ao ponto de se desdobrar em vários, provando que o ego é apenas máscara de sobrevivência nesse mundo da matéria, dizem, não é para qualquer um. Mas Pessoa era um místico e ocultista, um homem conectado com o invisível, diferente da persona Álvaro, que ficava no "quem me dera". Mergulhou na busca tortuosa pelo Ser, colocando a prova todos os seus planos e desejos em busca da verdade. 

O conceito de verdade é complicado e eu venho estudando essa palavrinha desde que me entendo por gente. Hoje, entendo que verdade é o que a gente descobre quando mergulha fundo dentro de nós mesmos, quando colocamos à prova os nossos planos A, que podem não ser o melhor para nós como nosso ego acredita que é. A vida é um conjunto de ciladas que só parecem nos querer dizer que para sair delas, devemos deixar fluir. Assim, a questão se torna transmutar o Plano A em Plano Aleph, o que contém tudo, a estrela densa de Jorge Luís Borges que une passado, presente e futuro. O ponto do alfabeto que junta todas as letras e bum: tudo passa a fazer sentido onde antes existia apenas som e fúria. Traduz, Vanessa! Vamos lá, vou tentar exemplificar ilustrando com coisas que observo ao meu redor e contando um processo muito pessoal mais adiante.

Repare o quanto estamos em crise, pessoal e social. Repare que isso parece não ter fim. E repare, por favor, que isso não é privilégio da nossa era, do nosso século, do nosso país, do seu umbigo. Vanessa, desde quando crise é privilégio? Já ouviu dizer que são elas que nos levam para frente? Pois é gente, se a vida te der um limão, faça uma limonada e se delicie. Diz o zen e o budismo: o melhor lugar é onde você está nesse momento. Repare agora na quantidade de gente reclamando. O tempo inteiro. Em todo e qualquer tempo e espaço. Agora siga adiante: observe que reclamar é re-clamar, clamar novamente, pedir várias vezes por algo. Legal isso, não é? Aprendi com a minha irmã coach. Cuidado com aquilo que você reclama, porque, na verdade, é isso o que você está pedindo para a sua vida. "Vanessa, isso soa muito Era de Aquário ou Lei da Atração, e eu não gosto disso". Ok, pegue o seu preconceito e vá tomar sorvete. Não me importo. Fico com toda a tradição filosófica e espiritualista que falou sobre isso desde a Grécia, Babilônia e pra lá de Teerã, muito antes que o livro O Segredo se tornasse um best-seller. Mas esqueçamos o segredo, vamos falar de Sartre. Você acredita mesmo que o inferno é o outro? Já parou para pensar nisso? A frase tem várias interpretações. Ou melhor, formas de absorvê-la. Para a maioria das pessoas parece que sim, o inferno é o outro. Daí surgem as reclamações infinitas. Durante muito tempo eu também acreditei nisso. E vivi manipulando todas as situações da minha vida, até mesmo as terapias e as aulas de yoga.

Mas fazemos isso o tempo todo: manipulamos! Quantos de nós não faz terapia ou yoga só "pra dar aquela relaxada", resolver momentaneamente uma parada complicada, e volta pra casa se dando por satisfeito? Eu, você e a torcida do Flamengo. Mas um dia, ao perceber que eu sempre repetia padrões, e que eram esses padrões que me levavam à crises constantes, resolvi radicalizar. Só que, para isso, foi preciso perceber a repetição desses padrões antes. E isso sim, terapias, yoga e, mais que tudo, meditação, nos ajudam a perceber. E é nesse momento que mora o pulo do gato, quando poderíamos fazer revoluções. Mas escolhemos não cruzar a linha. Porque assusta, porque cruzá-la desfaz tudo o que achávamos que nós éramos, questiona a nossa identidade, desfaz todas as máscaras, nos leva à uma profunda desterritorialização, para citar Deleuze e Guattari antes que você ache que isso só é coisa de Nova Era. Quanto à desterritorialização, os dois franceses, um filósofo e um psicoterapeuta ecologista, diziam que o perigo era não conseguir produzir uma reterritorialização. Que palavrão! Mas estão certíssimos. 

Fazendo uma salada antropofágica, que é o que me define, posso dizer que reterritorializar significa encontrar o Ser. É o resultado do se jogar de um precipício metafísico. Esse tal ser é algo que surge em nós quando colocamos à prova todas as nossas verdades. "Está bem Vanessa, mas eu estou muito bem aqui onde estou, não vivo em crise, tudo faz sentido". Que bom pra você, pode parar de ler esse texto e fazer algo mais importante. Mas se você acha que o lugar onde você está não é onde você acha que pode dar o seu melhor e, muito menos, onde você se expressa de forma mais inteira. Ou, se mesmo achando que está no lugar certo, ainda assim você não consegue ser toda a potência que grita dentro do seu plexo solar, então esse texto é pra você. Pra você que se angustia, que vire e mexe se olha no espelho e se pergunta: quem é essa pessoa? "Que cruel você, hein Vanessa, só foi avisar agora?" Sim, eu costumo não cumprir as expectativas dos outros.

Mas apesar de não cumprir essas expectativas, me fiz muito mal tentando. E por muitos anos eu vivi permanentes crises existenciais. Todos vivemos, não é? Foi numa dessas que me joguei no teatro, aos dezessete anos, para ver se eu achava um pouco de mim ali. E lá eu me encontrei com trezentas pessoas que só queriam entrar na Malhação e iam, assim, manipulando tudo que uma aula de teatro pode mexer por dentro, antes que desistisse do sonho de ser famoso e fosse parar numa comunidade alternativa em Visconde de Mauá. Eu não queria fazer TV, não gostava. Era uma adolescente rebelde. Queria me jogar no palco e estudar Shakespeare. Achava que isso me traria respostas. Quando a coisa apertou por dentro, eu saí. Não tive estrutura para continuar o mergulho, onde há o risco da desterritorialização completa, e preferi fazer faculdade e frequentar as festas loucas para esquecer o vazio. Afinal, nossa sociedade é de rebanho, como bem nos instruiu Nietzsche, e não nos ensina a lidar com a nossa potência, mas a escapar e anestesiar, apenas. Então, aos vinte e um anos, uma nova crise. De novo, a mesma sensação de vazio, de quem sou eu nesse mundo cruel. Foi quando encontrei o yoga. E aquilo foi revolucionário para mim. Depois, crise após crise, foram entrando o Budismo, a terapia Reichiana, a Meditação Transcendental e mais um monte de práticas. Criei empresas, projetos, viajei muito, bebi muito, comi muito, consumi muito, me apaixonei muito. E o yoga permanecia. E a poesia ia acontecendo também como válvula de escape. Até que a maior das crises se deu no ano passado, em meio ao falecimento da minha avó, onde eu quase pedi exoneração do meu emprego, mandando todo o mundo ao meu redor à merda e resolvendo fazer uma peregrinação de mochila pelo mundo. Típico. Mas algo me disse que isso não resolveria nada. Logo, voltei atrás. Mas cometi um erro. Continuei a vida como se nada tivesse acontecido. E como o corpo é sábio, um dia acordei passando mal. Muito mal. E assim fiquei por muitos dias. Fiz todos os exames possíveis. Nada. Nada de nada. A única conclusão plausível foi da minha irmã terapeuta: era energético. E ela me tratou com acupuntura. E foi após uma sessão de acupuntura, uma das maravilhas do mundo, que tomei uma decisão séria, a de fazer terapia. Mas não seria uma terapia tradicional. Freud, Lacan, e mesmo Reich e Jung, que são os meus queridinhos, tem muita importância. Mas eu precisava de mais. Eu precisava fazer o que nunca havia feito até então: mergulhar fundo. Ou melhor, nadar o mais longe que eu pudesse. Diz o filósofo Paul Valéry que "o mais profundo é a pele". A profundeza está na superfície, onde a gente sente tudo, onde tudo nos afeta. É nesse lugar que devemos procurar o nosso Ser mais verdadeiro. Desde então, iniciei uma jornada, que inclui hipnose, regressão e muita, mais muita meditação, porque a meditação nos situa na realidade. Nela, estamos no padrão da escuta e não da fala. Saímos do ruído do mundo e do nosso, daquele ser que só deseja, do padrão da criança que só repete "eu quero, eu quero, eu quero". E só quando silenciamos e estimulamos nossa mente a trabalhar em outras frequências, é que ouvimos a tal da intuição, que nas correntes espiritualistas e místicas (não leia religiosas) e também da Terapia Transpessoal, é chamada de voz do Eu superior, que seria o Ser, esse Eu maior que fala através de nós e que nos faz enxergar que o ego, embora importante para a nossa sobrevivência, nos sabota o tempo todo, criando infinitas máscaras. E é o nosso apego a elas, a causa de todo o nosso sofrimento. Tudo isso eu já sabia no campo do racional, mas experimentei no corpo e na mente. E o que descobri de mais impactante nisso tudo? Que eu manipulava todos os processos de autoconhecimento que tentei antes. Descobri, por exemplo, que eu manipulei minha prática de yoga por muito tempo. Criei um muro, que me impedia de me afetar pelo que a prática do yoga afetava. Porque tive medo. E, diante do medo, recuei. Não fui com medo mesmo. As pessoas que me conhecem me acham destemida. Mas sinto desapontá-las: por muito tempo eu fui, mas só na casca. Esse nadar em direção ao horizonte sem saber o que tem lá, é algo do qual eu sempre estive perto, mas todas as vezes eu fui até o ponto em que ainda dava pra parar. E como eu fazia isso, manipulava o yoga? Eu dava um tempo ou encarava apenas como um relaxamento. Porém, mesmo assim, yoga mexe no fundo, em pontos do nosso corpo que mudam padrões cerebrais (se duvida, precisa conhecer a acupuntura, que tem efeitos mais imediatos). E, por isso, mesmo sem querer, eu mantive o canal aberto. As crises foram, assim, se tornando mais tensas e densas. Até que eu resolvi cruzar a fronteira. E agora não tem mais volta. 

O que sinto, nesse momento, é o que sempre tive medo de sentir: o vazio. Espera Vanessa, não foi por sentir vazio que você viveu crises? Então, é que só agora eu entendi na pele (o mais profundo) sobre o que o zen fala. O vazio das culturas ocidentais é a falta (Freud explica). O vazio das culturas orientais é o ponto de virada, é tudo. Ele é a nossa grande chance. Desde quando me entreguei com confiança ao fato de que eu não sabia absolutamente nada, de que eu não controlava, tudo mudou. Sempre fui controladora e o tempo todo eu queria controlar os resultados das práticas e de tudo o que eu fazia. Queria controlar o outro, o trabalho, as forças da vida. Tudo de forma tão sutil, que levei muito tempo para perceber. E quando percebi, vi também o quanto o meu trabalho como produtora acabou favorecendo essa persona controladora, porque eu queria cumprir a expectativa do outro e mostrar "olha só, eu sou uma excelente produtora, resolvo tudo". Mas a vida é um compartilhar, inclusive as responsabilidades. E não, ninguém resolve tudo sozinho. Isso é uma ilusão. Eu me arrebentei nessa, deixando um monte de lixo tóxico no caminho que ainda estou limpando. A libertação da ideia de que a gente controla a vida fez toda a diferença na minha e, a partir disso, deixei de caber em algumas máscaras que criei e alimentei. Elas estavam tão coladas à face, para citar Pessoa novamente, que tive que jogar solvente pesado. Doeu, muito. E ainda dói. Porque tudo isso é um processo muito solitário. Mas o aprendizado é justamente o de aceitar essa solidão, essa dor, esse vazio  que é a chave da descoberta da nossa forma mais inteira, bela e potente de se expressar no mundo. De expressar os conceitos puros. Sem a dominação constante do ego. Passei a vida incomodada com a ideia de "pureza" na filosofia. Lia Kant e pensava: what the fuck!? Hoje eu entendo. Só que é impossível explicar, principalmente num texto, que lida com as limitações da linguagem estruturada. Mas hoje o corpo entende toda essa filosofia que me atravessou por muitos anos: o rizoma de Deleuze e Guattari, a potência de Nietzsche, a alegria de Spinoza, o desapego de Buda Shakyamuni. E muitas outras. Pela primeira vez me vejo diante das máscaras que criei com muita clareza, das manipulações que operei e ainda opero, das fugas que inventei e ainda invento. E se eu vinha traçando um rumo que parecia tão certo, hoje já estou em outro. Esses processos são assim, a gente não controla. Ainda não sei direito que outro caminho é esse, não enxergo muito bem. Ainda tenho manipulações por deixar para dar origem a uma Vanessa que é só amor, que é a melhor versão que posso ser para mim, logo, para o mundo. Que só foi vislumbrada na que existiu até agora, mas ainda não nasceu. Está em gestação, esperando o dia do parto. Só que essa gestação não tem tempo determinado, não há cesárea ou prazo de validade que faça nascer esse Ser antes do tempo dele. E esse tempo é de cada um e sem controle por esse cada um. O que nos cabe é aceitar. Aceitar todas as aparentes contradições desse processo e nos entregar ao fluxo da vida.

Seu plano A não vai funcionar. Você pode até se iludir com isso. Mas uma hora, a vida vai te colocar diante do restante do alfabeto. Minha dica de quem não faz ideia pra onde vai nesse momento? Se entregue, confie que o você que ainda pode vir é muito mais interessante e leve que o você que existe agora. Deixe o alfabeto gritar na sua cara e encontre seu Plano Aleph! Ou você acha mesmo que Macbeth estava certo quando disse que "a vida é uma sombra errante, um pobre ator que se pavoneia no breve instante que lhe reserva a cena, para depois não ser mais ouvido; uma história contada por um idiota cheia de som e fúria e sem sentido algum"? Sim, ela pode ser, mas só se você quiser continuar sendo vítima da realidade ao invés de fazer as pazes com a vida e deixar que isso te leve a um outro nível de entendimento e beleza. Trágico? Pois o trágico é a essência da vida humana. A beleza está nele. Por isso, fecho (abrindo mais) o texto com meu amigo Nietzsche, desejando a todos um bom encontro com os próprios demônios (porque enxergar o do outro é fácil...): 

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’ – Não te lançarias ao chão e rangeria os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi nada de mais divino!’ Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?’ pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última confirmação e chancela?"