2.8.19

Diante do concreto

Disponíveis antes que a força bruta
Desmantelasse os ossos de tempos sofridos
Estávamos, eu e tu, diante do concreto
O relógio marcava 23 horas
Chovia fino, havia silêncio, fazia calor
Teus olhos quase claros e gestos singulares
Não davam margem para dúvidas
E eu permanecia sentada observando,
Como se a qualquer momento o mundo
Fosse entrar em guerra
E seríamos os dois, em duvidosa moral,
carregados a um campo de extermínio ou trabalhos forçados
Numa Gulag imprevista de um mundo
Pós-democrático
Perseguidos pela Gestapo das almas perdidas
Antes fosse história, ópera, burlesco
E, na madrugada, pudéssemos apenas
Ouvir com deleite o silêncio e os grilos
Você, a fumar seu cigarro olhando pro nada
E eu, a escrever meu livro, mais umas páginas
Antes fosse apenas filosofia
E um muro não separasse as fomes
E um oceano não se transformasse em máquina de guerra
O que virá não sabemos
Sequer sabemos o que queremos
Você anda perdido de tão encontrado
Amante de tudo nas sacadas de todos
Peito aberto até pra um holocausto
E eu devorada por palavras a todo instante
Não sei o que incita a fome de sentido metafísico
Se leitura de Proust ou Cícero
O mundo é um lugar cheio de abismos
Saibamos o som e a fúria
De nosso pranto e riso
A fortuna virá nos revelar o caminho!



1.8.19

Nós, os egoístas

Ah! Como são tantos a falar
Dos geminianos sem coração
Que se importam, mas não tanto
Esses de alma torta
Que mudam de casa
Mais que de sapato
E começam e começam
A deixar os fins para os outros
Ou nas palavras rabiscadas em cadernos
- Porque não há fim
Tanto quanto só há fim -
Nós, os obscuros
Estudantes dos astros
Para quem a vida é uma teia de mistérios
Da qual só sabemos existir
Pela consciência e nada mais
Pois nada nos obriga
A ter teorias sobre as coisas
Nós, os de sangue insular
Que sentem apertar ao peito
Os maquinismos
Os paquetes
Os marinheiros
Os que constroem estradas
No mar sem fim visto das esplanadas
E nos telhados de Lisboa
Ou de uma terra estrangeira
A minha, mais que a tua
E no sentir tudo de todas as maneiras
Ao íntimo, o gelo do nosso coração
É uma casca fina
De quem sente fingindo
E finge que sente
Gostamos mesmo é do drama
Como o meu em derramar lágrimas
À tua cômoda
Que graça tem a realidade
Da gente que segue os protocolos
E dá à luz o esperado?
Nós, os ridículos e solitários
Escrevemos tantas cartas de amor
Só pelo gosto de escrevê-las
Foi tanto assim o nosso amor?
Ou foi o nosso nervo fingidor?
Basta! Nascemos poeta
Deve ter algum sentido nisto
Que seja termos que criar algum
Caso a providência não saiba
O que fazer com isso
De toda forma, a ti ficou o gênio
Quanto a mim, só o tempo


Lisboa, 03 de fevereiro de 2018



Planeta Mar

Quando me apresentaram a ti Eu era uma criança E tu já eras uma entidade: Aquela que deveria nomear o planeta, Planeta Mar. Desde então...