Yoga: um caminho de paz e liberdade

Pense no que todo mundo busca na vida, afinal? Arrisco dizer que paz e liberdade estão na lista das principais buscas. E tentamos de tudo para nos sentirmos mais livres e em paz. Não é das coisas mais fáceis. Se fosse, não haveria tanta gente buscando terapias, e as pesquisas sobre satisfação com a vida não mostraria a maioria das pessoas no mundo totalmente insatisfeitas e infelizes. Na busca dessa paz e da liberdade, muitas vezes vamos para onde menos as encontramos: nas compras e gastanças desvairadas, na gula, no consumo constante de drogas em geral (ilícitas, álcool, remédios), nos relacionamentos rasos e em grande quantidade, no excesso de trabalho, numa doutrina que diz pra gente o que é verdade para nos poupar da experiência, na televisão e nas redes sociais. Tudo isso, na verdade, aprisiona, porque tudo isso gera apego. É preciso muito discernimento para lidar com essas seduções todas do mundo de maneira a não cair em suas armadilhas. Considero o yoga um dos caminhos para esse discernimento.

Apesar do yoga ter crescido bastante nas últimas décadas no mundo e também no Brasil, no meu círculo familiar, de amigos e colegas de trabalho, sou uma das poucas praticantes e estudiosas desse caminho. Estou nele há dezessete anos. Logo, muitas perguntas em relação ao yoga chegam a mim. Resolvi escrever esse texto para responder algumas delas. Apenas algumas, porque as principais, só mesmo a prática e o percurso individual pelo yoga podem responder. Vamos começar pela questão do conhecimento. No mundo que chamamos de ocidental, valorizamos bastante o conhecimento intelectual, a quantidade de livros que lemos, os títulos e os diplomas. Tudo isso é muito importante, especialmente para nos tornamos livres pensadores e não ficarmos à mercê das prisões ideológicas. No entanto, a tendência do ser humano é utilizar tudo isso como muleta ou instrumento de poder sobre o outro, já que vivemos numa cultura que não respeita as singularidades e pouco estimula a autonomia. Desta forma, o que seria conhecimento acaba sendo desperdiçado e, pior, transformado em violência, opressão e depressão. E como não desperdiçar conhecimento? Seguindo a famosa inscrição do oráculo de Delfos: conhece-te a ti mesmo. Conhecimento por si só não serve para nada, a não ser para transformar pessoas em bibliotecas, com a diferença de que pessoas se tornam arrogantes quando acumulam conhecimentos. Nenhum acúmulo é bom. É energia estagnada. O que nos importa é utilizar o conhecimento. Mas para que seja utilizado de forma potente para si e para o coletivo, é preciso agregar a ele o autoconhecimento. Este é, na verdade, o conhecimento dos conhecimentos. No universo do yoga, há o que é chamado yoga do conhecimento, jñana yoga. O que nos diz o jñana yoga? Para conhecer o mundo, você precisa se conhecer, explorar os seus sentidos, sua mente, seu corpo, entender suas limitações, olhar para as suas sombras. Apenas assim, se pode ter o mérito de conhecer o mundo. O autoconhecimento nos torna humildes, e essa humildade se torna uma força. Quanto mais nos aprofundamos em nós, mais aprofundamos na máxima socrática "só sei que nada sei". É libertador. E porque? Porque nos liberta das nossas carências e frustrações, ao nos situar em algo infinitamente maior, muito além do nosso ego, do nosso umbigo, das nossas convicções e crenças. Você sabia que de 87 a 95% de suas reações ao mundo são conduzidas pela soma do seu inconsciente com seu subconsciente? Pois o yoga te traz a possibilidade de se tornar mais consciente de si. Ele te oferece vivenciar a máxima de Delfos, o maior dos conhecimentos. E como isso é possível? Passemos ao próximo ponto: o silêncio. Não, ainda não falaremos do corpo. Todas aquelas posturas incríveis que você vê nas fotos são a ponta do iceberg do yoga. O que existe embaixo é muito maior.

Há um antigo provérbio indiano que diz: "quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio". Isso revela o quanto aquela cultura ancestral, criadora do yoga, valoriza o poder do silêncio. Em última instância, acessar a finalidade do yoga, que é reduzir o sofrimento, passa por acessar o silêncio, o grande silêncio universal que revela quem somos em essência: potência de vida, amor em forma humana, fractais de uma grande inteligência cósmica. No entanto, isso não é misticismo, muito menos delírio de uma comunidade hippie ou New Age. Também não é religião, embora o yoga flerte com todas as religiões que nasceram na Índia (hinduísmo, budismo, jainismo e siquismo). Mas o yoga tem sua dimensão e existência à parte das religiões. Na Índia, é um dos seis darsana, ou seja, conhecimentos, pensamentos, pontos de vista. E é algo que se entende na prática. Vou escrever todas essas linhas e não serão suficientes. Yoga é algo que se vive. É uma filosofia prática de conexão com nossa essência cocriadora da realidade, que muitas vezes desconhecemos. Mas já viu as pesquisas mais recentes sobre o poder de nossa mente, encampada pelos pesquisadores de PNL (Programação Neurolinguística)? Já parou para ler os artigos científicos sobre os poderes da meditação? Pois então, provavelmente (porque a data é incerta) cinco mil anos antes de tudo isso e de algumas pessoas começarem a falar em Lei da Atração, o Yoga já trazia para a cena o poder e a responsabilidade da mente humana.

Buda Shakyamuni, essência do príncipe Sidarta Gautama, conhecido como O Buda, que foi um grande yogi, um iluminado como chamam na Índia, concentrou seu ensinamento inteiro no poder da mente, comprovado pela experiência de imersão no silêncio. E incentivou aqueles ao seu redor a fazerem o mesmo: não acreditar nele, mas experienciar. Quando estudamos a história dos grandes yogis encontramos coisas como levitação, materialização e mestres que sabiam até a hora de sua morte e puderam escolher onde estar nesse momento e o que realizar antes, tamanha a conexão que estabeleceram com o cosmos, tamanho o poder de sua intuição e capacidade cocriadora. Claro que não estou dizendo, com isso, que quem se propõe a trilhar a senda do yoga um dia vai conseguir levitar, ou que esse deva ser o objetivo. A questão é que estes mestres todos que há milênios vêm descobrindo os poderes da mente, têm muito a nos ensinar, que seja nos mostrando um pouco do imenso poder que surge do ato de silenciar a mente. É preciso se desidentificar de forma total de sua existência repleta de ruídos e pensamentos para alcançar níveis extremos de materialização, como num dos casos mais emblemáticos do mundo yogi, o de Paramahansa Yogananda, autor do best-seller Autobiografia de um Iogue e criador da Self-Realization Fellowship, que conscientemente sabia a sua hora de morrer e assim o fez, parando o próprio coração. Isso é o que se chama na cultura indiana de mahasamadhi, a passagem consciente de um grande yogi para outro plano. Mas Yogananda já nasceu sabendo que o yoga, o grande yoga, seria o seu caminho. Foi-lhe revelado. Era uma criança estudiosa e que promovia pequenos milagres. Para nós, que estamos nos iniciando no yoga, que não somos nem seremos iluminados, o que podemos tirar de aprendizado disso tudo? O poder do silêncio, pois é através dele que começamos a deixar de nos identificar com o caos que habita a nossa mente, e também o caos que é o mundo fora de nós. É pelo silêncio que percebemos as camadas sutis do nosso corpo e do nosso comportamento e, assim, vamos eliminando os condicionamentos. "Cessar as flutuações da mente". Tal é a definição de yoga como escrito nos Yoga Sutras, primeiro texto inteiramente dedicado ao yoga, que teria sido escrito por um sábio indiano de nome Patañjali (ou por um grupo de sábios) por volta do século IV a.c. Mas há muito mais nos Yoga Sutras que este pequeno aforismo e aconselho a quem está nesse caminho que leia o texto, lembrando que a prática ancora o estudo intelectual. Ler os Yoga Sutras sem ter praticado yoga é até interessante, mas não vai te fazer nunca entender o que está escrito. Ali está o cerne da tradição do yoga. Vou dizer porque eu - e muitos praticantes e pesquisadores do yoga - considero isso.

Sutra é uma palavra em sânscrito que pode ser traduzida como fio. É um tipo de escrita que segue algumas regras. As frases devem ser bastante concisas e precisas, sem ambiguidade, onde cada uma depende da anterior e prepara a próxima. Ou seja, é muito difícil isolar uma frase e deixá-la clara. Embora eu tenha isolado uma, talvez a mais famosa e passível disso, o texto é composto de centenas delas, dividido em quatro capítulos. Cada capítulo traz a base do yoga, que segundo os Yoga Sutras é uma disciplina de purificação da mente. Sua base prática é o sistema ashtanga (ahsta - oito e anga - passos), o sistema dos oito passos, que são: yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi. Os dois primeiros, yama e niyama, são a ética do yoga, que deve estar no horizonte do yogin e da yogini (o homem e a mulher que se colocam no caminho do yoga). São o que o professor e pesquisador Pedro Kupfer chama de proscrições (não ferir - princípio da não violência, não mentir, não roubar, não usar a sexualidade de maneira leviana e agressiva, não cobiçar, não se apegar) e prescrições (pureza, contentamento, austeridade, auto-estudo, entrega). O terceiro passo é o asana, postura física que prepara o praticante para o melhor aproveitamento do que vem a seguir, logo, dos estados mais sutis do corpo. Asana é o passo mais conhecido e visível do yoga. No entanto, no caso dos Yoga Sutras, não há qualquer menção às posturas que conhecemos. Patañjali diz apenas que a postura deve ser firme e estável (o que seria a postura para a meditação). Os asanas como os conhecemos hoje só começam a aparecer na literatura por volta do século XII, culminando no Hatha Yoga Padripika, um tratado do século XIV que, ainda assim, não traz a imensidade de posturas que conhecemos, o que é muito mais recente. Um dos maiores expoentes do yoga como conhecemos hoje, com grande variedade de asanas, é Krishnamacharya, um yogi dos séculos XIX e XX que viveu mais de cem anos e influenciou gerações de praticantes, entre eles dois dos principais professores do século XX, criadores, cada um, de seus próprios métodos, bastante calcados nos asanas: Sri Pattahbi Jois, que criou a Ashtanga Vinyasa Yoga, e B.K.S. Iyengar, criador do método que leva o seu nome, a Iyengar Yoga. Voltando aos Yoga Sutras, após o asana vem os pranayamas, exercícios de expansão da energia vital (prana), o que se dá especialmente através da respiração, e o pratyahara, a chamada liberação dos sentidos, uma capacidade de fazer retrair os seus sentidos para se liberar do mundo externo e visual e voltar o olhar para dentro. Apenas assim se consegue atingir o estado de dharana, concentração para acalmar a mente, e dhyana, a meditação, ou seja, cessar o fluxo de pensamentos. Tudo isso junto leva ao estado de samadhi, que muitos traduzem por iluminação, mas há controvérsias, pois há quem argumenta que a iluminação (que é o que a cultura indiana tem como liberação dos ciclos reencarnatórios) é, na verdade, o kaivalya, de que trata o último capítulo dos Yoga Sutras, onde há uma comparação entre o yoga e diferentes sistemas de mundo indianos. Esse conceito de iluminação não necessariamente faz parte do yoga, mas da cultura ancestral da Índia. De toda forma, sendo iluminação ou não, o samadhi é um entendimento da realidade que só pode ser alcançado ao se seguir esses passos, quando o yogi entende Purusha, a grande consciência universal, e passa a haver a compreensão do verdadeiro Eu (Satcitananda), a verdade, a consciência e a plentitude. É impossível descrever o que é isso, porque eu talvez só tenha tido vislumbres do samadhi, se é que tive. O que posso afirmar é que tive experiências na meditação bastante radicais e diferentes de tudo o que já vivi. No entanto, tenho consciência que ainda há muito o que experienciar e que, para começar esse caminho mais profundo, preciso estar em trabalho com algum grande mestre, que funciona como um guia para que encontremos o que já existe dentro de nós.

Aliás, não existe yoga sem essa relação entre mestre e discípulo, porque, como insisto, yoga é prática. E toda prática se aprende com alguém mais avançado que você nela. Nesse sentido, embora o yoga tenha nascido nos Vedas, os textos sagrados da Índia produzidos por volta de 2.000 a.c, sendo assim os textos conhecidos mais antigos da humanidade, o sistema chamado Tantra nos ajuda bastante a entender o Yoga, assim eu acredito. Os Vedas são um conjunto de quatro livros onde encontramos uma série de conhecimentos sobre as relações de causa e efeito na vida, com o objetivo de instruir o ser humano à libertação dos condicionamentos. São a base do hinduísmo, mas é preciso clarificar que a religião surge posteriormente às escrituras nesse caso. Estão, desta forma, além das tradições religiosas da Índia e mesmo do posterior sistema de castas que, felizmente, desde quando se tornou proibido na constituição indiana após a independência, vem sendo combatido, especialmente por lideranças femininas que tenho acompanhado com muita alegria. Gosto de ressaltar isso para que não se confunda alhos com bugalhos, pois já vi gente torcer o nariz pro yoga por achar que era religião ou porque, em tese, viria de uma tradição castradora. O mesmo em relação aos Vedas, associando-o a uma cultura hierárquica que surge muitos séculos depois que, sim, se apoiou nos Vedas, mas na interpretação que lhe foi mais conveniente. Eu mesma, no início da minha prática, confundia tudo. Os Vedas informam sobre rituais, ensinam hinos e o poder dos mantras em configurar a realidade, por serem considerados sagrados, os próprios som e fala da criação e da dinâmica do universo. Falam de medicina (Ayurveda), yoga, autoconhecimento. Estão mais próximos da espiritualidade do que da religiosidade, pois a primeira fala da relação direta do ser com a experiência de se estar vivo e com o mistério, enquanto a segunda trata de instituições. Foram escritos em sânscrito antigo, ou védico, uma língua indo-europeia que deu origem ao sânscrito clássico, que hoje é apenas utilizada em ritos e nos mantras (somente são considerados mantras aquilo que se encontra nos Vedas), de estrutura altamente complexa e bela, com regras bem rígidas sobre entonação e até mesmo duração das sílabas. Parece mesmo uma língua mágica. É impressionante ir ao Vedas e descobrir como já estava lá muito do que se fala hoje nas correntes quânticas da espiritualidade, mesmo na física, na PNL, na nutrição etc, o que torna aquela civilização indiana uma das grandes que o mundo já teve. Porém, os Vedas são textos instrutivos e de transmissão de um conhecimento considerado sagrado e, em relação ao yoga, apenas o citam. É com os Yoga Sutras que o yoga ganha notoriedade como caminho, numa época em que se decidiu compilar os grandes conhecimentos da Índia, como aprendi com o pesquisador Daniel de Nardi. Ainda assim, Yoga Sutras é um texto também. Já o Tantra é uma corrente indiana baseada totalmente na prática. Aprendi no Tantra Yoga que apenas a experiência é válida e que o corpo é o canal para o experimento da realidade mais plena. Se o intelecto faz alguma diferença, isso é totalmente secundário. Não se sabe as origens certas do Tantra, embora alguns pesquisadores queiram precisá-lo na sociedade dravídica que existiu há quase seis mil anos no Vale do Indo (norte da Índia e partes do Paquistão e Afeganistão) e que seria uma sociedade libertária e matriarcal, algo bastante difícil de provar. Assim, seria um sistema tão ou mais antigo quanto o Vedanta, o sistema de autoconhecimento proposto nos Vedas. Por se apoiar na prática, seus textos são muito mais recentes, coisa já dos séculos IV a VIII d.c. quando predominava uma cultura letrada na Índia e bastante hierarquizada, que relegava o Tantra a uma posição marginal. São textos muito herméticos, talvez para burlarem a censura de uma época onde o conhecimento ficava nas mãos de alguns poucos privilegiados, a casta dos sacerdotes. Além disso, tantra não é yoga necessariamente. Como também não é sexualidade, como o neotantrismo ocidental fez parecer. É um modo de viver que se ancora na prática e na experiência, falando muito por alto. Mas há o yoga tântrico, entre eles a Dakshina Tantra Yoga, que tive a alegria de estudar com o mestre no Brasil, Paulo Murilo Rosas, e uma grande professora formada por ele. A Dakshina Tantra Yoga não se baseia nos Yoga Sutras. Na verdade, o texto não importa muito a essa corrente, pois o corpo importa mais que observações éticas. É a experiência física, caminhando para a supra-física e os níveis mais sutis, que te leva ao conhecimento e, necessariamente, a uma postura mais ética diante da vida. Pude comprovar isso por muitos anos, mas ainda assim considero os Yoga Sutras a base do yoga. Não vejo como ele e o Tantra se excluem, já que o texto deixa bem claro que nada do que ali está escrito se comprova pelo intelecto, mas apenas pela prática. Mesmo as proscrições e prescrições, que podem não ser as primeiras na sequência de práticas e observações, como define Patañjali, e sim uma consequência natural da prática, como poderia nos levar a Dakshina Tantra Yoga.

Fato é: caminhe por onde queira caminhar, encontre um mestre, um professor, um instrutor. Alguém para te ajudar a encontrar o seu potencial yogi, o você mais essencial, liberto de camadas e camadas de condicionamentos desde a infância. E estude e se autoestude. Tenho a sorte de ter estudado e tido contato com figuras fundamentais do yoga no Brasil e me sinto levada a citá-los, pois sem eles este texto jamais existiria, como não existiria a yogini Vanessa. De forma direta, Hari Darsana Dasa, que me apresentou à Ashtanga Vinyasa Yoga e ao Vedanta, Sotanter Kaur, mestra de Kundalini Yoga, Matthew Vollmer, grande professor de Ahstanga Vinyasa, Paulo Murilo Rosas, o mestre, e Eliane Oliveira, meus guias na Dakshina Tantra Yoga, e Beth Siqueira, com quem me iniciei na Meditação Transcendental. E como mestres à distância, tão fundamentais quanto os presenciais, professor Hermógenes, grande introdutor do yoga no país e meu primeiro mestre através de meu pai e de seu livro Autoperfeição com Hatha Yoga, Pedro Kupfer, cujos textos e vídeos são meus guias nos estudos e me trazem o grande conhecimento que recebeu de Swami Dayananda Saraswati, Leandro Castello Branco, formado por Pedro e, consequentemente, por Swami Dayananda, e Dany Sá, com quem eu me aperfeiçoava na Ashtanga Vinyasa através de seus vídeos nos dias em que eu praticava em casa. E se cabe inserir na lista um grande yogi que poucas vezes é associado ao yoga mas à política, esse é Gandhi, sem sombra de dúvida uma inspiração para mim no caminho por sua postura prática de ahmisa, a não-violência, princípio básico da vida de um yogi.

Por tudo isso, é que yoga vai muito além das posturas. Assim, não é algo que se aprende em lugares ruidosos e onde as pessoas não se concentram, porque pede introspecção. Também não é algo que você pode considerar como um conhecimento se o pratica de forma leviana ou apenas como um exercício físico. Esqueça as belas posturas. Você pode, claro, se encantar com elas. Eu sou bastante encantada, acho lindo, é realmente uma experiência bela e forte ver uma postura "bem feita" ou executar bem um asana. Mas como diz Paulo Murilo Rosas, yoga não é ficar de cabeça para baixo, mas aprender a caminhar com os próprios pés. Não é o asana finalizado, mas o que aquele asana te proporciona energeticamente e mentalmente e o que o processo de aprender a executá-lo te ensina sobre você e como te prepara para a vida. Yoga é olhar para dentro. Por isso é preciso manter o sadhana, a rotina de prática. Cada vez que você pisa no seu tapete, você se olha, se entende e passa a entender melhor o mundo. Você faz como os dias e as noites, repetindo o eterno ritual do recomeço. Por isso também, cada dia de prática é um dia diferente. Haverá dias muito difíceis e outros extremamente fáceis. E o yoga passa a fazer sentido exatamente quando você termina a sua prática, enrola o seu tapete e vai para o mundo. Se yoga é olhar pra dentro, é para poder estar fora mais inteiro, mais livre, mais presente e com mais coragem. O caminho é realmente longo, já que desde o nascimento vamos sendo tolidos socialmente, o que nos leva a não enxergar que toda a paz e liberdade já estão dentro de nós. E será assim por muito tempo ainda se não adotarmos práticas de libertação de forma generalizada na sociedade. Eu diria que yoga é um longo caminho curto, me apropriando de uma expressão do rabino Nilton Bonder de seu maravilhoso livro "A alma imoral". Porque yoga não é um atalho. Atalhos são muito perigosos. Lá na frente, eles nos cobram e nos revelam o quão custosos são. Pegar o caminho que se precisa pegar, o de olhar para si, é coragem de saber que nada sabemos. De que outra forma podemos nos sentir livres? Vivemos presos a obrigações, a necessidade de agradar, a carências, a ideia de que o outro, o Estado, a Igreja, a família são responsáveis pela nossa felicidade, quando a felicidade está dentro de nós, no despertar de um amor enorme pela vida independente se esta vida está do jeito que a gente gostaria que ela estivesse. Porque não depende de nós. Quem é você para dizer como a vida deve ser? Como o mundo deve ser? Você pode fazer isso, mas para você! Não para tornar isso um imperativo categórico para o outro. E na sua mudança, é que contagia os demais a também mudar. O yoga nos torna insignificantes diante do mistério da vida e, justamente por isso, nos traz grandeza, liberdade e a tão sonhada paz interior. Só mesmo vivendo para saber o que é. Se você sente esse chamado, comece. Simplesmente isso, e nada mais.